1280 – Silencia no sertão a viola de Manoel de Oliveira, o Mestre Manelim, autor do álbum Urucuia, com Paulo Freire

Menos de uma semana depois de a música brasileira perder o pernambucano menino passarinho Luiz Vieira, que desencarnou aos 91 anos na cidade do Rio de Janeiro na quinta-feira, 16/1, também bateu asas e subiu ao Mundo Maior, na terça-feira, 21, Manoel de Oliveira, o Mestre Manelim, violeiro que nasceu e viveu em Urucuia, uma pequena cidade no Noroeste de Minas Gerais que inspirou Guimarães Rosa, a 600 quilômetros de Belo Horizonte.

Mestre Manelim estava com 86 anos . Em Brasília (DF), durante uma ida à casa da filha no mês de dezembro,  ele recebeu recebeu visita do também violeiro Paulo Freire, seu mais notório discípulo, que com ele conviveu longamente e aprendeu vários toques que estão fora dos manuais didáticos dedicados ao ensino do instrumento.

Freire, que também é escritor, pesquisador e contador de causos dos bons, mora em Campinas, no interior de São Paulo e em 2006 ajudou a trazer à luz o único álbum gravado pelo mestre, Urucuia, contribuindo desta maneira para não deixar relegado apenas ao seu pequeno e encantador universo um baluarte da cultura popular — assim como mais recentemente o fizeram o poeta e compositor mineiro Paulo César Nunes e os músicos Danilo Gonzaga Moura e Victor Mendes, do Trio José, de São José dos Campos (SP), que nos revelaram e nos apresentaram à extensa e plural obra  do sêo Juca da Angélica, poeta da oralidade que atravessava seus últimos dias em Lagoa Formosa (MG) e que o Brasil ignorava até então, mas que pelo esforço deles ganhou um mínimo de notoriedade e carinho antes de subir para o Plano Celestial, aos 97 anos; vale lembrar, ainda, que a pantaneira Dama da Viola, Helena Meirelles, só “explodiu” cá em Pindorama  após ser “descoberta” pela edição norte-americana da Revista Guitar Player, já octogenária, no final da década dos 80.  

Sobre a vida, a partida e a obra de Manoel de Oliveira, portanto, não há ninguém melhor do que  Paulo Freire para nos contar — embora fosse admirado, ainda, basta ver os comentários à mensagem de Paulinho, por muitos craques dos gêneros caipira e regional, como Roberto Corrêa. É de Freire o pungente, emocionado depoimento que abaixo reproduzimos e compartilharemos, publicado também pela Revista Fórum, e cujas palavras explicitam o tamanho da importância de preservarmos a qualquer custo a memória de nossos artistas — notadamente aqueles que estão fora do mainstream, quando se faz apologia aos pilares do nazifascismo como modelo de cultura a ser seguido — que nos legam obras essencialmente brasileiras, que preservam e difundem nossos mais caros e imprescindíveis valores fundantes.

Na sequência do depoimento de Freire nesta atualização, o amigo e seguidor lerá texto de apresentação do álbum Urucuia que acompanha no sítio Em Canto Sagrado da Terra os arquivos, em formato Mp3, das 16 faixas do disco.

Hoje, 21 de janeiro de 2020, faleceu seu Manoel de Oliveira, mestre Manelim. Meu mestre. Não vou falar “encantou-se”, como diria o Rosa, pois não consigo ver poesia em sua partida. Mesmo sendo o Rosa quem me fez conhecer o seu Manoel e o grande sertão. Uma palavra melhor, ou mais adequada, seria: devastação.
Mestre Manelim me ensinou a enxergar a viola na natureza. Foi um exemplo de pai. Um outro pai. Sou irmão de seus filhos, e filho também de dona Vicentina. A lembrança do café na beira do cerrado, amanhecendo, no frio do sertão, em volta da fogueira, com o mundo despertando, até ouvir o chamado do mestre para todos irmos trabalhar na roça. No final do dia, no terreiro tão bem cuidado de dona Vicentina, pontear a viola e grudar a atenção no que estava acontecendo. Para onde vai tudo isso? Como permanece dentro de mim e deles, sem o seu Manoel?
Acredito cada vez mais que não existe céu e inferno, quer dizer, não existe só isso. Tem muito mais assunto. A alma é um assunto. E existem vários caminhos para se trilhar. Dentro desse nosso couro que vai enrugando, e fora desse couro. Os toques de viola que ele me ensinou, como o sapo e o veado, o papagaio, lagartixa, mostravam como poderíamos ser estes bichos, como entrar no sentido deles e, assim, esticar nossas vidas. Tenho certeza que estes últimos dias, mesmo bem longe dele, o seu Manoel esteve aqui ao lado. E dentro. Senti fundo um chamado, como o dia que ele foi me buscar na roça adivinhando uma tristeza que baixou em mim. Como o seu Manoel percebia isso? Me senti ao seu lado, no silêncio que ele carregava, e o peito apertando…
Não conseguirei ir à despedida do seu Manoel, amanhã, no Urucuia. O seu Manoel sabe por quê. Meus irmãos urucuianos e dona Vicentina também. Já que não consigo, vou de outro jeito. Desligar do que não tô precisado e deixar ele me guiar para algum outro lugar em comum. Em dezembro estive com ele, dona Vicentina, e minhas irmãs Joaninha e Valdinea, em sua casa, em Brasília. Seu Manoel estava se recuperando de uma pneumonia, mas bem fraquinho. Pediu que eu tocasse o “rio abaixo”. Peguei a viola e toquei. Experimentei passar a viola pra ele. Mesmo sem forças, o Manelim mostrou que não estava certo o meu ponteado. Tentei de novo, pelejando com o detalhe. E ele enfim disse: “um dia você aprende”. Com seu jeito doce e sentimento firme. Como que dizendo: continua, não para, não esmorece, olha eu aqui! O Cacai Nunes tava bem do ladinho e viu tudo.

Santíssima trindade: O mestre Manelim (sentado), o instrumento que os unia e o discípulo violeiro Paulo Freire

Desde cedo eu senti que hoje era um dia no lugar errado. A respiração não sai nem entra direito. Olhava para o telefone a todo momento, já que estou desacostumado do caminho das almas. Até que veio a notícia. Saí para andar. Procurei um canto que pudesse entender o acontecido, ou buscar forças para enfrentar a devastação. Fui num lugar que nunca tinha ido e uma árvore me buscou. Uma paineira. Fiquei calado o dia inteiro. Só uma conversinha de trabalho. E as trocas de afetos com meus irmãos, filhos do Manelim. Sei que tem um bocado de amigo passeando por aqui, então vim esvaziar o peito.
Vão ouvindo, seu Manoel tá quieto aqui na rede, fazendo um pinicado na viola, uma besteirinha, como ele dizia, diamante puro, água fresca de vereda, capaz de ultrapassar qualquer explicação de amor e saudade.

Urucuia é a terra natal de Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. A cidadezinha de 11 mil habitantes fica no noroeste de Minas Gerais, na margem do rio homônimo, um dos afluentes do Rio São Francisco. Reza a lenda que o escritor Guimarães Rosa nunca esteve por lá, mas foi de pessoas de lá que ouviu, na venda do pai, diversas histórias da região que povoam sua fantástica literatura, cujo cinquentenário está sendo comemorado neste ano [2006, quando o álbum foi lançado].

É de lá também Manoel de Oliveira, o “Manelim”, um violeiro que dedilha pelo menos dois séculos de tradição foliã. É música que certamente Guimarães Rosa ouviu e que está registrada em disco pela primeira vez com ajuda do violeiro Paulo Freire. O disco Urucuia traz Mestre Manelim tocando e cantando 16 músicas, entre 11 criações próprias e cinco de domínio público que estão aquém do sertão de Minas. Atinge outros sertões como Caninha Verde, que toma diferentes feições por diversas regiões do País.

Criação própria e domínio público formam algo que se confunde na obra de Manelim, como na obra dos músicos anônimo do sertão, diz Paulo Freire, violonista já conhecido que foi aluno de Mestre Manelim. “Sempre quis gravar a música dele, mas como ele quase não sai de lá, aproveitei uma das raras visitas dele a São Paulo para trancá-lo num estúdio”, brinca Freire, que produziu o álbum convidando Adriano Busko (percussão), Zé Esmerindo (violão e voz) e Thomas Roher (rabeca) para o ornamento instrumental das músicas. Instigado pela leitura de Guimarães Rosa, Paulo Freire se embrenhou no sertão mineiro no final dos anos 70, quando descobriu e tornou-se seguidor do ponteio de Mestre Manelim, para ele, o mais importante violeiro da região.

Agricultor e marceneiro, Manoel de Oliveira aprendeu a pontear a viola com Onora Martins Alves, mulher que o criou. Onora era a fazendeira do lugar para quem os pais de Manelim trabalhavam e confiaram a criação do filho. O mestre tem 76 anos, por certo não conheceu Guimarães Rosa, mas já ouviu muitas histórias sobre o escritor famoso, conta Paulo Freire.

A música de Manelim é simples, ingênua até, de ponteado calcado nas folias de reis com temas que denotam a ancestralidade oral da cultura popular de sua terra (e brasileira, por extensão). Não há nem mesmo a influência de variações dadas ao gênero pelo pagode de Tião Carreiro ou a sofisticação de arpejos de Renato Andrade, por exemplo, o que aumenta o interesse histórico do álbum. De voz frágil, Manelim canta em apenas quatro faixas, concentrando-se no toque do instrumento que revela esmero igual ao dos artesãos urucuianos com o manejo da palmeira de buriti. Os temas versam sobre a natureza, o jeito de ser do sertanejo e as crendices que cercam a viola, como o pacto com o capeta. Aproveitando essa riqueza oral na obra do mestre, Paulo Freire aproveitou para registrar duas “conversas” no estúdio com Mestre Manelim. Numa delas, ele relata o causo d´A Corrida do Sapo e o Veado e noutra comenta o tal pacto em Laço do Capeta.

Várias músicas feitas no Brasil com incidência no imaginário criado por Guimarães Rosa são sugeridas sempre que se fala em Grande Sertão: Veredas. As mais frequentes são de medalhões da MPB, como Gilberto Gil (que fez Casinha Feliz no disco Dia Dorim Noite Neon, de 1985), Caetano Veloso (que fez com Milton Nascimento a canção A Terceira Margem do Rio, do disco Circuladô, 1991) e Chico Buarque de Assentamento, tema mais MST do que roseano, do álbum As Cidades (1998). Em que pese a beleza inegável destas composições, nenhuma delas, no entanto, são tão próximas e muito menos concernentes ao universo do escritor mineiro quanto este e outros violeiros brasileiros. Se Guimarães Rosa tiver que ter uma trilha sonora, esta deveria passar necessariamente por criadores como Mestre Manelim.

Para acessar o linque que dá acesso à cópia do disco Urucuia no site Em Canto Sagrado da Terra clique na palavra em destaque.

 

950 – Katya Teixeira volta ao Sesc Belenzinho (SP) e recebe convidados para lançar Flores do Meu Terreiro

A cantora, instrumentista e compositora paulistana Katya Teixeira ocupará o palco da unidade Belenzinho do Sesc de São Paulo na noite deste sábado, 13 de maio, para lançamento de As Flores do Meu Terreiro, nome que escolheu para o sexto álbum da carreira em cuja trajetória vem se destacando como ícone da música regional brasileira. Conhecida e querida tanto pela fibra, quanto pela generosidade que complementam seu indiscutível talento, Katya Teixeira não apenas representa uma bandeira em defesa da música independente e de qualidade: carrega-a, literalmente, pelo país afora e também pelo exterior, transmitindo e recolhendo por onde passa saberes e sonoridades que contribuem para revelar não apenas traços da mestiça identidade brasileira, mas descobrir o que em nós há de comum com outros povos. 

Desta forma e neste intercâmbio a garimpar novos e ancestrais valores pelo Brasil, o trabalho de Katya Teixeira tanto reflete as andanças – os quais acabam por serem incorporados à sua musicalidade — como é correia pela qual repassa os próprios. À medida que, ainda, presta reverência aos mestres populares que a influenciam em 23 anos de estrada, vem percorrendo nesta missão países da América do Sul e da Europa para promover shows, vivências e oficinas. Nascida em família de músicos e pesquisadores, portanto, estamos diante de um nome que personifica uma tríade brasileira e latino-americana (euro-afro-indígena) protagonista de um rico diálogo artístico no qual todas as linguagens não apenas se tornam possíveis, mas complementares e universais.

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927 – Violeiro Levi Ramiro lança “Purunga”, novo álbum solo e nono da carreira

1-Vasilha feita com a casca de plantas cucurbitáceas.(cabaças)
2-Planta da família das Cucurbitáceas(Lagenaria Vulgaris).Porongo

Barulho d’água Música vem sendo embalado por novidades fonográficas recentemente lançadas, aprovadas com louvor e com mais dez pontos de bonificação nos testes de excelência da redação: nunca antes na história deste veículo ouvimos tanta música de qualidade, material de incontestável contribuição para nosso cada vez mais precioso acervo e que tem deixado o quarteto Pablito Neruda, Leopoldo Rogério, Maria Júlia e Abigail Cristina visivelmente felizes! A mais recente aquisição, enviada de Pongaí (SP),  chegou com o remetente Levi Ramiro, uma saudação particularíssima nos desejando saúde e paz e um “som purunguístico”. Purunga, álbum despachado no interior do envelope, é o nono da carreira do violeiro, compositor e artesão, um dos mais respeitados nas rodas da música caipira e regional. Mais do que gravar 17 inéditas músicas (entre as quais quatro instrumentais), Levi Ramiro procurou revelar aos amigos e fãs etapas da confecção de uma nova viola [neste caso feita de cabaça], ilustrando o encarte com fotos de Adriano Rosa nas quais aparece em sua oficina particular manuseando ferramentas e dando vida ao instrumento.

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924 – Instituto Juca de Cultura recebe Déo Lopes, baluarte da música regional do Vale do Paraíba

O cantor e compositor Déo Lopes está comemorando 30 anos de carreira e mostrará parte de sua obra como convidado do Instituto Juca de Cultura no domingo, 2 de abril, a partir das 17 horas. O músico, natural da paulista Santo Antonio da Alegria, hoje residente no Vale do Paraíba, começou a trilhar a estrada profissional em 1980 promovendo apresentações em espaços concorridos como os palcos do Lira Paulistana, Fulô da Laranjeira, Tuquinha, Centro Cultural Vergueiro, Sesc Pompeia, em São Paulo, e Vila dos Artistas, em Osasco. Públicos dos estados de Minas Gerais, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Bahia, e Goiás, entre outros, também o prestigiaram neste período que configura seu jubileu de pérola; sem jamais renegar os próprios valores, nestas três décadas Déo Lopes compôs exprimindo anseios, amores, e crenças, além de respeito à ecologia e ao meio ambiente.

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917 – Dois Joãos conhecidos pela alegria são atrações em tarde de sábado na Casa de Mário de Andrade

A Oficina Cultural Casa Mário de Andrade será palco neste sábado, 4 de março, para a apresentação dos músicos João Arruda e João Bá, dois expoentes e referências da música regional tanto dentro, quanto fora do estado de São Paulo. A cantoria da dupla programada para o imóvel no qual morou o escritor e poeta modernista deverá começar às 16h30, com entrada franca, de acordo com o produtor do evento, o poeta e compositor Paulo Nunes (MG), coordenador do Espaço Juca de Cultura, situado no bairro paulistano Sumaré. Durante o encontro, o público ouvirá canções de álbuns como Celebrasonhos e Venta Moinho (ambos de Arruda) e Cavaleiro Macunaíma, com o qual Bá comemorou seus 80 anos de idade. A plateia também poderá ouvir João Bá declamando poemas e contando várias de suas pitorescas histórias, possibilitando um momento de comunhão com a alegria e a irreverência que caracterizam ambos os protagonistas de duas gerações e representantes de regiões distintas do país, mostrando os elos entre e a continuidade de algumas de nossas mais belas tradições.

 

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909 – Victor Mendes, integrante do Trio José, estreia carreira solo com “Nossa Ciranda”*

O cantor, compositor e instrumentista Victor Mendes lançou no começo deste ano Nossa Ciranda, seu primeiro disco solo. Aos 29 anos, Victor Mendes atualmente mora na capital paulista, município para onde se mudou de São José dos Campos com o objetivo de cursar História na Universidade de São Paulo (USP). Antes de fazer as malas e zarpar do Vale do Paraíba, contou, já se entendia com um violão da mãe e a guitarra dada de presente pelo pai, habilidades que começou a aprender bem cedo, aos 11 anos. Versátil, o filho do casal Márcia e Júlio também tem intimidade com a bateria e marcou presença na banda de rock que ele e os amigos batizaram de Ethama (Terra, em tupi-guarani), a qual legou aos fãs dois álbuns independentes antes de encerrar as atividades, em 2006.

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890 – Karine Telles (MG) recebe Luizinho 7 Cordas e Renato Braz para cantar “Flor do Samba”, em Sampa

A mineira Karine Telles cantará nesta sexta-feira, 24, musicas de Flor do Samba, a partir das 21 horas, na unidade Pompeia do Sesc de São Paulo. Durante a apresentação, a uberlandense radicada em São Paulo pretende universalizar temas do estado natal, Minas Gerais, mesclando às canções do primeiro álbum sucessos consagradas da MPB. Flor do Samba, segundo Karine Telles, consumou em 2011 o projeto de ser ponte para novos mercados da produção de compositores da região do Triângulo Mineiro, por meio de uma leitura de músicos paulistas que não conheciam aqueles compositores. Participam do disco Virgílio Azevedo, Sueli Telles, Paulo Cesar Nunes, Renato Braz, Wagner Dias, João do Vale, Consuelo de Paula, Monalisa Lins, Mauro Mendes e Carlin de Almeida. Morro Velho e Canção Amiga, de Milton Nascimento, e Por que Razão, composta por Eduardo Gudin e Toquinho, além  da composição autoral, Criança da Rua, também integrarão o repertório preparado para o Sesc Pompeia.

Flor do Samba contará com as participações no palco dos músicos Luizinho 7 Cordas (violão 7 Cordas e direção musical), Renato Braz (violão 6 cordas), João Poleto (flauta e sax), Ricardo Valverde (percussão) e Bré (percussão). O disco saiu com recursos da Lei de Incentivo à Cultura por meio da empresa Sankhya, com participações especiais de Luizinho 7 Cordas, Oswaldinho do Acordeon e Coral de Crianças da Casa do Caminho do bairro Joana Darc, entre outros ilustres convidados. Em show de lançamento em sua cidade natal no dia 1 de dezembro de 2011, véspera do Dia do Samba, Karine Telles contou com direção do diretor teatral Elias Andreato, timoneiro de muitos mares navegados e que já conduziu palcos estrelados por Maria Bethânia, Paulo Autran e Marília Pera.

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Em Sampa, entre outros eventos e atividades, Karine Telles já se  apresentou ao lado de Adriana Moreira, Ilana Volcov, e Karina Ninni em show de tributo ao compositor Nelson Cavaquinho, cujo nascimento completava 100 anos, no Centro Cultural São Paulo. Em Notícias dum Brasil 4,  de Eduardo Gudin,  interpreta Tempo de Espera mostrando, enfim, ao público o samba que Gudin e Paulo César Pinheiro tinham na gaveta desde a década de 1980 e era inédito em disco. Karine Telles forma Notícias dum Brasil com Cezinha Oliveira, Ilana Volcov, Karine Telles, Mauríciso Sant’Anna, Ewerton de Almeida, Jorginho Cebion, Osvaldo Reis e Raphael Moreira, além de cantar com Renato Braz, outro egresso das fileiras de Gudin, Água de Minha Sede (Dudu Nobre/ Roque Ferreira), entre outras.

872 – Sob o manto da delicadeza, Consuelo de Paula abre terceira temporada do Imagens do Brasil Profundo, em São Paulo

Consuelo de Paula vestiu-se do seus melhores sorrisos e cobriu com sonhos, arrepios e músicas o público que a prestigiou na noite de quarta-feira, 4 de abril, quando a convite do professor Jair Marcatti abriu em São Paulo a terceira temporada do projeto Imagens do Brasil Profundo. Do centro do acolhedor palco Rubens Borba de Moraes da Biblioteca Mário de Andrade, a cantora, compositora e poetisa conduziu ao violão e sob o manto da delicadeza, após a chegança ao toque de tambor, uma inesquecível navegação acústica pela Mantiqueira, passeio que cruzou também lilases, azuis, verdes, vermelhos, rios e oceanos para nos religar às nossas origens tanto em Portugal, quanto em África e onde o coração alcançou. Em meio a homenagens aos pais e a alguns dos seus mais amados mestres e parceiros (citou João Arruda, João Bá, os irmãos Dércio e Doroty Marques e Rubens Nogueira), quem a ouviu e também a acompanhou marcando a viagem com palmas ancorou ainda em cais que se abriram para feiras, quermesses e congadas vivenciadas desde menina em cidades do Sul de Minas vizinhas à terra natal, Pratápolis.

Em uma delas, Itamogi, contou ter avistado um certo capitão Donizete e que estabeleceu de imediato com ele, sem jamais ambos terem se visto antes, um afinado reconhecimento mútuo que se deu pela troca do primeiro olhar. Salve Maria: em sua sapiência e sensibilidade, o congadeiro intuía que em suas retinas pousava a imagem de uma nova rainha daqueles costumes e tradições, a qual, gentilmente, cedeu o cajado, bastão simbólico de majestade que em sua simplicidade com certeza deveria ser mais nobre que um cetro cravejado de diamantes. “A cidade inteira saia no congado, eu nunca tinha visto, que lindo! E todos comiam juntos no mesmo lugar, era uma delícia”.

“Fiquei pensando o dia todo que este Imagens do Brasil Profundo de hoje seria do começo ao fim para mim a relação que a gente tem com o nosso lugar, nossas terras, rezas e estranhezas, mas sobretudo de um imenso coração que une nós todos, nossos rios, nossas lutas, nossos sonhos”.

Do outro lado do Atlântico
Alguém ainda chora a dor da África sem América
Mãe roubada, barriga roubada
Do lado de cá respondo com o toque do meu tambor
No encontro do meu coração reúno as duas partes
Lado esquerdo e direito,
Artéria e veia:
Dou à luz um índio
Filho do negro que já fui!

Consuelo de Paula é assim, multiétnica; pluralista e universal,  palestina, judia, americana de todas as latinidades. Trilha de uma Folia de Reis, de tonalidades suaves, não perde a essência e o perfume, como um manacá. Jair Marcatti apresentou a porção brasileira dela como síntese entre Cecília Meirelles, Guimarães Rosa e Manoel de Barros: de fato, ela sabe como ninguém tanto do tratado das coisas e dos sentimentos, quanto da poesia dos cuidados diários, como encontrar rimas que soam como curativos ou flores que saram  descuidos e dores ocasionais e saudades ancestrais; Consuelo de Paula transforma o ínfimo em grandeza. A imensidão que existe em seu mar e que em seu íntimo também se configura sertão pede velejar sem pressa… uma, duas, três, quantas vezes soprar um vento de bonança ou um cavalo passar arriado, pois, embora intensa, em sua correnteza jamais se mareia e naufragam barcos, em seu solo jamais vingam estiagens: mesmo os que têm cascos frágeis como papel, mesmo as mais perdidas asas brancas, por fim ancoram e encontram o amor que ela nos dá! Entre uma batida ritmada no tambor e um ponteio do violão, não há negror que resista no horizonte. Mesmo que a gente tenha que seguir remando contra a maré, com Consuelo de Paula na proa, seja no palco ou entre nós, a viagem sempre será profunda e abençoada!

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Consuelo de Paula, mineira de Pratápolis, cantou sucessos de sua discografia, composta por seis álbuns, entre os quais parcerias com mestres como Rubens Nogueira e Mário Gil

Jair Marcatti afirmou que o Imagens do Brasil Profundo está sendo retomado em um momento no qual o país enfrenta polarizações que têm gerado várias formas de agressões e aguda desesperança — contexto que reafirma os propósitos do projeto como ele o pensou, há três anos, seguindo princípios e ideais de três dos nossos maiores expoentes culturais que são o patrono Mário de Andrade, Darcy Ribeiro e Ariano Suassuna, apoiado, ainda, em pensamentos de Machado de Assis. Conforme o entendimento do curador, estes propunham  “um reencontro do Brasil com ele mesmo”, mas não com o Brasil institucional, caricato e burlesco, e sim o mestiço, aquele que nos permite afirmar perante o mundo a originalidade da civilização tropical, revelador de nossos melhores instintos e mais arraigadas tradições.

Em 2016 a temporada se estenderá até 14 de dezembro. A próxima rodada, 22 de maio, um domingo, contemplará a partir das 11 horas o público infantil. O convidado é o grupo inserido no circuito mundial de contação de histórias Boca do Céu, cuja participação será finalizada pelo violeiro Paulo Freire (Campinas/SP). Depois, na quarta-feira, 25 de maio, Marcatti receberá para o primeiro bate-papo  deste ano o acordeonista Thadeu Romano (São Paulo/SP) com o mote “A geografia afetiva dos caminhos da sanfona no brasil”    

“Vá meu cavalo alado, vá cumprir sua sina,
Leve este recado, esta carta pendurada em seu dorso
Corra porque a paz tem pressa!”

Do livro A Poesia dos Descuidos, de Consuelo de Paula e Lúcia Arrais Morales. Consuelo o declamou motivada pela imagem que Marcatti escolheu para ilustrar o projeto, um viajante à cavalo, extraída dos Cadernos de Viagem de Guimarães Rosa.

Prestigiaram a apresentação de Consuelo vários expoentes da música de qualidade e da imprensa, alguns de primeira grandeza como ela: Katya Teixeira, Paulo César Nunes, Antônio João Galba, Sidnei de Oliveira, Amauri Falabella, Jean Garfunkel, Joana Garfunkel, Fábio Jorge, Betto Ponciano, Vitor Nuzzi, Mercedes Cumaru, Marco Aurélio Olímpio e Joel Emídio, do blogue Ser-tão Paulistano. O Barulho d’água Música também destaca o primoroso trabalho dos técnicos de som e de iluminação do teatro e a presença na plateia da supervisora de ações culturais da Biblioteca Mário de Andrade Tarsila Lucena.

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O violeiro e o sanfoneiro Paulo Freire e Thadeu Romano: o projeto Imagens do Brasil Profundo, ainda em maio, terá mais duas atrações imperdíveis (Foto: Arquivo Barulho d’água Música/Marcelino Lima)

837 – Cantariar, novo álbum de Kátya Teixeira, consagra 21 anos de carreira e parcerias em andanças pelo Brasil profundo

A cantora, instrumentista e compositora paulistana Katya Teixeira ocupará o palco da unidade Belenzinho do Sesc da cidade de São Paulo no sábado, 9 de abril, para lançamento a partir das 21 horas de Cantariar, álbum com o qual comemora a chegada aos 21 anos de carreira. Idealizadora do premiado e já na terceira temporada projeto Dandô –Circuito de Música Dércio Marques, o perfil de Katya Teixeira é o de pesquisadora e artista que percorre vários estados garimpando saberes e sonoridades que constituem a cultura popular, dedicação que entre os parceiros e amigos renderam a ela o carinhoso apelido de “Katya Trecheira”. Entre uma parada e outra nestas viagens pelo Brasil profundo, ela incorpora à obra manifestações culturais autênticas do nosso país, sempre guardando reverência aos mestres que a estimulam e a influenciam, além de formar profícuas parcerias musicais que ao mesmo tempo a consagram, consolidam seu nome como referência no meio e revelam novos valores no rico âmbito da música  regional.

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754 – Apoie a campanha de Katya Teixeira (SP) para gravar “As Flores do Meu Terreiro”, quinto álbum e primeiro autoral da carreira!

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As Flores do Meu Terreiro é o nome que a cantora paulistana Katya Teixeira escolheu para batizar aquele que conforme projeta será o quinto álbum da carreira já com 21 anos de trajetória, ofício que a transformou em ícone da música regional brasileira. Katya Teixeira, conhecida e querida tanto pela fibra, quanto pela generosidade que complementam seu indiscutível talento, não apenas representa uma bandeira em defesa da música independente e de qualidade: carrega-a, literalmente, pelo país afora e também pelo exterior, levando por onde passa importantes valores de nossa cultura popular, alguns dos quais não apenas ajuda a divulgar, mas recupera, revaloriza e, portanto,  colabora para preservar.

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