Barulho d'Água Música

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979- Jucilene Buosi recorda sucessos de Elis e de Mercedes Sosa como atração do Julho Fest, em Poços de Caldas (MG)

Cantora e atriz, Jucilene Buosiexpoente dos mais representativos da música sul mineira e do Estado, protagonizará neste domingo, 23, apresentação em Poços de Caldas durante a qual o público poderá matar saudades de Elis Regina e de Mercedes Sosa — duas consagradas expressões latinoamericanas. O show previsto para começar às 20 horas, na Casa de Cultura do Instituto Moreira Salles (IMS), intregra a programação do JulhoFest e brindará o público com canções imortalizadas tanto pela gaúcha Elis Regina, quanto pela argentina Mercedes Sosa, cujas vivências, atitudes e histórias construíram as biografias de duas mulheres que direcionaram fundamentais conquistas femininas em seus países, utilizando o canto como instrumento. Acompanhada por Albano Sales (piano) e Eduardo Sueitt (percussões), Jucilene Buosi interpretará com sua performance vocal sempre expressiva Volver a los 17, Gracias a la vida, Casa no campo, O bêbado e a equilibrista e Yo vengo a oferecer mi corazón, entre algumas das mais aclamadas músicas do repertório tanto da Pimentinha, quanto da La Negra, como carinhosamente os fãs e admiradores tratavam as homenageadas.

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919 – Morre em Paris o cantor e compositor Ángel Parra, filho de Violeta Parra

A música chilena sempre foi respeitada e conhecida dentro e fora do país e do continente como um bastião de resistência política e de engajamento em várias lutas sociais, notadamente nos anos em que se combateu a feroz ditadura de Augusto Pinochet, general que em 11 de setembro de 1973 liderou o golpe que destituiu e matou o presidente democraticamente eleito Salvador Allende. Ángel Parra, uma das vozes que se levantou contra o estado de exceção urdido e estabelecido com apoios dos Estados Unidos e de grupos terroristas de direita logo se viu detido no campo de concentração de Chacabuco, de onde apenas saiu para o exílio, forçado por Pinochet.  Àquela época com 30 anos, o cantor e compositor filho da icônica Violeta Parra, primeiramente, estabeleceu-se no México, que o acolheu por três anos. Em 1976, Ángel se transferiu para França, lá permanecendo até sábado, 11, quando um câncer que se espalhou a partir dos pulmões o calou em Paris, aos 73 anos.

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861- Conheça Soledad Bravo, espanhola radicada na Venezuela cuja voz ecoa contra governos tiranos, exalta a democracia e a liberdade

O Barulho d’água Música apresenta hoje, baseado em biografia escrita pela jornalista Ivonne Attas, Soledad Bravo, cantora e compositora que nasceu em Logroño, capital da província e comunidade autônoma de La Rioja (Espanha) e que junto com os pais, perseguidos pela ditadura de Francisco Franco, precisou pedir asilo político à Venezuela, em 1943, adotando, então, o país sul-americano como sua pátria.  A condição de filha de imigrantes com toda bagagem de sonhos e esperanças deixados para trás devido ao exílio configurou sua postura frente à vida e a vocação social que manifesta por meio de sua poética e do seu canto. Escolheu cantar por compromisso social e se entrega com paixão à defesa de causas que considera justas pela melhor convivência e liberdade em sociedade.

 

Acolhida na nova terra, estudou Arquitetura na Universidad Central de Venezuela (UCV). Durante o período como estudante, revelou-se revolucionária de ideário esquerdista, perfil que marca suas primeiras canções, impregnadas do sentimento de busca por justiça social que, à época, acreditava que se poderia instituir apenas por um processo socialista. Por esta forma de pensar, ganhou a simpatia do líder da revolução de Cuba (1959) Fidel Castro e a admiração de cantores cubanos como Silvio Rodríguez e Pablo Milanés, dos quais se aproximou; simultaneamente, na Venezuela, cercou-se de artistas como Alí Primera que professavam seu credo ideológico, no plano interno e em âmbito internacional. Sofía Imber a descobriu e a convidou para o programa de televisão que apresentava: no ar, ao violão, Soledad Bravo causou imediatamente impactos favoráveis e conseguiu abrir as portas para uma carreira de sucesso já solidificada pelo lançamento desde então de cerca de 40 discos.

Com a queda do general que dominava a Espanha (1976), regressou ao país europeu e assumiu o papel de cantora mais famosa e engajada do processo de transição, chegando a gravar um álbum com o poeta Rafael Alberti. De volta à Venezuela, mantém-se comprometida com causas justas, porém como tantos intelectuais para os quais o projeto ideológico abraçado anteriormente resultou em utopia, coloca-se abertamente contra o modelo socialista inaugurado na Venezuela por Hugo Chávez,  depois de morto sucedido por Nicolás Maduro. Soledad continua a cantar canções de Pablo Milanés e Silvio Rodríguez, por exemplo, como fez ao brindar recentemente estudantes em Aula Magna da UCV defendendo a própria autonomia e os presos políticos hoje em cárceres venezuelanos sem acesso ao processo e sem direito à digna defesa.

Comenta-se que o atual modo de pensar de Soledad Bravo derivaria do seu casamento com Antonio Sánchez García, formado em História e Filosofia na Universidad de Chile, país onde ele nasceu. Antonio é autor de livros considerados importantes sobre a ditadura e a democracia. Em entrevistas para emissoras de rádio e de televisão, costuma rechaçar todo regime autocrático, ditatorial e de corte esquerdista e militarista. Soledad Bravo, entretanto, segue amada na Venezuela e comovendo públicos de várias gerações,  que a aplaudem quando canta músicas de protesto e por ter sabido como trocar o discurso político sem rasgar o ideário de valores que empunhou quando jovem e já contestadora.

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Um dos álbuns mais marcantes nesta linha de pensamento e de atividades de Soledad Bravo é a coletânea de músicas do período entre 1968 a 1975, Cantos Revolucionários da America Latina. Naqueles anos quase todos os países da América do Sul estavam sob as botas de atrozes governos, apoiados por interesses sobretudo ianques, mergulhados em regimes de tirania e exceção e que no Brasil, por exemplo, ficou conhecido por “anos de chumbo”. A adoção de ferrenha censura e a perseguição aos opositores eram das mais rígidas medidas de controle das massas, mas Soledad Bravo, com sua poderosa voz e associando cantos folclóricos a letras de protestos, alcançou popularidade em todo o continente ao encarar as ditaduras latino-americanas. Entre as faixas de Cantos Revolucionários, por exemplo, há homenagens aos poetas Federico Garcia Lorca e a Pablo Neruda, ao presidente Salvador Allénde, (deposto por golpe no Chile, em 1973); encontra-se Hasta Siempre (dedicada a Che Guevara, de Carlos Puebla); Su Nombre pode ponerse em versos (de Félix Pita Rodríguez e Pablo Milanés, para Ho Chi Minh, revolucionário e estadista vietnamita); Porqué los pobres no tienen (Violeta Parra); Parabién a La Paloma (que o Tarancón gravou em seu disco Gracias a la vida); Pobre del cantor (Pablo Milanés); e Santiago del Chile (Silvio Rodriguez). Outro destaque é  Grilheiro vem, pedra vai (Rafael de Carvalho), que ela canta em português.

Baixe Cantos Revolucionários de http://nomadesemfronteira.blogspot.com.br/2016/04/soledad-bravo-cantos-revolucionarios-de.html

Mirian Mirah


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836 – Cala-se a marcante voz de Mariana Avena, intérprete de Mercedes Sosa, estrela do Raíces de América e do Tarancón

O Barulho d’água Música registra, com pesar, que hoje, 25 de março, a música latino-americana perdeu Mariana Avena. A morte da cantora, para muitos dos seus fãs e amigos que publicaram manifestações em páginas de redes sociais após a divulgação do óbito, foi recebida “como um soco no estômago” e autores de algumas mensagens chegaram a demonstrar total incredulidade, recusando-se a acreditar na notícia e até afirmando que poderia se tratar de mentira, pois Mariana Avena nem ao menos estaria adoecida. No entanto, conforme informações de pessoas mais próximas, Mariana Avena sucumbiu na Argentina à luta que travava contra um câncer, no fígado.  

Nascida em Palermo, Buenos Aires, Maria Avena cresceu no seio de uma família de músicos e compositores de tango, em um dia 4 de agosto. O nome dela, no Brasil, está diretamente associado tanto ao Raíces de América, quanto ao Tarancón, dois dos mais conceituados grupos de divulgação e de preservação da música latino-americana, conhecidos em todo o continente sul-americano e em vários países.

 

A vida musical de Marina Avena, portanto, começou ainda em sua terra natal, inspirada e motivada pelo avô paterno, bandoneonista da orquestra de Juan Maglio “Pacho” e Osvaldo Fresedo.  O tio Osvaldo Avena é considerado até hoje um dos maiores guitarristas e compositores da música argentina. Na casa onde ela passou a infância, conviveu com artistas, poetas e compositores como Mercedes Sosa, Susana Rinaldi, Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Chabuca Granda, José Angel Trelles, Armando Tejada Gomez, Hamblet Lima Quintana, Osvaldo Piro, Facundo Cabral e muitos outros. 

A influência desses amigos fez com que Mariana Avena integrasse ao seu repertório tanto o tango, quanto o folclore nacional e latino-americano, influências que se tornaram marcantes já em seu primeiro trabalho profissional, em parceria com o poeta Héctor Negro, com o qual promoveu vários shows de tango e poesia. A entrada para o Raíces de América, um convite do empresário argentino Enrique Berguenfeld, que estava morando no Brasil, ocorreu em 1980. A partir de então,  foi a cantora com a qual o grupo se apresentou nos maiores teatros de São Paulo e de capitais de vários estados.  

O Raíces de América no  primeiro ano de atuação de Mariana Avena atraiu mais de 40.000 pessoas aos seus espetáculos, ganhou festivais e ficou reconhecido como um verdadeiro fenômeno da música latino-americana. Como parte da história da rica musica latino-americana no Brasil, o Raíces de América surgiu durante o regime militar no Brasil e logo conquistou o público estudantil, segmento que na época se caracterizava pelo engajamento na luta pela democracia. O grupo gravou onze álbuns, e em 1982 obteve o segundo lugar no Festival MPB Shell, com a música Fruto do Suor.mercedes

Mercedes Sosa tornou-se a madrinha artística do grupo, possibilitando a Mariana Avena cantar em diversos palcos com a conterrânea de San Miguel de Tucumán. Mercedes teve Mariana ao seu lado em diferentes momentos de sua brilhante e imorredoura carreira artística, inclusive nos últimos shows que a Grande Negra realizou em São Paulo.

Mariana Avena protagonizou vários tributos a Mercedes Sosa em teatros paulistanos e casas como as unidades do Sesc, assim ajudando a manter no coração dos fãs o carinho pela madrinha à medida em que se consolidava como artista de fulgurante carreira, elogiada pelo público brasileiro na maneira de cantar e de interpretar. Em alguns dos seus shows, desenvolvia após cantar projeto que unia música e educação, com o intuito de divulgar a música latino-americana, suas raízes culturais, suas semelhanças e diferenças. Ela abordava nestes bate-papos características culturais dos povos latino-americanos e seus instrumentos. com participação dos músicos. Assim, o público absorvia dados da história e origem de cada instrumento, como foram construídos, em que época e como chegaram até o continente americano.

Mariana Avena deixa ampla discografia, a maioria editada em São Paulo. Como solista, conquistou plateias em países como França, Equador, Argentina, Chile, Espanha e Finlândia, onde representou seu país natal  no show Buenos Aires, todo tango, acompanhada pelo Sexteto Tango. Na França, foi escolhida como representante da canção latino-americana pela Ecole D’Orly de Dijon apresentando-se junto ao músico francês Patrick Berthelon em Paris, Nice e Lyon. Na Finlândia, participou do Festival de Tango Markinat, na cidade de Seinajoki, prestigiado por 150.000 pessoas.

Homenagens de amigos a Mariana Avena

“A nossa querida Mariana Avena  foi seguir sua viagem!  Muito triste!! Vá com Deus amiga, e muito obrigada por ter-me mostrado tanta beleza!”, por Dandara Costa Souto

“Gracias a la vida! Hoje perdemos uma importante e grandiosa artista latino-americana. Perdemos a presença forte da cantora argentina Mariana Avena. Sua voz grave é imortal. Gracias, Mariana! A humanidade segue empobrecida…”, por Verônica Valério

“Vá em paz, Mariana! Faça parte de um coral de anjos!”, por Fernando Alves Chagas

“Obrigada pela sua amizade, carinho e atenção. Graças por sua vida, que nos deu tanto amor”, ‎por Denise Almeida

Parte da obra de Mariana Avena pode ser conhecida e ouvida por meio do linque http://www.marianaavenacantora.com/#!discografia-/c1xrz


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804 – Um ano depois de lançar “O Tempo e o Branco”, Consuelo de Paula encanta o público do Sesc São Caetano e chega ao Japão

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Consuelo de Paula, mineira de Pratápolis, já aos 13 anos comandava bloco feminino de Carnaval e “inventava” peças de teatro, dando vazão à veia artística que herdou dos pais e que resulta de sua sensibilidade e inclinação às tradições da terra natal (Fotos acima e no destaque: Marcelino Lima/Arquivo Barulho d’água Musica)

 A cantora, compositora e poetisa Consuelo de Paula está comemorando um ano de sucesso de O Tempo e o Branco. O sexto álbum da carreira desta mineira de Pratápolis que adotou São Paulo, mas hoje mora em vários peitos, foi lançado em 1º de fevereiro do ano passado  no Auditório do Ibirapuera (SP), com participações de Guilherme Ribeiro (acordeom) e João Paulo Amaral (viola caipira), músicos que na ocasião substituíram, respectivamente, Toninho Ferraguti e Neymar Dias, que utilizando os mesmos instrumentos gravaram em estúdio com Consuelo de Paula, mas na ocasião atendiam outros compromissos profissionais. O disco, inspirado livremente nas poesias de Cecília Meireles,  apresenta composições próprias que unem aspectos da música erudita a uma essência e referências ligadas ao cancioneiro popular brasileiro do qual, no show que se tornou inesquecível, cantou, por exemplo, Cuitelinho, Mucuripe e Saudosa Maloca.

A escolha instrumental para os arranjos de O Tempo e o Branco, composta de acordeom e viola caipira, representa bem essa relação com as raízes musicais que levou Consuelo de Paula a homenagear no batismo da obra Dércio Marques, seu conterrâneo de Uberaba, e o sambista do Brás, do Bixiga, da Barra Funda, de Ermelino Matarazzo, da Penha, da Vila Ré, da Vila Matilde e adjacências Adoniran Barbosa. O tributo ao amigo do Arnesto foi por meio de uma composição que ela apresentou pela primeira vez após escrever a letra para melodia dele e de Copinha, de 1934, que ganhou o singelo título Valsa para Matilde — nome da esposa do mais famoso passageiro do trem das onze. Outro momento de emoção: por meio da projeção de um vídeo, o público pode ver e ouvir, também, Rubens Nogueira, o saudoso Rubão, um dos parceiros, compositores e arranjadores mais próximos da mais cintilante daquela noite que até então sucederia um dia chuvoso em Sampa, mas transformou-se em uma pintura de mil estrelas. 

Quase uma volta completa da Terra em torno do Sol depois deste evento que emplacou entre os dez mais destacados do Auditório do Ibirapuera em 2015, Consuelo de Paula de novo encantou e magnetizou o público, desta vez levando ao Sesc de São Caetano do Sul (SP), em 29 de janeiro, manifestações e ritmos como Moçambique, Toada de Congo, Folia, Jongo e Samba que escolhera para o repertório de  Tambor de Rainha, show com o qual encerrou o projeto Eu vi uma História. Para transmitir a emoção guardada de vários momentos de encantamento ao ver um cortejo popular passando (fascínio que aos 13 anos já a tomava e a estimulou a fundar um bloco feminino de Carnaval em Pratápolis só para extravasar sua paixão por batucar), Consuelo de Paula cantou do começo ao fim (acompanhada em coro pela plateia) alternando tambores, violão e um pandeiro composições autorais inspiradas em tambor de crioula, baião e maracatu.

Os admiradores ouviram, assim, tanto canções dos vários álbuns solo (incluindo o novíssimo O Tempo e o Branco), quanto versos do poeta africano Craveirinha e trecho de Azul Provinciano (que ouviu na voz de Mercedes Sosa), enriquecidos por um trecho do livro A Poesia dos Descuidos, que escreveu e recebeu ilustrações de Lúcia Arrais Morales. A lista teve ainda parcerias dela com Rubens Nogueira, Vicente Barreto, Luiz Salgado, Socorro Lira, João Arruda e Rafael Altério que se juntaram a clássicos de Ataúlfo Alves, Alceu Valença e Luís Perequê, à uma adaptação de Villa Lobos para o cancioneiro nordestino e à interpretação bem particular, ao pandeiro, de Insensatez (Vinícius de Moraes e Tom Jobim). Depois de vários cantos de chegança que incluíram congadas que aprendeu na terra natal com Capitão Custódio, o “recoiê” homenageou Milton Nascimento por meio de Caicó.

Tantas tradições evocadas pelas canções e, em particular, entre os instrumentos, os tambores, são justamente o que caracterizam Consuelo de Paula. Sem querermos ceder concessão aos estereótipos, embora saibamos a força que os rótulos ainda exercem, dona de beleza cujos traços a assemelham a uma exuberante nórdica, a cantora estaria a priori mais para a formação erudita e se encaixaria, à priori, muitíssimo bem a uma banqueta de  piano (instrumento que ela queria aprender a tocar, ao seis anos de idade, mas não encontrou professor na cidade, o que a fez chorar). Consuelo, entretanto, mais do que seguir impulsos ou ceder a eventuais modelos, atendeu ao som interior de suas raízes e optou por se entender com as baquetas de tambores e as platinelas dos pandeiros, dando vazão a ritmos crioulos e tupis, pois independentemente do tom da pele e de estéticas, é, antes, filha das sagradas Alterosas, uai,  estado no qual confluem para o mesmo caldeirão ascendências diversas como a afro, a indígenas e a caipira.

Desta bendita conjunção, enfim, brotou uma açucena que se regou bebendo destas fontes universais e, mais do que se apropriar de manifestações do nosso multiétnico povo para traçar uma trajetória “alternativa”, as incorporou, tornando-se para além de lídima porta-voz uma referência para pesquisadores, novatos, olhos e ouvidos aos quais interessarem não a aparência, os badulaques e os apelos sedutores da arte, mas a essência que tempera e colore as tradições nas quais repousam a alma da nação. O gene do Brasil Profundo revela-se em sua obra e esta identidade também começou a se constituir dentro de casa.

Consuelo de Paula é filha de Luiz Gonzaga de Paula e Zélia Silva de Paula. O pai gosta de escrever versos, contar causos e é craque nos improvisos que um bom repentista sempre tem as manhas de produzir. A mãe responde pela segunda voz sempre que se reúne a família em cantorias (“foi o ritmo que uniu o casal nos bailes da cidade”, informou-nos Consuelo, lembrando que a avó paterna já cantava na igreja). A biografia de Consuelo de Paula registra, ainda, que ela “inventava” peças de teatro, tocava na fanfarra e fazia serenatas quando adolescente e, e em Ouro Preto, tocou repinique no Bloco do Caixão.

O talento e sensibilidade de Consuelo de Paula, portanto, além de virem do barro de sua aldeia e dos arredores, têm origem no sangue. É por meio deles que ela consegue enxergar entre o sol e o vento a poesia presente tanto em  pequenas flores ou no fluir e refluir “corriqueiro” de uma onda do mar, quanto na imponência de uma Mantiqueira e na grandiosidade dos oceanos. Consuelo de Paula é particular e, sem ser genérica, atlântica, humanista que em suas letras indica-nos caminhos pacíficos quando abre as retinas para entoar as singularidades e o que nos deveria  fazer a todos irmãos (quer sejamos palestinos ou judeus, cristãos ou ateus); guerreira, à medida que levanta a voz (sem esgarçar o tom) remando contra a maré do mercado do entretenimento e das tendências, vai descobrindo o seu lugar: em cada vez mais e mais numerosos corações. E  lá, em cada um deles, espera por nós, sempre com um sorriso espontâneo, uma declaração de amor!

Então, salve o santo, salve o samba, salve o maracatu, salve a moda, o cururu, a Folia, salve ela, êxtase que passa e (nos) perpassa, doce, mas forte, sutil, entretanto enfática, arrepio que depois do show em São Caetano do Sul agora roçará peles do outro lado do planeta: por meio de um programa especial da rádio Shiga, em 11 de fevereiro, os japoneses terão a honra e o prazer de conhecer o repertório de O Tempo e o Branco. Namastê!

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648 – Tenha em seu acervo álbum do Sexteto Mundano e de Sarah Abreu em homenagem a Violeta Parra!

Os amigos e fãs do Sexteto Mundano, Sarah Abreu Carlinhos Antunes estão recebendo Violeta Terna y Eterna, álbum de 10 faixas com o qual prestam tributo a Violeta Parra, com a especial participação da neta da homenageada, Tita Parra .  Violeta Parra é uma das mais marcantes artistas do século XX e gravou seu nome como eterno não apenas seu país natal, mas em todo o mundo como um ícone na cultura popular que, além de música compositora e instrumentista responsável por pesquisar e resgatar inúmeras canções e estilos folclóricos latino-americanas, expressava-se profundamente também como ceramista e tecelã. Autora de Gracias a la vida, morreu precocemente aos 49 anos, em 1967, seis anos antes da feroz ditadura militar de Augusto Pinochet se instalar no Chile, em 11 de setembro de 1973.

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Mariana Avena, voz marcante da música latino-americana, afilhada de Mercedes Sosa, faz aniversário hoje

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O Barulho d’água Música registra o aniversário de Mariana Avena, argentina de Buenos Aires, onde nasceu em Palermo, no seio de uma uma família de músicos e compositores de tango, em um dia 4 de agosto. No Brasil o nome de Mariana Avena está mais diretamente associado tanto ao Raíces de América, quanto ao Tarancón, dois dos mais conceituados grupos de divulgação e preservação da música latino-americana, conhecidos em todo o continente sul-americano e e em vários países, do qual ela foi integrante. A vida musical de Marina Avena, entretanto, começa bem antes da chegada dela ao país, ainda em Buenos Aires, inspirada e motivada pelo avô paterno, bandoneonista da orquestra de Juan Maglio “Pacho” e Osvaldo Fresedo.  Osvaldo Avena, tio, é considerado até hoje um dos maiores guitarristas e compositores da música argentina, e, na casa onde crescia, reuniam-se artistas, poetas e compositores como Mercedes Sosa, Susana Rinaldi, Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Chabuca Granda, José Angel Trelles, Armando Tejada Gomez, Hamblet Lima Quintana, Osvaldo Piro, Facundo Cabral e muitos outros. 

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