1218 -Luiz Vieira (PE) ganha tributo aos 90 anos em espetáculo gravado e disco pela Kuarup 

Álbum celebra a obra do consagrado compositor através de intérpretes de diferentes gerações em novas gravações 

Um dos maiores e mais autênticos compositores da música brasileira, o músico cantador pernambucano Luiz Vieira, carinhosamente tratado no meio artístico por Menino Passarinho, completou 90 anos em 12 outubro do ano passado e para celebrar esta data especial, um notável elenco subiu ao palco do Teatro Itália, na cidade de São Paulo, dez dias antes, em 2 de outubro. O objetivo era celebrar a música e a poesia de Vieira na gravação do espetáculo que se transformou em um álbum de 20 faixas e rendeu um programa especial para o Canal Brasil, levado ao ar em 26 de janeiro, Um exemplar do disco, lançado recentemente pela produtora e gravadora Kuarup, está sendo tocado no momento em que redigimos esta atualização, gentilmente enviado à redação do Barulho d’água Música pelo diretor da Kuarup Musica, Rodolfo Zanke, ao qual e à cuja equipe agradecemos.

A gravação das 20 faixas levou ao Itália nomes de diferentes estilos e gerações da música brasileira como Daniel, Renato Teixeira, Zeca Baleiro, Maria Alcina, As Galvão, Claudette Soares, Alaíde Costa, Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, Moacyr Franco, Ayrton Montarroyos, Socorro Lira, Graça Braga, Anastácia, Verônica Ferriani e Zeca Baleiro, Altemar Dutra Júnior, Célia & Celma, Sérgio Reis, Claudette Soares e Eliana Pittman. A direção musical e os arranjos couberam ao pianista Alexandre Vianna e  a direção artística e a produção a Thiago Marques Luiz.

À época se recuperando de uma pneumonia, Luiz Vieira, por recomendações médicas, não pode comparecer. A ele caberia interpretar ao lado dos filhos mais novos (os gêmeos de 11 anos, Jorge e Luiz) Ponteio (Edu Lobo). Outra ausência sentida foi a de Ângela Maria, inicialmente escalada para coordenar a festa e receber os demais convidados, mas a Rainha do Rádio partiu dias antes, em 29 de setembro. Ela também se tornaria nonagenária em 13 de maio deste ano e também acabou homenageada no show.

O álbum da Kuarup é mais uma obra prima da gravadora que ressurgiu das cinzas, agora nas mãos da competente equipe de Zanke. Resgata e ajuda a tornar ainda mais admirados sucessos de Vieira que já atravessam décadas e estão na memória afetiva de várias gerações como Menino de Braçanã, Prelúdio Pra Ninar Gente Grande (em cuja letra há os versos que renderam ao homenageado o apelido “Menino Passarinho”), Paz do Meu Amor, Inteirinha, Na Asa do VentoGuarânia da Lua Nova. Algumas das vozes que as interpretam agora são contemporâneas de Luiz Vieira e gravaram canções dele nos anos 1950 e 1960, como os Agnaldos e Moacyr Franco,  E o texto de apresentação do álbum é de outro ícone da cultura nacional, o Sr. Brasil Rolando Boldrin, que se inspirou na carreira de Luiz Vieira nos anos 1960 para se tornar o famoso apresentador de causos e canções da televisão brasileira, hoje na TV Cultura. 

Luiz Vieira, natural de Caruaru (PE), tem profícuos 70 anos de carreira. Nesta rica trajetória gravou dezenas de discos, foi apresentador de rádio, de televisão de importantes emissoras e teve músicas gravadas por mais de 100 expoentes da MPB incluindo Maria Bethânia, Rita Lee, Caetano Veloso, Ivan Lins, Zizi Possi, Paulinho da Viola, Fagner, Alceu Valença, Nara Leão, Luiz Gonzaga, Evinha, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Marlene, Inezita Barroso, Amelinha, Taiguara e Elba Ramalho, entre outros.

Luiz Rattes Vieira Filho de batismo, recebeu o nome de um dos avôs. Ainda aos dois anos, ficou órfão da mãe, e, antes dos dez se mudou para o estado do Rio de Janeiro para ser criado pelo avô, em Alcântara, município de São Gonçalo. Na ex-capital federal, a cidade do Rio de Janeiro àquela época, exerceu diversas atividades antes de ingressar na vida artística: chofer de caminhão, motorista de táxi, guia de cego, engraxate e lapidário. Ainda criança, cantou em circos e em parques de diversão e somava oito anos ao produzir sua primeira composição.

No início da carreira, Luiz Vieira preferia músicas românticas, valsas e samba-canções. Em uma rodada do programa de Renato Murce, na cidade do Rio de Janeiro, imitou Vicente Celestino, apresentou-se como crooner de orquestra num cabaré do bairro carioca da Lapa e assim conseguiu ser contratado pela Rádio Tupi, por intermédio de Paulo de Grammont. Em 1950, já integrava o cast das rádios Tupi e Record, de São Paulo, que pertenciam às Emissoras Associadas.

A canção Menino de Braçanã, composta em 1953 (em parceria com Arnaldo Passos), tornou-se seu primeiro sucesso, na voz de Roberto Paiva e, em seguida, o cantor Ivon Curi a gravou. No disco dos 90 anos, a interpretação coube a Renato Teixeira, acompanhado, entre outros, músicos pelo acordeonista do momento, Thadeu Romano. (Também participam do álbum  Ronaldo Rayol, ao violão, João Benjamin, ao baixo acústico e  o baterista Rafael Lourenço,)  

Entre 1954 e 1961, além de cantor da rádio e televisão Record paulista, Viera passou, ainda, pela Rádio Nacional (CBN). O programa Encontro com Luiz Vieira, levado ao pela extinta TV Excelsior, no canal 9, de São Paulo, estreou em 1962 e neste mesmo ano Vieira ganharia as paradas de sucesso com a canção Prelúdio Pra Ninar Gente Grande — que no álbum da Kuarup ganhou as vozes da trinca Timóteo, Rayol e Franco. Em 1963, emplacou outro grande sucesso, Paz do Meu Amor (Prelúdio nº 2), que Daniel reinterpretou, abrindo os trabalhos no Teatro Itália.

Luiz Vieira chegou a fazer diversas viagens aéreas por semana para cumprir agendas em cinco programas de televisão, cruzando o país, do Ceará ao Rio Grande do Sul. Também se tornou locutor da Rádio Manchete e é estudioso das músicas de cordel.

Faixas do álbum: 1. Paz do Meu Amor (Daniel)/ 2. O Menino de Braçanã (Renato Teixeira)/ 3. Guarânia da Lua Nova (As Galvão) / 4. Guarânia da Saudade (Ayrton Montarroyos) / 5. Os Olhinhos do Menino (Altemar Dutra Júnior) / 6. Estrada da Saudade (Célia&Celma) / 7. Inteirinha (Claudette Soares) / 8. Na Asa do Vento (Verônica Ferriani e Zeca Baleiro) / 9. Estrada do Colubandê (Maria Alcina e Edy Star) / 10. Pagando o Pato (Raimundo José) / 11. Maria Filó/O Danado do Trem (Anastácia) / 12. Corridinhos da Saudade (Socorro Lira) / 13. Balada do Amor Sublime (Moacyr Franco) / 14. Cativo (Sérgio Reis) / 15. Resto de Quem Parte (Agnaldo Rayol) / 16. Estrela Miúda (Graça Braga) / 17. Nossos Destinos (Eliana Pittman) / 18. Estrela de Veludo (Márcio Gomes) / 19. Poema de Um Bruto (Agnaldo Timóteo) / 20. Prelúdio Pra Ninar Gente Grande/Menino Passarinho (Agnaldo Timóteo, Agnaldo Rayol e Moacyr Franco).

https://music.apple.com/br/album/luiz-vieira-90-anos-ao-vivo/1461566990

Querido amigo e amado poeta LUIZ VIEIRA 

Ao ver você “dobrar” a “Esquina da Vida” (90), cercado de discípulos maravilhosos. numa comemoração tão “arretada”, tive Inevitavelmente que “voar” com o pensamento pra mentalizar os anos quando você apresentava o seu programa de TV. na Excelsior.

Ali. ao VIVO e em preto e branco, você “desfilava” suas obras, contava e declamava belíssimas histórias nordestinas

Foi ali, vendo e assistido emocionado as suas declamações. (Zé da Luz – “Brasil Caboclo”) e vendo a sua impecável Interpretação no seu eterno “MENINO PASSARINHO” que senti passar o meu ANJO bom (que me acompanha até hoje). pra sentenciar-me – Está aí. ROLANDO BOLDRIN Este deve ser e será o seu “caminho”. É Isso que você deve APRENDER a fazer: emocionar as pessoas. contando e cantando um BRASIL de verdade 

Foi ali, assistindo emocionado você, que escolhi o meu “DESTINO” de artista brasileiro. Por Isso, amado Poeta, LUIZ VIEIRA, você foi, ainda é e continuará sendo, eternamente, o meu maior MESTRE. 

Um grande beijo deste seu ETERNO admirador. que por motivos de “Viagem” não estava presente em CARNE-E-OSSO na sua FESTA.

PARABÉNS MESTRE LUIZ VIEIRA

Rolando Boldrin, outubro de 2018 

Braços curtos

A música Menino de Braçanã foi o primeiro sucesso de Luiz Vieira, que a gravou, em 1954, pela gravadora Todamérica, apontou o articulista Paulo Peres, autor em 28 de maio de 2017 do texto Um menino de Braçanã, que trazia Jesus Cristo no seu coração, publicado no portal Tribuna da Internet.

Peres observou:“Braçanã é um lugar situado no Município de Rio Bonito, no Rio de Janeiro, onde Luiz Vieira morou algum tempo. Antigamente, as terras para serem vendidas eram medidas através de braçadas, isto é, a pessoa abria os braços e, consequentemente, contava uma, duas, cem, mil braçadas etc.  Entretanto, se alguém desconfiasse que a medida não estava correta, dizia que a terra parecia ter sido medida pelos braços de uma anã, surgindo, daí, o nome Braçanã”.

Sobre a Kuarup 

Especializada em música brasileira de alta qualidade, o seu acervo concentra a maior coleção de Villa-Lobos em catálogo no país, além dos principais e mais importantes trabalhos de choro, música nordestina, caipira e sertaneja, MPB, samba e música instrumental em geral, com artistas como Baden Powell, Renato Teixeira, Ney Matogrosso, Wagner Tiso, Rolando Boldrin, Paulo Moura, Raphael Rabello, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Elomar, Pena Branca & Xavantinho e Arthur Moreira Lima, entre outros. 

Kuarup Música, Rádio e TV: http://www.kuarup.com.br 

Telefones: (11) 2389-8920 e (11) 99136-0577/ Rodolfo Zanke rodolfo@kuarup.com.br/

 

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1211 – Wallace Oliveira Trio abre turnê paulista com concerto gratuito na Casa de Cultura Ipiranga*

Proposta dos músicos  é apresentar a versatilidade da guitarra portuguesa, acompanhada por violão e percussões, com repertório que vai do rock à milonga, da world music ao baião em uma narrativa musical que une o tradicional ao contemporâneo, parte do repertório do álbum lançado em 2018 com concorridas apresentações além-mar

Com Eliane Verbena, da Verbena Comunicação

Após turnês de sucesso em Portugal, o Wallace Oliveira Trio traz a versatilidade da guitarra portuguesa, instrumento tradicional do fado, para espaços da cidade de São Paulo, em quatro concertos gratuitos neste mês e em agosto, e ao 19º Festival de Inverno de Paranapiacaba (FIP), em Santo André (SP). Formado por Wallace Oliveira (guitarra portuguesa), Sérgio Borges (violão de sete cordas) e Adriano Busko (percussão), o trio tocana Casa de Cultura Ipiranga, neste domingo, 21 de julho, às 16 horas. Duas apresentações no FIP estão previstas para uma semana depois, no dia 28 de julho: a partir das 15 horas, no Palco Mercado, e, depois acompanhada pela fadista luso-brasileira Ciça Marinho, no Palco Rua Direita, às 18 horas. Wallace, Borges e Busko regressarão à Capital para novas rodadas em 16 , 21 e 23 de agosto (ver a guia Serviços)

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1186 – Conheça o autor de “Luar do Sertão”, poeta admirado nos palácios e aclamado nas ruas

Ao apostar na temática popular e cantar a dor de amores contrariados, Catulo da Paixão Cearense levou a música da boemia para os salões da aristocracia carioca, com um toque de regionalismo, consagrando-se como um dos nossos mais criativos autores e compositores

Linques originais das matérias que ajudaram a produzir este texto:

https://www.sescsp.org.br/online/artigo/12103_SERESTAS+AO+LUAR

https://www.sescsp.org.br/online/selo-sesc/608_A+PAIXAO+SEGUNDO+CATULO#/tagcloud=lista

O Barulho d’água Música recorreu mais uma vez às páginas da Revista E, do Sesc de São Paulo, para trazer aos amigos e seguidores esta atualização sobre Catulo da Paixão Cearense, autor de joias memoráveis do nosso cancioneiro — algumas que há mais de cem anos embalam sucessivas gerações, como Luar do Sertão –, rememoradas em álbum do Selo Sesc lançado em 2013 e em matéria publicada na edição de junho de 2018 da Revista E, conforme disposto nos linques acima deste texto.

Hoje, 10 de maio, completam-se 73 anos que o Brasil parou para acompanhar em 1946 os funerais do violonista e seresteiro, poeta e compositor dos mais geniais e que costumava dizer: o violão o conduziu à poesia e sua sensibilidade foi formada pelo contato com a natureza nordestina. Catulo nasceu em 8 de outubro de 1863, mas diferentemente do que sugere o próprio nome, veio ao mundo na cidade de São Luiz, capital do estado do Maranhão, de onde a mudança com a família para o Ceará ocorreu quando ainda era criança. Além de alimentar as lembranças da infância, a região do novo lar entrou em seu repertório por meio da literatura de cordel e de cantadores como Manoel Riachão.

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1164 – Com novo show, Oswaldo Montenegro cantará em evento de aniversário de Barueri (SP)

Agenda do cantor de Bandolins inclui apresentações em várias cidades ao lado de Renato Teixeira em outro projeto do Menestrel

Em comemoração ao aniversário de 70 anos de emancipação político-administrativa de Barueri, em 26/3, a Secretária de Cultura e Turismo da cidade situada a 26 quilômetros da cidade de São Paulo, lindeira a Oeste pela rodovia Castello Branco,  organizou uma agenda de eventos para durar todo o mês, com atrações e atividades para toda a família.  Para este domingo, 10/3, está previsto que o cantor e compositor Oswaldo Montenegro deverá apresentar gratuitamente o show O Azul e o Tempo, no Parque Municipal Dom José,  gratuitamente, a partir das 11 horas.

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1154 – Sutileza e contundência, sem firulas, marcam novo disco de Ayrton Montarroyos (PE)

Pernambucano que vem recebendo diversos elogios da crítica pelo trabalho de pesquisa e interpretação da canção popular brasileira lança seu segundo disco, em parceria com o violonista do Sr. Brasil Edmilson Capelupi

A gravadora Kuarup está lançando Um mergulho no nada, segundo álbum do cantor de Recife (PE) Ayrton Montarroyos (Ayrton José Montarroyos de Oliveira Pires), no qual acompanhado pelo violonista Edmilson Capelupi interpreta por meio de um bem elaborado repertório clássicos da MPB e de contemporâneos como Ylana e Yuru Queiroga. E que ninguém se perca pelo nome escolhido por Ayrtinho — como é chamado por familiares como a avó Célia o jovem pernambucano nascido em 1995 – para batizar o álbum gravado em uma única apresentação no glamouroso Teatro Itália em 1º de abril de 2018, na cidade de São Paulo: pare o mundo por meros 35 minutos, menos que um dos dois tempos de pelada, e faça o julgamento apenas após terminar a última das 10 faixas — se é que pelo meio da audição o amigo ou seguidor já não estiver tomado por um “magnetismo inescapável”, como escreveu o crítico e jornalista Lucas Nobilo, que ouviu Um mergulho no nada “quatro vezes de enfiada” e também estamos fazendo desde que o disco chegou à redação, gentilmente cedido ao Barulho d’água Música por Rodolfo Zanke, a quem mais uma vez somos gratos.

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1149 – Yamandu Costa e Thadeu Romano aliviam saudades do mestre Dominguinhos em show único no Sesc Pinheiros (SP)*

Repertório  vai passear por músicas dos discos que o violonista gaúcho gravou com o sanfoneiro de Pernambuco, mesclado a sucessos de Tom Jobim, Sivuca, Abel Ferreira, Chico Buarque, Luiz Gonzaga…
*Com Lu Lopes (Rubra Rosa Projetos Culturais)

Yamandu Costa e Thadeu Romano vão apresentar Salve Dominguinhos, trazendo de volta aos palcos composições de Yamandu + Dominguinhos e Lado B (discos que ambos gravaram juntos, em 2007 e em 2010) com uma única apresentação marcada para a noite de sexta-feira, 1º de fevereiro, na unidade Pinheiros do Sesc da cidade de São Paulo (ver guia Serviços). Em 2018 completamos cinco anos sem o sanfoneiro pernambucano que nos deixou em 23/7/2013. Mais do que as saudades, ele nos deixou um legado imenso de obras para música. Seu Domingos, apesar de ter partido aos 72 anos, encantou jovens músicos de várias gerações e, por essa razão, sempre viveu cercado pela novidade da juventude.

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1140 – Nelson da Rabeca e esposa, com Thomas Rohrer, lançam álbum “áspero”, mas que encanta pelo tom festivo*

Vozes e instrumentos lembram o carro de boi, os gritos roucos do dia de trabalho, o atrito entre madeiras, metais e rochas e revelam  o modo como esses sons são articulados e dão a eles um tom de celebração
* Com Tiago Mesquita, do Selo Sesc

A audição matinal do sábado, 29/12, aqui no cafofo/redação do Barulho d’água Música, na Estância Turística de São Roque, Interior paulista, começou com Tradição Improvisada, álbum do Selo Sesc lançado em junho que destaca o inédito e feliz encontro entre Thomas Rohrer, Seu Nelson da Rabeca e  Benedita dos Santos. O disco reúne 23 faixas que revelam a união dos músicos em torno das rabecas produzidas por Nelson dos Santos. O instrumento, de timbre tão peculiar, permitiu que as sensibilidades musicais dos músicos de Alagoas e da Suíça se entendessem como Pelé e Coutinho.

A música chegou tarde para Nelson da Rabeca, nascido Nelson dos Santos  em março de 1929 na cidade alagoana de Joaquim Gomes. Embora possua memória extensa do repertório da música popular executada naquele estado, o instrumentista, compositor e luthier voltou-se para as artes só depois de décadas de trabalho penoso no corte de cana. Impressionado com o som de um violino que ouvia pela televisão, decidiu reproduzir um instrumento de cordas, a ser tocado com arco. E assim descobriu como fabricar, afinar e tocar a rabeca por conta própria.

Embora análogo, o instrumento de Nelson não soa uniforme como os das cordas da orquestra, pois tem um zumbido metálico. O rabequeiro deixa ranger as cordas e, acorde após acorde, faz com que o som, rouco, emule harmonias que nos remetem às cantigas medievais, às cirandas e aos xotes dos cantores de rádio. O timbre é arranhado, mas o toque é festivo. Com mais de 50 anos de idade, o artista descobriu uma maneira de viver mais intensamente pela música. Faz tempo que ele é jovem desse jeito.

Antes de se dedicar a fabricar e a tocar rabecas, Nelson dos Santos trabalhou penosamente no corte de cana, no Interior alagoano: Foto: Flavio Vogtmannsberger

Esse som original, incontrolável, temperado de maneiras não convencionais, fez com que Thomas Rohrer se iniciasse na rabeca. Quando chegou ao Brasil, o músico suíço originário da Basileia não tocava mais o violino que aprendera na infância: tornara-se saxofonista de recursos infinitos. Dedicado à produção de música nova, Rohrer fez da improvisação livre seu método principal. Para ele, o improviso é um modo de evitar os cacoetes harmônicos tradicionais e de buscar maior diálogo com outros procedimentos criativos. A sua música parece mais espontânea, aberta a novos sons, novas formas de tocar.

Rohrer conheceu a rabeca no fim da década dos anos de 1990, por meio de Zé Gomes, um dos músicos mais importantes do Brasil. O instrumento pôs Rohrer em contato com timbres inusitados e um repertório rítmico saído do sertão nordestino. O som que mais chamou a atenção foi o da rabeca de Seu Nelson. Quando pôde, adquiriu um instrumento e se aproximou do rabequeiro de Marechal Deodoro (AL). Ali nasceu a colaboração musical que resultou em Tradição Improvisada. Infelizmente Zé Gomes, outro interlocutor dos dois músicos, não sobreviveu para participar do projeto.

Nesse disco do selo Sesc, Nelson da Rabeca, Benedita dos Santos, Thomas Rohrer e Panda Gianfratti trabalham com sons ásperos. A voz e os instrumentos lembram o carro de boi, os gritos roucos do dia de trabalho, o atrito entre madeiras, metais e rochas. No entanto, o modo como esses sons são articulados dão a eles um tom de celebração, de alegria incontida, como se com aquele pouco a vida pudesse se tornar uma festa interminável. Em uma das faixas do disco, a partir de rangidos desencontrados, os músicos encontram uma progressão de acordes que nos lembra um trechinho de Cintura fina, de Luiz Gonzaga. Sons rudes vão estabelecendo contatos gentis, festivos, como se um convidasse outro a abrir a carranca e aproveitar a vida.

Aliás, são as letras de Benedita dos Santos que melhor expressam esse esforço para encontrar uma canção que faça sentido para a vida de todos. Suas palavras musicadas são fundamentais no disco. Elas falam de amores que não pedem nada em troca, do encontro com maravilhas naturais e sobrenaturais e da felicidade que a música trouxe a ela e a NelsonAs músicas também são sobre encontros, amor e amizade. Um desses encontros é o da cultura popular com a improvisação livre: duas formas de resistir à homogeneização da música pela indústria cultural. Aqui, essas formas de arte dançam juntas no baile infinito de Nelson da Rabeca e Thomas Rohrer.

A Revista Bravo! deste mês elegeu o disco Tradição Improvisada entre os melhores do ano.


*Tiago Mesquita é o autor do texto desta atualização

Leia também no Barulho d’água Música:

1012- Título de melhor rabequeiro do Brasil é pouco para reconhecer a contribuição de Zé Gomes (RS) à música do país
853 – Katya Teixeira (SP) recebe amigos e fãs em teatro lotado e lança Cantariar comemorando 21 anos de trajetória
Músico que quando menino tocou para Lampião, Sebastião Biano (AL) lança em Sampa álbum com banda de pífanos Terno Esquenta Muié

1123- Zé Guilherme lança “Alumia”, álbum com sonoridade acústica e músicas autorais

O cantor e compositor cearense radicado em São Paulo chega ao quarto álbum e comemora o amadurecimento artístico aos 20 anos de carreira *

* Com Eliane Verbena

Após lançar, em 2015, um disco em homenagem ao “cantor das multidões”,  Orlando Silva, o cantor Zé Guilherme  deixou de lado o viés confortável de ser “apenas” intérprete para lançar Alumia,  seu quarto álbum, com repertório em sua maioria de músicas autorais. Cearense radicado em São Paulo, Zé Guilherme conta: “Nunca tive pretensões de ser um compositor, pois meu ofício maior é o de cantor. A poesia é um exercício que me acompanha desde a adolescência, mas só agora, depois de 20 anos de dedicação à música, eu me sinto mais à vontade para mostrar também o meu lado autoral.”

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1122 – “O Banquete dos Mendigos”: disco duplo de Jards Macalé e um coletivo de artistas que peitaram a ditadura completa 45 anos

Bolachão foi gravado ao vivo na cidade do Rio de Janeiro,  em clima tenso, com tropas dentro e fora do MAM e ficou seis anos “recolhido” até finalmente ser lançado em 1979, intercalando músicas e os 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que, naquele dia, completava 25 anos

Com o blogue Criatura de Sebo e Jornal GGN

O Barulho d’água Música retoma a série Clássico do Mês para nesta mais nova atualização antecipar a comemoração do aniversário de 45 anos, que ocorrerá em 10 de dezembro, do álbum O Banquete dos Mendigos, gravado ao vivo, em 1973, no Museu de Arte Moderna (MAM), na cidade do Rio de Janeiro. E por que antecipar a matéria sobre este emblemático disco? Para recordar  nestes tempos em que há nuvens sombrias pairando sobre os valores e as instituições que promovem a democracia, o respeito e amor ao próximo, que o show que resultou na gravação do projeto dirigido por Jards Macalé comemorava, naquela ocasião, os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também tinha a função de chamar a atenção da população brasileira para a violação, em larga escala e sob aplicação de intensa violência, de direitos civis pelos militares que estavam no poder. Após a Comissão Nacional da Verdade, recentemente, entregar seu relatório oficial sobre as barbaridades cometidas em nome do Estado nos anos de chumbo, cobrou-se a punição aos crimes da ditadura, o fim de seus “entulhos” — resquícios como os “autos de resistência”, que ceifam a vida da juventude negra nas periferias do país, a perseguição às minorias que formam o segmento LGBT,  aos partidários de setores mais à esquerda do espectro político — que candidatos durante as mais recentes eleições voltaram a demonizar, atribuindo a adversários socialistas, por exemplo, pechas e rótulos que não só os desumanizam, como os transformam em “monstros”, trazendo das trevas, por exemplo, a ridícula crença de que “comunistas” são por si só homens maus e que estes “comem criancinhas”, como se dizia naquela época na qual as “fake news” já estavam por ai.   Continue Lendo “1122 – “O Banquete dos Mendigos”: disco duplo de Jards Macalé e um coletivo de artistas que peitaram a ditadura completa 45 anos”

1120 – Dani Lasalvia, João Omar e Cao Alves lançam álbum em tributo a Dércio Marques

Disco lançado em São Paulo traz 12 composições do mineiro que ajudou a projetar o cantor e compositor  Elomar — que o define como “o último menestrel” –,  é seguido por vozes marcantes da música regional e tem destacada importância para a cultura popular latino-americana 

A cantora Dani Lasalvia e os violonistas Cao Alves e João Omar lançaram na noite de sábado, 20 de outubro, Recantos – ao Apanhador de Cantigas, com o qual reverenciam a memória e a obra do mineiro de Uberaba Dércio Marques, violeiro, cantor, compositor e pesquisador dos mais emblemáticos e representativos da música brasileira. O trio recebeu amigos e admiradores no palco da galeria Itaú Cultural, em São Paulo, para o tributo a Marques, falecido em 2012, em Salvador (BA).

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