1277 – Álbum Sons Sobre Tons, da OCAM, traz homenagens a Tomie Ohtake

Disco tem regências de Gil Jardim, Filipe Fonseca e Enrico Ruggieri e traz entre novos compositores os vencedores de concurso inspirado na artista plástica japonesa

O álbum Sons sobre Tons – Criações Musicais sobre Ideias Visuais (distribuição Tratore), da Orquestra de Câmara (OCAM) da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), é  reflexo de uma determinada cena de compositores da cidade de São Paulo. A primeira parte, gravada em 2016, traz componentes da OCAM daquele ano, executando obras de Alexandre Lunsqui e Valéria Bonafé. A outra parte, de 2019, mostra os vencedores do Concurso de Composição Musical Tomie Ohtake, promovido em, 2019: Wellington Gonçalves, Paulina Łuciuk e Yugo Sano Mani. O exemplar que ouvimos enquanto escrevíamos esta atualização nos foi gentilmente enviado pelos jornalistas da cidade de São Paulo Beto Priviero e Moisés Santana, da Tambores Comunicações, aos quais somos gratos e agradecemos por apoiarem nosso trabalho.

Considerada um dos principais organismos artísticos da USP, a OCAM tem 25 anos e confirma, com este lançamento, a diretriz de praticar programação aberta e eclética, explorando universos sonoros plurais. Nestas mais de duas décadas, tornou-se referência no âmbito das orquestras profissionalizantes, promovendo trabalho caracterizado pela qualidade de performance musical e concepção arrojada com que desenvolve suas ações. Criada pelo maestro Olivier Toni (1926/2017) em 1995, possui um corpo sinfônico de 45 músicos, selecionado entre alunos do Departamento de Música da USP e instrumentistas ligados à orquestra via cursos de extensão. Desde 2001, é dirigida pelo maestro Gil Jardim, que procura fazer com que os alunos interajam com a amplitude de possibilidades musicais.

Gil Jardim à frente da OCAM (Foto: Marcelo Macauê)

Gil Jardim, cuja versatilidade tem permitido desenvolver trabalhos na área erudita e popular, é autor do livro O estilo antropofágico de Heitor Villa-Lobos (2006) e lançou O Soprador de Vidro (1999), escrito para o Balé do Teatro Castro Alves (Salvador/BA), e Villa-Lobos em Paris (2006). Este recebeu os prêmios Diapason d’Or e Prime (Revista Bravo). E produziu, fez arranjos atuou em espetáculos e discos de Milton Nascimento, Gilberto Gil, Naná Vasconcelos, John McLaughlin, Branford Marsalis e outros.

CD ‘Sons sobre Tons’

Em 2016, foram gravadas as obras Fibers, Yarn and Wire e Carreteis II, de Alexandre Lunsqui, e A menina que virou chuva, de Valéria Bonafé. Lunsqui é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e considerado único pela forma com que constrói seus discursos musicais. Valéria oferece obra de densidade dramática, um pequeno ‘réquiem’ dedicado a uma sobrinha que viveu poucos minutos. 

As gravações de 2019 trazem os vencedores do Concurso Tomie Ohtake. Em parceria com o Instituto do mesmo nome, a OCAM organizou o evento com objetivo de fomentar a criação entre estudantes. Realizado em três categorias, cada uma foi inspirada em uma obra da artista japonesa, naturalizada brasileira, Tomie Ohtake (1913-2015). Os vencedores foram Wellington Gonçalves, com Dinâmica de fluidos/ensemble, Paulina Łuciuk, Afterimage. Homage to Tomie Ohtake/orquestra de câmara) e Yugo Sano Mani A escuridão, o corpo vermelho e o fascínio/orquestra de cordas). Gil Jardim é responsável pela regência, mas atuam também os regentes Filipe Fonseca (Carretéis II) e Enrico Ruggieri (A escuridão, o corpo vermelho e o fascínio).

Obras de Othake que inspiraram os vencedores do concurso todas sem títulos

Gonçalves, 30 anos, foi membro do estúdio PanAroma, importante centro de pesquisa e difusão de música eletroacústica. Com relação à obra ele disse: “todo material contínuo se deforma quando submetido a uma força”. 

Sano Mani, 26, que faz mestrado em Sonologia/Processos de Criação Musical na USP, comentou: “Quis viver um processo no qual vem o fascínio gerado pela visão que me atingiu, não uma interpretação hermética”.

A polonesa Paulina, 26, Mestre em Composição pela Academia de Música de Cracóvia (Polônia), vive há dois anos no Brasil, e comentou:  “É uma ilusão de ótica na qual a imagem continua aparecendo mesmo após a exposição à imagem real ter terminado. É uma ‘pós-imagem’.”

Leia sobre Tomie Othake em:

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa4437/tomie-ohtake

Artista: OCAM–ECA/USP (Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes da USP)
CD: Sons sobre Tons – Criações Musicais sobre Ideias Visuais
Regência: Gil Jardim, Filipe Fonseca e Enrico Ruggieri
Distribuição Tratore – www.tratore.com.br – (11) 3085 1246 – Preço: R$ 30, (em média)
Disco digital disponível para download ou streaming: iTunes, Google Play, Spotify, Deezer, Apple Music

imprensa | Tambores Comunicações |
(11) 3887 7430 – 99966 9320 | tamborescom@uol.com.br

1276 – Gil Jardim rege OCAM e grava clássicos nacionais com gaitista Gianluca Littera

|| tambores comunicações || assessoria de comunicação

Repertório traz releituras de Chico Buarque, Milton Nascimento, Cartola, Djavan, Paulo Bellinati, Cesar Camargo Mariano , com participação de Léa Freire, Ari Colares e Neymar Dias, entre outros

O gaitista italiano Gianluca Littera descobriu a música brasileira na adolescência. Como conta, ‘foi amor à primeira escutada’. Na década dos anos 1970, um amigo apresentou para Luca um disco do violonista Baden Powell (1937-2000) e “com aquela música diferente, num equilíbrio perfeito entre ritmo e melodia”, relembrou, observando que naquele tempo ainda não havia as facilidades das redes sociais, e conseguir LPs brasileiros, na Itália, não era tarefa fácilGianluca não desistiu. Teve acesso a outros LPs, viu shows de músicos brasileiros em Roma, ficou amigo de alguns deles e se envolveu tanto, que, em 2003, foi convidado a tocar no Brasil, com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo Paulo (Osesp). Foi quando conheceu Gil Jardim, diretor artístico da Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), maestro que, por coincidência, tinha sido chamado pela Osesp para dirigir o concerto.

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1161 – Último disco gravado por Tavito, do selo Kuarup, traz releituras de clássicos como Rua Ramalhete e Casa no campo

Cantor e compositor nascido em Beagá, ex-integrante do Clube da Esquina e do Som Imaginário, gravou clássicos do rock rural com Guarabyra, Tuia, Ricardo Vignini e Zé Geraldo em álbum lançado no Sesc Pinheiros

Dez dias antes de Tavito partir cumprindo o ciclo natural de toda a vida, mas deixar no peito de familiares, amigos, parceiros e fãs o buraco que a saudade sempre provoca — e, no caso dele, um vazio que não tem como ser preenchido no universo da cultura, em um período no qual, sobretudo no segmento da música, grassam porcarias –, a unidade Pinheiros do Sesc, em São Paulo, promoveu na noite de 17 de fevereiro o lançamento de Nós do Rock Rural – Encontro de Gerações. O álbum gravado pela Kuarup e lançado há dias no palco do Teatro Paulo Autran é resultado de outra apresentação, ao vivo,  que fora captada um ano antes. Naquela ocasião, Tavito, Guarabyra, Zé Geraldo, Tuia e Ricardo Vignini protagonizavam mais um show do projeto homônimo que, para a noite de festa no Sesc Pinheiros, já infelizmente sem ele, contou ainda com a participação do guitarrista Fábio Santini.

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1149 – Yamandu Costa e Thadeu Romano aliviam saudades do mestre Dominguinhos em show único no Sesc Pinheiros (SP)*

Repertório  vai passear por músicas dos discos que o violonista gaúcho gravou com o sanfoneiro de Pernambuco, mesclado a sucessos de Tom Jobim, Sivuca, Abel Ferreira, Chico Buarque, Luiz Gonzaga…
*Com Lu Lopes (Rubra Rosa Projetos Culturais)

Yamandu Costa e Thadeu Romano vão apresentar Salve Dominguinhos, trazendo de volta aos palcos composições de Yamandu + Dominguinhos e Lado B (discos que ambos gravaram juntos, em 2007 e em 2010) com uma única apresentação marcada para a noite de sexta-feira, 1º de fevereiro, na unidade Pinheiros do Sesc da cidade de São Paulo (ver guia Serviços). Em 2018 completamos cinco anos sem o sanfoneiro pernambucano que nos deixou em 23/7/2013. Mais do que as saudades, ele nos deixou um legado imenso de obras para música. Seu Domingos, apesar de ter partido aos 72 anos, encantou jovens músicos de várias gerações e, por essa razão, sempre viveu cercado pela novidade da juventude.

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1064 – Andreia Preta, com Thiago Ligouri, apresenta Intuição, no Teatro da Rotina (SP)

Intuição, show que levará Andreia Preta à cidade de São Paulo, será a atração do Teatro da Rotina na quarta-feira, 23 de maio. A partir das 21 horas, a cantora  e compositora nascida e residente em Campinas (SP) e que já emplacou 18 anos de carreira ocupará o palco acompanhada pelo músico Thiago Liguori, produtor do álbum Doce de Salgar, que ela lançou em 2016. A apresentação tem formato acústico e mostra a força das palavras presente nas canções que Andreia compõe, fazendo uso da oralidade aprendida com a avó materna. Além de músicas do disco de estreia, o repertório para o Teatro da Rotina inclui inéditas, todas autorais, entre as quais a parceria com Consuelo de Paula, de quem  foi uma das convidadas em março, quando, naquele espaço da rua Augusta, a mineira de Pratápolis conduziu Bibianas, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

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1030 – Consuelo de Paula homenageia Dia Internacional da Mulher com Bibianas, no Teatro da Rotina (SP)

A cantora, compositora e poetisa Consuelo de Paula (MG) estará de volta ao aconchegante Teatro da Rotina em 9 de março, quando, a partir das 21 horas, apresentará Bibianas, show com o qual marcará a passagem do mês dedicado ao gênero e o Dia Internacional da Mulher, que transcorrerá na véspera, em 8 de março. Bibianas será, ainda, o terceiro concerto da série que Consuelo batizou como Movimentos do amor e de lutaO primeiro ato, Movimentos do amor e da luta, e o segundo, Chamamento, também tiveram como palco o teatro paulistano situado na rua Augusta, 912 (veja Serviço).

Bibianas é um encontro entre Consuelo de Paula e parceiras de composição, algumas das quais convidará para acompanhá-la. Voz, violão e instrumentos de percussão compõem a tríade mágica e completam o canto pleno, personalizado e profundo que possibilitam à mineira de Pratápolis envolver o público a cada nova canção. Neste show, além de canções autorais e algumas interpretações de outros autores que farão a ponte entre uma parceria e outra – incluindo a recente Valsa para Mathilde, com Adoniran Barbosa e Copinha — estarão em destaque muitos ritmos brasileiros.

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1000 – Neymar Dias transcreve para a viola obra que passeia pela mente de Deus e lança álbum novo no MCB (SP)

Neymar Dias, um dos mais conceituados violonistas brasileiros da atualidade, será atração do concerto gratuito que o Museu da Casa Brasileira (MCB) oferecerá no domingo, 8 de outubro, a partir das 11 horas. Na ocasião, a plateia que sempre lota o auditório e o acolhedor jardim do terraço do prédio situado em São Paulo conhecerá o recém lançado álbum no qual o multi-instrumentista paulistano promove releituras da obra de Johann Sebastian Bach  para a viola brasileira, produzido em parceria com André Mehmari. Neymar Dias Feels Bach reúne 20 composições divididas em três movimentos, mais três peças avulsas, impecavelmente executadas pelo autodidata que desde criança encanta seu público e domina com maestria viola caipira, guitarra, violão, baixo elétrico, contrabaixo, guitarra havaiana e bandolim, habilidades que esmerou ao se formar em Composição e Regência pela Faculdade de Artes Alcântara Machado (FAAM) e integrando orquestras respeitadas tais quais a Sinfônica da Universidade de São Paulo (Osusp) e a Experimental de Repertório.

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957 – Selo Sesc disponibiliza primeiros 16 álbuns do catálogo para audição por streaming

Quem curte os álbuns fonográficos do Selo Sesc já pode acessar parte do catálogo por meio de plataformas como Spotify, Deezer, Apple Music, Google Play Music, e Napster. O primeiro lote reúne 16 títulos entre os quais No Voo do Urubu, de Arthur Verocai; A Saga da Travessia, de Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz; Com Alma, da Banda Mantiqueira; Virgínia Rosa Canta Clara, de Virgínia Rosa; e Café no Bule, de Zeca Baleiro, Naná Vasconcelos e Paulo Lepetit. Doravante, os lançamentos também serão liberados para os servidores de streaming e a promessa do Sesc é que até dezembro todos os discos já lançados desde 2004 estejam disponíveis.

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944 – Medo: Belchior morreu. O que será de nós?*

A morte de Belchior ocorrida ontem, 29 de abril, em Santa Cruz do Sul (RS) , pegou-nos todos de surpresa! Escrevemos todos porque nos últimos dez anos não havia uma só pessoa a qual ouvimos, ama música popular brasileira e o conhecera que não rezava, não torcia, não via a hora de o compositor e cantor dos mais poéticos, criativos e contestadores do país voltar a dar o ar da graça, retornado aos palcos dos quais misteriosamente e polemicamente desapareceu. Semana passada se fora Jerry Adriani, no ano passado Naná Vasconcelos, Papete; há alguns anos entre tantos outros Dércio Marques, Jair Rodrigues, Renato Russo, Cássia Eller, Cazuza — gente que quando morre deixa um buraco enorme, sobretudo para os mais jovens, que perdem importantes referências de caráter e talento. Sobre a passagem do cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes a mídia se encarregará de encher páginas e mais páginas, apresentar programas especiais, entre outras abordagens. Nós, do Barulho d’água Música, consternados, vamos registrá-la (e homenageá-lo) com uma pequena crônica que dialoga com alguns dos maiores sucessos do autor de Apenas um rapaz latino americano, Coração Selvagem, Paralelas e Divina Comédia Humana! A benção, Belchior! 

Pois é, meu caro rapaz latino americano: você profetizou que talvez morreria jovem e antes do combinado encontrou a curva do seu caminho! Você foi divino, maravilhoso; brasileiramente lindo, esforçou-se muito para nos ensinar todos a rejuvenescer, deixando de lado o vil metal. Mas como a morte não sai do nosso caminho, mais um sinal está fechado para nós que, apesar de ainda sermos como nossos pais, ainda somos sonhadores e insistimos em cantar enquanto houver espaço, corpo. Estamos com a carne e os corações cortados a palo seco — quer sejamos pretos, velhos, estudantes, pessoas cinzas –, mais angustiados do que o sujeito do escritório que quanto mais multiplica, mais diminui o seu amor! Se agora vai ser ainda mais duro suportar a alucinação do dia a dia, que ao menos a terra lhe seja leve! E que o Cara do Corcovado abra os braços para te receber, com seu blusão de couro e a camisa toda manchada com o batom dos nossos saudosos abraços! Ficaremos por aqui com nossos medos, seja em Fortaleza, em Goiânia, Goiás, no Piauí, com um monte de fantasmas  — que, parece, resolveram deixar os porões –, quase já perdidos, sem uma mísera placa torta que nos aponte de que lado ainda nasce o sol…

Marcelino Lima e Andréia Beillo

* Clique no linque e acesse a atualização 846 do Barulho d’água Música, de 6 de abril de 2016, sobre os 40 anos de um dos álbuns mais famosos de Belchior, Alucinação.

https://barulhodeagua.com/2016/04/06/846-alucinacao-album-que-fez-de-belchior-mais-do-que-apenas-um-rapaz-latino-americano-completa-40-anos/

883- Se sanfoneiro ou acordeonista, quem se importa? Thadeu Romano é o cara que toca vários sotaques do Brasil Profundo

O acordeonista Thadeu Romano (SP) foi a atração do primeiro bate-papo da temporada do projeto Imagens do Brasil Profundo, mediado pelo curador e professor de Sociologia Jair Marcatti na noite de quarta-feira, 25 de março, na Biblioteca Mário de Andrade, situada no Centro da cidade de São Paulo. Durante cerca de 90 minutos, Thadeu Romano revelou-se um músico inquieto, influenciado por costumes interioranos do distrito no qual nasceu, em Campinas, e a convivência com familiares italianos alguns, como os nonos, responsáveis pela escolha afetiva que o levou a se tornar uma das referências atuais no país, ao ponto de ter se tornado um dos mais elogiados por Dominguinhos (que o considerava “um diamante bruto”) e Sivuca (que dizia dele ser “um músico que toca com o coração!”).

Durante a entrevista com Marcatti, Thadeu Romano explicou que há diferenças não apenas técnicas, mas também de forma e tamanho, por exemplo, entre acordeon, sanfona e consertina, embora seja comum e já consagrado tratá-los como sinônimo um do outro. Ao comentar sobre as peculiaridades do bandoneon, que ele também toca, valorizado por conta dos tangos de Astor Piazzolla depois de incerta inserção na cultura platina (“era um instrumento desprezado e que marinheiros usavam como moeda para pagar contas em mercearias”) , soltou uma frase bem espirituosa: “Parece um pacote de pães Pullman!” .

Thadeu Romano também frequentou bancos de conservatórios de ponta, acrescentando ao seu dom formação e saberes clássicos, e, por isso, pode ainda discorrer com propriedade sobre a adaptação e a popularização do acordeon e seus similares nos estados do Brasil nos quais ocorrem com mais força. Nesta altura da entrevista, didático, apontou diferenças e similaridades que permitem ao instrumento não apenas figurar em apresentações, mas ganhar status de solista, afirmando-se no contexto nacional por meio de ritmos como Vanerão, Bugiu e Xote, no Rio Grande do Sul; outra variação de Xote, Baião, e Forró em manifestações comuns em Pernambuco e centros vizinhos; Chamamé e Valsa, no Centro-Oeste e no Interior de São Paulo, divulgando valores e tradições das culturas pampeira, caipira e nordestina que contribuem para moldar uma identidade brasileira. “O acordeon é uma orquestra, sozinho faz um baile, e por ter estes muito sotaques é que ganhou o coração do brasileiro!”

jair e thadeu

Entre um tema e outro da conversa com Marcatti, Thadeu Romano arrancou calorosos aplausos da plateia presente ao teatro Rubens Borba de Moraes ao interpretar joias tais quais Asa Branca, da Cor do Pecado, Perigoso, Saudades de Matão, Corta Jaca, Tico-Tico no Fubá, Feira de Mangaio e Lamento Sertanejo, sempre mencionando dados biográficos e curiosidades sobre os autores destes clássicos, entre os quais Luiz Gonzaga, Chiquinha Gonzaga e Zequinha de Abreu — o que permite mostrar que o acordeon também sempre se aclimatou e se sentiu bem-vindo a rodas de choro ou mesmo a temas românticos.

A entrevista de Thadeu Romano foi pontuada por várias pitadas de bom humor e, em especial, uma declaração de pura devoção, temperada por uma genuína e profunda saudade. Foi quando mencionou a convivência com Dominguinhos e com  Sivuca. Embora tenha acentuado “me considero ‘sivuquiano’ pelo jeito que ele tocava e pelo que almejo para a minha carreira”, o convidado desta rodada do Imagens do Brasil Profundo embargou a voz ao recordar a amizade com o parceiro pernambucano. “Dominguinhos era uma alma extremamente bondosa, tinha paciência com tudo, dava até dó, pois a turma abusava dele!”, contou Romano. “Ele morreu na data do meu aniversário [23 de julho, em 2013] e foi um presente que  me deu, pois a gente não gosta de ver uma pessoa que ama sofrendo”, emendou. “Sinto falta de conversar com ele!”

Os dois mestres do acordeon não são os únicos com quem Thadeu Romano já tocou e com os quais conviveu. A lista de artistas é extensa e de qualidade inquestionável e apresenta nomes como Renato Teixeira, Nailor Proveta, Zizi Possi, Guelo, Heraldo do Monte, Luciana Rabello, Fernanda Porto, Fátima Guedes, Peri Ribeiro, Eduardo Gudin, Mafalda Minozzi, Ary Holland, Giba Favery, Fábio Canela, Rodrigo Sater, Naná Vasconcelos, Dona Inah, João Borba, Celia e Celma, Cláudio Lacerda e Rodrigo Zanc. Além de acordeonista, o campineiro hoje radicado em São Paulo ele é arranjador, dirige um festival de choro com 10 horas de duração, todos os meses de dezembro, em São Carlos; integra grupos de tango e de gafieira; uma pequena orquestra que no segundo semestre  estará em ação para reinterpretar temas de trilhas sonoras do cinema, rearranjadas para um festival do gênero; e está aprendendo a tocar sanfonas de várias partes do mundo, disponibilizando os vídeos destas experiências (“eu arranjei sarna para me coçar”) em redes sociais.

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Todas estas atividades já somam 20 anos de pesquisas, de viagens, de shows, de gravações e de eventos correlatos por fim ganharam sua marca autoral e darão vida e alma ao primeiro disco solo da carreira que até a cidades minúsculas de Angola, além de países europeus, já o levou. Da Reza à Festa, uma ode à religiosidade e à amizade será lançado em São Paulo em 29 de julho, no teatro da Unibes, situado no bairro Sumaré. Reúne 10 faixas e uma vinheta dedicada por Thadeu Romano ao avô paterno, Albino; durante o bate-bapo na Biblioteca Mário de Andrade ele apresentou a música que abrirá o disco, Baião pro Malta, com participação do amigo homenageado, o saxofonista carioca Carlos Malta. Sobre este primeiro álbum, comentou: “Eu sempre estive atrás de artistas, de forma que, para  mim, este disco está sendo, mais do que uma grande novidade, uma responsabilidade de tremer na base. Mas tomará que seja o primeiro de muitos!”

A próxima atração do Imagens do Brasil Profundo já foi anunciada por Jair Marcatti, para 15 de junho, a partir das 20 horas: Jean e Joana Garfunkel, pai e filha, interpretando e adaptação exclusiva para o projeto poemas do patrono Mário de Andrade, com destaque para “Eu sou 300”.

A primeira temporada do Imagens do Brasil Profundo, em 2014, buscou imprimir um Olhar sobre a Cultura Caipira em quatro bate-papos com expoentes desta vertente das nossas tradições populares. Depois, em 2015, ampliada, a programação passou a abarcar outros aspectos das diversas culturas regionais, agora desvendados por meio de shows, bate-papos musicais, debates e palestras. Nestas ações, ao invés de promover abordagens tradicionais, Jair Marcatti interage com músicos, documentaristas, diretores de cinema, ativistas culturais e pesquisadores da cultura popular que em comum nutrem um modo peculiar de retratar o país e promovem trabalhos de pesquisa e de resgate das nossas mais entranhadas tradições.

Com cada um dos participantes, o sociólogo joga luz “sobre aspectos do universo cultural brasileiro, de nossas trajetórias, continuidades e rupturas,daquilo que sem nenhuma pretensão definidora poderíamos chamar de identidades brasileiras, no plural, com a vantagem dos exemplos serem pontuados no calor da prosa, ao vivo, pelo som dos instrumentos, muitos artesanais, e pela apresentação de outras formas de expressão cultural”, observa. Seguindo princípios e ideais de três dos nossos maiores expoentes culturais que são o patrono Mário de Andrade, Darcy Ribeiro e Ariano Suassuna, apoiado, ainda, em pensamentos de Machado de Assis, o projeto propõe “um reencontro do Brasil com ele mesmo”, mas não com o Brasil institucional, caricato e burlesco, e sim o mestiço, aquele que nos permite afirmar perante o mundo a originalidade da civilização tropical, revelador de nossos melhores instintos e mais arraigadas tradições.