1181 – Série “Clássico do Mês” volta a Pernambuco, berço do Ave Sangria

Passados 45 anos do emblemático álbum de estreia, grupo está de novo na estrada para lançar Vendavais, para o qual está promovendo uma vaquinha virtual e será atração em três shows em unidades paulistanas do Sesc, já disponível em plataformas de streaming

O Barulho d’água Música retoma nesta atualização a série Clássico do Mês dedicando-o ao disco Ave Sangria, único por enquanto gravado comercialmente pela homônima banda pernambucana, do Recife, em 1974. O grupo  Ave Sangria à época reunia por Marco Polo (vocais), Ivson Wanderley, o Ivinho, (guitarra solo e violão), Paulo Raphael (guitarra base, sintetizador, violão, vocal), Almir de Oliveira (baixo), Israel Semente (bateria) e Agrício Noya (percussão) e para este lendário álbum de 12 faixas levou ainda aos estúdios Zé Rodrix (Cidade Grande, com sintetizador) e Márcio Vip (Momento na praça, ao piano; Por que?, ao órgão; e Dois Navegantes, ao sintetizador).

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1170 – Rock, baião e psicodelia fervem no caldeirão de “Paêbiru”, bolachão mais caro da MPB

Quase todo o lote da única prensagem do disco lançado em 1975 por Lula Cortês e Zé Ramalho, tema de março da série  Clássico do Mês, além da fita master, foi destruída por uma enchente em Recife. Os álbuns que sobraram estão em poder de colecionadores ou fora do pais a preço de ouro, por não menos de R$ 4 mil

O Barulho d’água Música retoma neste final de março a série Clássico do Mês, dedicada a um álbum que marcou época na música brasileira. Nesta atualização o disco escolhido é Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol¹ também conhecido simplesmente por Paêbirú ou Peabiru, bolachão duplo de Lula Côrtes Zé Ramalho lançado em 1975 pela extinta gravadora Rozenblit. Paêbiru é o único trabalho lançado em parceria entre os dois, o segundo de Lula Côrtes e o primeiro de Zé Ramalho. Contém uma miscelânea de gêneros musicais como o rock psicodélicojazz, e ritmos regionais do Nordeste e é considerado um dos primeiros discos não declarados da psicodelia brasileira. Chegou a ser o vinil com maior valor comercial no Brasil: bem conservado, um disco da edição original na mão de colecionadores não custaria menos que R$ 4 mil ou até mais. Paêbiru vem acompanhado de um livro que traz estudos sobre a região e informações sobre a lenda do Caminho da Montanha do Sol.

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1163 – Samba paulistano deve a Geraldo Filme, o “Geraldão da Barra Funda”, o respeito e a força que sepultaram o estigma de “túmulo” do gênero

O carnaval, mais uma vez, trouxe alegria e foi festejado em várias cidades brasileiras, com destaque maior da mídia para os desfiles das escolas de samba das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, ainda consideradas, ambas, as mecas nacionais onde, por excelência, o gênero mais se afirmaria e seria popular, muito embora ocorra com igual força e movimente astronômicas cifras, também, em outros estados do país, entre os quais, sem sombra de dúvidas, Bahia e Pernambuco, onde Salvador e Recife, suas capitais, fervem nos dias de folia dedicados à festa de Momo.

São Paulo, entretanto, nem sempre foi reconhecida e considerada reduto desta manifestação que mescla elementos da cultura popular brasileira com valores de suas vigorosas raízes, a mãe África negra — haja vista que durante muito tempo ficou estigmatizada como suposto “túmulo do samba”, termo que se popularizou e pespegou após a  célebre frase do poeta e compositor Vinícius de Moraes. O devido reparo que corrige esta bobagem e erro histórico e os atiram à vala mais profunda da qual jamais deverá ressuscitar, revelando a grandeza e a riqueza do samba paulistano, ganham corpo com as obras de expoentes como Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Germano Mathias e Osvaldinho da Cuíca, mas além deles, enterrando a “atravessada” infeliz do Poetinha4um outro nome já se levantava como militante, cantor e compositor contra a propalada e suposta hegemonia carioca como única capaz de promover o ziriguidum e fazer reboar, sobretudo fora dos morros, os tamborins: Geraldo Filme.         

Nesta atualização que o Barulho d’água Música mais uma vez traz das páginas da Revista E do Sesc de São Paulo, reproduzindo, agora, matéria publicada em junho de 2015 em sua edição número 228, os amigos e seguidores poderão conhecer um pouco mais sobre Geraldo Filme, cuja biografia e feitos ainda hoje não recebem os devidos louros. Intitulada “Filme, prosa e samba”, a matéria da Revista E apresenta Filme como autêntico e incansável defensor “de uma matriz para o samba da pauliceia e estudioso da cultura negra”, que “fez de seu universo uma cartografia cultural da cidade”.

Linque para a matéria original da Revista E 228, de junho de 2015

Mano da Barra Funda

Geraldo Filme nasceu em 1927 e morreu em 5 de janeiro de 1995, na cidade de São Paulo, em decorrência de complicações de diabetes e pneumonia. Seu nome artístico é uma redução do completo, Geraldo Filme de Souza. Em seu registro de nascimento original, entretanto, consta que teria nascido em 1928, em São João da Boa Vista¹, no interior paulista, embora ele mesmo tenha declarado inúmeras vezes que a primeira data é a correta. Seja como for, cresceu no bairro paulistano da Barra Funda [onde também viveram Mário de Andrade e Inezita Barroso], o que lhe rendeu o apelido de “Geraldão da Barra Funda”. O menino entregava marmitas feitas pela mãe, Augusta, que era dona de pensão.

O pai, seu Sebastião, e a mãe eram filhos da última geração do sistema escravista e gostavam de música. O pai tocava violino e a mãe era uma das organizadoras da romaria nas festas do Bom Jesus de Pirapora [promovidas na cidade de Pirapora do Bom Jesus, na região Oeste da Grande São Paulo, a 54 quilômetros da Capital]. “Nesses eventos se praticavam diversos estilos de samba rural, samba de bumbo, samba de lenço, partido-alto, música caipira e jongo”, contou à Revista E a cantora, antropóloga e doutoranda em Música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)Bruna Prado². “A formação musical do sambista se inicia ainda criança, ao frequentar as festas do Bom Jesus de Pirapora e as rodas de samba informais organizadas por trabalhadores braçais nas ruas do bairro da Barra Funda, onde ele entregava marmitas. Além disso, havia a influência do carnaval de rua, dos blocos carnavalescos e do samba veiculado pelas rádios”, relembrou Bruna.

Além do samba na memória de infância, outra relação a ser considerada é com a cultura caipira, apresentada ao menino pela avó, que o ensinava cantos negros de trabalho escravo. “Geraldo seria um defensor dessa matriz cultural para o samba rural paulista”, observou Bruna.

Dinâmica dos bairros

Junto à Barra Funda, outros bairros paulistanos formaram uma espécie de cartografia cultural necessária para mergulharmos no universo musical de Geraldo Filme – Campos Elíseos, Bixiga e Liberdade –, entre eles. Para o professor de História da África da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Amailton Magno Azevedo, estudioso da memória musical do sambista e sua relação com os grupos negros em São Paulo, a dinâmica dos bairros foi vital para essas agremiações.

“Neles percebi que havia uma rede e um circuito de informações, vivências, produção artística, religiosa e política na qual os negros demarcavam seus interesses e visões de mundo”, disse. “E Geraldo Filme percebeu isso ao se conectar numa rede negra. Essas experiências foram por mim chamadas de ‘microáfricas’, que foram sendo operadas de modo alheio aos projetos hegemônicos de cidade.Segundo Azevedo, as “microáfricas” são experiências de resistência cultural. “O samba, o carnaval e os costumes negros tiveram de produzir estratégias para persistir com seus valores e signos culturais”, reforçou.

Cordão carnavalesco em uma das ruas da Barra Funda, na década dos anos 1940, uma das influências da obra de Geraldo Filme (Crédito: Instituto Moreira Sales)

Universo particular

Gênio para uns, pioneiro para outros, Geraldo Filme constrói uma obra que se consolida com o passar dos anos. É difícil imaginar a configuração do samba paulistano sem suas ações, seu pensamento e valores, que revelam o artista atuante e consciente. Tanto que não é possível delimitar o alcance de suas composições. Era, de fato, uma cabeça pensante do samba na cidade. “Um sambista da melhor qualidade, que pensou a formação genética do samba, estabelecendo uma identidade cultural que ia além do gênero musical”, pontuou o compositor, produtor musical e fundador do Grêmio Recreativo de Resistência Cultural Kolombolo diá Piratininga, Ricardo Dias.

Geraldo Filme questionava um modelo predominante de samba, no caso, o carioca, entre os anos 1920 e 1940. “Por um tempo foi determinado o jeito carioca para o Brasil, como se o malandro do Rio de Janeiro fosse o ideal. Ele foi um cara diferenciado e lutava pela valorização do sambista. Por muito tempo as escolas de samba tiveram um crescimento midiático e o sambista ficava em segundo plano, e ele questionava esse cenário”, observou Dias.

A vontade de se destacar do sambista se mostrou cedo, aos 10 anos de idade, ao dar forma à primeira composição. Em 1937, o pai de Geraldo Filme voltava de uma viagem ao Rio de Janeiro exaltando as qualidades do samba carioca. O menino então, escreveu, inspirado pelo pai, Eu Vou Mostrar (Eu vou mostrar/Que o povo paulista também sabe sambar/Eu sou paulista, gosto de samba/Na Barra Funda, também tem gente bamba/ Somos paulistas e sambamos pra cachorro/Pra ser sambista não precisa ser do morro).

Já é possível notar a força do verbo que prevaleceu nas canções que despontariam durante sua vida. “As composições de Geraldo são carregadas de discurso social, étnico, cultural, político e sociológico”, qualifica-o o sambista, sociólogo e pesquisador do Instituto Cultural Samba Autêntico T. Kaçula. Para ele, o compositor conseguia dizer o que queria mesmo tendo a ditadura e a censura pela frente.

Com os bambas

O talento de Geraldo Filme não se limitava aos contornos do samba. Foi amigo do dramaturgo Plínio Marcos e teve um grande encontro com o poeta e folclorista Solano Trindade, que foi tema do samba-enredo vencedor do carnaval de 1976, pela escola Vai-Vai. Tendo Plínio Marcos como referência, Geraldo Filme conheceu atores, militantes de esquerda e intelectuais.

O escritor e dramaturgo Plínio Marcos foi um dos contemporâneos de Geraldo Filme

De acordo com Bruna Prado, esse movimento permitiu que ele adquirisse capital simbólico e pudesse atuar pela institucionalização das escolas de samba. “Além disso, promoveu a obra dos sambistas de São Paulo nacionalmente, fazendo com que saíssem de seus redutos e entrassem em contato com a televisão e a indústria fonográfica”

Ao promover o samba e discutir questões sociais – articulação complexa na época –, Geraldo Filme enfrentava a repressão. “As escolas de samba eram os quilombos urbanos”, comparou Dias. O sambista ajudou na organização dos cordões e blocos carnavalescos que se tornariam as escolas de samba; também foi presidente da União das Escolas de Samba de São Paulo. “A ligação dele com o Plínio Marcos não era à toa. Era momento de repressão e ele soube se posicionar com maestria. Deve ter sofrido muito, ainda hoje é difícil colocar em prática o seu pensamento”, comentou Dias.

Em trajetória consistente, atuou como compositor, diretor e conselheiro de escolas de samba. A empreitada tem resultado único. O disco que levava seu nome foi lançado nos anos 1980 pela gravadora Eldorado. Dois anos depois, gravou com Tia Doca da Portela e Clementina de Jesus um dos grandes álbuns da música popular, O Canto dos Escravos.

Mais do que sambista, Geraldo Filme é considerado um mediador, criando pontes, “uma comunicação entre os bairros paulistanos e entre São Paulo e o resto do Brasil”, opinou Bruna. Para ela, mesmo que outros sambistas, como Adoniran Barbosa, já tivessem atuado dessa maneira, a importância de Geraldo Filme também está no fato de ser negro e neto de escrava. “Portanto, era representante de um grupo étnico marginalizado que estava atuando politicamente e ganhando voz ao longo do século 20”, completou.

Dedo do gênio

Os pesquisadores Amailton Magno Azevedo, Bruna Prado e Ricardo Dias destacaram fatos e características que marcaram a vida de Geraldo Filme e ecoaram na história do samba:

Amizade com Plínio Marcos: O dramaturgo apresenta Geraldo como legítimo poeta do povo brasileiro no encarte de seu único disco solo, lançado em 1980. Antes, em 1974, Plínio Marcos deixou clara a sua admiração pelo sambista e pelo gênero, ao gravar Nas Quebradas do Mundaréu, reunindo Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro e Zeca da Casa Verde, que tiveram as canções intermeadas pela voz do dramaturgo. O disco raro foi reeditado em CD pela gravadora Warner em 2012.

Sem essa de túmulo do samba: Geraldo Filme demoliu o clichê de ser São Paulo o túmulo do samba. Com ele, a cidade é libertada do silêncio inventado no túmulo. Instituiu um lugar ímpar para o samba, com memórias rurais e religiosas dos tambores de Pirapora do Bom Jesus. Driblou a narrativa que insiste em silenciar as memórias sonoras paulistas e valorizar apenas os ruídos de fábricas, automóveis e outros sons urbanos. Na memória dos sambistas, “Seu Geraldo”, ou “Geraldão da Barra Funda” [outros apelidos que teve são Tio Gê”, dado pelas crianças, “Corvão” e na infância de”Negrinho das Marmitas”] é sempre lembrado como o músico responsável pela instituição do samba paulistano.

Respeito é para quem tem: Última faixa de seu único disco solo, a canção Reencarnação fala da importância de o negro se assumir como indivíduo e como cultura, abordando os ancestrais, o sagrado e profano. Reencarnação está para o samba de São Paulo como Negro Drama, dos Racionais Mc’s, está para o rap e o hip-hop. O rap brasileiro deu sequência social e política iniciada pelo samba daquele período. O papel do grito do oprimido não é só música, mas cultura.

Foto gerada a partir de imagem captada por Rodrigo Gutiérrez em 2016 para o programa da Rede Globo Antena Paulista, que traz informações sobre o samba de bumbo, uma manifestação  típica de Pirapora do Bom Jesus, considerada o berço do samba paulista e lugar que ajudou a moldar tanto o talento, quanto a devoção de Geraldo Filme ao gênero mais popular do Brasil

Ainda na memória

O Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc da cidade de São Paulo reuniu músicos e pesquisadores em ciclo de palestras para analisar o legado de Geraldo Filme motivado pelos 20 anos de ausência do cantor e compositor, no mês de maio de 2015. Promoveram um ciclo em homenagem ao compositor paulistano – Sambista Imortal da Pauliceia: 20 anos sem Geraldo Filme. Durante as palestras, a importância do compositor foi debatida em três mesas compostas por sambistas e pesquisadores da área: Kelly Adriano Oliveira, Fernando Penteado, T. Kaçula, Simone Tobias, Bruna Prado, Renato Dias e Amailton Magno Azevedo.

“Na primeira mesa foi abordada a herança africana de Geraldo Filme, no segundo dia foram trazidos à tona os aspectos rurais que permeiam a obra do compositor de Batuque de Pirapora, e o ciclo terminou debatendo o seu legado para o samba urbano paulista”, explicou Flávia Prando, pesquisadora do CPF responsável pela programação do ciclo em homenagem ao sambista. “É uma obra que possui caráter de crônica cotidiana calcada na crítica social, que denuncia os males do progresso e as discriminações étnico-raciais vividas pelas classes sociais menos privilegiadas, mas que não abre mão, em momento algum, da profundidade estética.

Anjo discriminado 

Tanto na infância,  quanto na vida adulta, Geraldo Filme participou da festa de Bom Jesus de Pirapora onde havia grande participação da população negra. Discriminados, durante essa festa os negros ficavam alojados em barracões fora da área urbana. Ali, após a parte religiosa do evento, eles se divertiam com samba de bumbo e outras danças então comuns à população negra do Sudeste. Certa vez, quando Geraldo Filme era menino, sua mãe, pagando uma promessa, o vestiu de anjo. No entanto, o organizador da festa o proibiu de andar na procissão com outras crianças vestidas de anjo, por ser negro. Revoltada sua mãe jogou fora as asas e o levou ao barracão onde os negros faziam suas festas, onde não eram discriminados. Essa ocorrência o teria marcado ao ponto de, na vida adulta, inspirá-lo a compor o samba Batuque de Pirapora.

Geraldo Filme foi testemunha participante das antigas manifestações culturais populares de São Paulo, sobretudo das, então reprimidas manifestações culturais da população negra. Em uma edição do programa Ensaio, falando sobre sua juventude ele relatou as rodas de tiriricas, cujos instrumentos improvisados eram as palmas das mãos, as latas de lixos e as caixas de engraxar sapato. Ele relatou os bailes que os negros promoviam nos porões, para driblar as repressões policiais, as Festas de Bom Jesus de Pirapora, os tamborins artesanais (não havia em São Paulo nenhuma loja especializada nesse tipo de instrumento) em formato quadrado cuja armação era de madeira e o coro feito com pele de gato e que era esticado numa fogueira improvisada com papel de jornal. Relatou uma época em que o carnaval acontecia nas ruas sem intervenção do Estado [da Globo e das marcas de cerveja] e era sustentado pelo gosto da própria população que, informalmente, organizava-se. Nos bairros, por exemplo, enquanto os negros cuidavam da parte musical, italianos se encarregavam de preparar as comidas.

Geraldo Filme tem o nome ligado à história do carnaval paulista. Respeitado e querido por todas as escolas, marcou presença na Unidos do Peruche, para quem compôs sambas-enredo, mas é lembrado principalmente por sua ligação com a Vai-Vai. O samba Vai no Bexiga pra Ver tornou-se um hino da escola, e Silêncio no Bexiga homenageia um célebre diretor de bateria da Vai-Vai, exímio capoeirista das antigas rodas de tiririca e chefe de torcida organizada do Corinthians — Pato Nágua, assassinado na cidade paulista de Suzano, pelo Esquadrão da Morte. Com o samba-enredo Solano Trindade, Moleque de Recife levou a escola ao título de campeã, em 1976.

Um grande conhecedor da história de São Paulo, Geraldo Filme pesquisou e compôs o samba Tebas, que conta a história da origem desse termo que significava “o bom” ou “o melhor” e era muito usado pelos paulistanos no século passado. A origem desse termo é atribuída a um escravo que conseguiu sua carta de alforria por ser um grande conhecedor de alvenaria e hidráulica, sendo o responsável pela construção das torres da Catedral da Sé e da canalização dos esgotos da região central da cidade. Foi dele o primeiro casamento na Catedral após a construção das torres. Ele construiu também um chafariz no centro da cidade. Ambas autorias não são lembradas pelas autoridades.

Nos últimos anos de vida, Geraldo trabalhou na organização do carnaval na cidade de São Paulo, tornando-se uma referência da cultura negra paulistana. Um aspecto pouco estudado de sua obra é a releitura do samba rural paulista (Batuque de Pirapora, Tradições e Festas de Pirapora), que trazem elementos dos jongos, vissungos e batuques ensinados por sua avó. Deixou poucas gravações, e boa parte de sua obra continua desconhecida. O álbum em formato LP Geraldo Filme, gravado em 1980, demorou 23 anos para ser lançado em formato digital (Eldorado, 2003).

Uma importante gravação de cunho documental e histórico, O Canto dos Escravos, com Clementina de Jesus e Doca da Portela (Eldorado, 1982), também já pode ser encontrada em CD. A gravação do programa Ensaio, realizada em 1982, é outro documento valioso sobre Geraldo Filme (SESC/ TV Cultura).

Suas composições podem ser ouvidas em gravações de Beth Carvalho (Beth Carvalho Canta o Samba de São Paulo), Osvaldinho da Cuíca (História do Samba Paulista), grupo A Barca, entre outros. Existe em vídeo um documentário sobre sua obra, realizado por Carlos Cortez, uma coprodução da TV Cultura, CPC-Umes e Birô da Criação. Ouça também o álbum de Plínio Marcos – Nas quebradas do Mundaréu – que mistura a prosa, contada por Plínio Marcos, e o samba, cantado por Geraldo Filme. ³

Conteúdo de qualidade

O Barulho d’água Música recebeu autorização para reproduzir na íntegra   matérias de conteúdo relacionados à música publicadas pela Revista E, que circula em versões impressa e digital. A revista é mantida pelo Sesc da cidade de São Paulo para divulgação da agenda cultural e de eventos de recreação e de lazer programados a cada mês nas unidades que a entidade mantém tanto na Capital, quanto em diversos municípios do estado de São Paulo. As matérias das variadas sessões trazem pautas relativas a temas do universo das artes e de suas personagens, agentes e autores — do cinema ao grafite, da literatura ao teatro –,  uma sessão de poesias, crônicas e muito mais para uma agradável e enriquecedora leitura.  

Confira todas as edições mais recentes da Revista E e números anteriores  em sescsp.org.br/revistae

 


Silêncio no Bixiga

Dois resultados inéditos marcaram os desfiles do carnaval da cidade de São Paulo em 2019 e pode-se dizer que o mais inesperado vitimou a Vai-Vai, a recordista de títulos da folia paulistana.

Com 15 taças, a tradicional agremiação sediada no Bixiga,  preferida de Geraldo Filme e popularizada como “a escola do povo”, pela primeira vez em 89 anos caiu para p Grupo de Acesso — a segunda divisão do samba na Capital. A passagem pelo sambódromo do Anhembi apresentando o samba-enredo Vai-Vai: o quilombo do futuro, no qual abordou a luta dos movimentos e de negros na sociedade — e ainda homenageou a vereadora carioca Marielle Franco (Psol), assassinada há um ano na cidade do Rio de Janeiro – rendeu apenas 268,8 pontos na avaliação dos jurados. O resultado deixou a Vai-Vai em último lugar e a escola caiu ao lado da Acadêmicos do Tucuruvi, que faturou 269,2.

Desfile da Escola de Samba Mancha Verde, campeã do carnaval da cidade de São Paulo (Foto: Marcelo Messina)

A derrocada e tristeza da Vai-Vai contrastou com a alegria da Mancha Verde — escola associada à torcida uniformizada do clube de futebol do Palmeiras, que despontou na avenida em 2013, e tem sede na Barra Funda, ironicamente, berço do homenageado desta atualização. Com 270 pontos, a Mancha Verde conquistou o primeiro lugar, apenas um décimo à frente da vice-campeã. Dragões da Real, também representante de torcida organizada, mas do time de futebol do São Paulo. O tema da Mancha Verde foi Oxalá, Salve a Princesa! A Saga de uma Guerreira Negra

 


¹ São João da Boa Vista foi o local onde Geraldo Filme foi registrado e batizado, por ser a terra natal de seus pais e familiares de ambos os lados. Na época era bastante comum, pelo menos entre as famílias negras, batizar e registrar os filhos na terra de origem da família como se a criança também fosse nativa daquela terra. Segundo ele a festa de seu batizado durou mais de um dia. O pai tocava violino, mas foi com a avó que conheceu os cantos de escravos que influenciaram sua formação musical.

² A doutoranda em Música Bruna  Queiroz Prado é autora da tese de Doutorado “A passagem de Geraldo Filme pelo ‘samba paulista’: narrativas de palavras e músicas”, que pode ser acessada e lida pelo linque www.repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/279809/…/Prado_BrunaQueiroz_M.pd

³ O jornalista Mauro Ferreira destaca em matéria no blogue Pop&Arte  que Geraldo Filme foi “artista de forte consciência social” e compositor que deixou a assinatura firme em sambas como A morte de Chico Preto (1975)Batuque de Pirapora(1989)Garoto de pobre (1980),São Paulo menino grande (1968),Silêncio no Bixiga (1972) e Vai cuidar de sua vida (1980), entre outros.

4 Em seu livro 101 Canções que Tocam o Brasil  (Estação Brasil), à página 81, o jornalista e compositor Nelson Motta relata:  “Ficou célebre o palpite infeliz de Vinicius de que ‘São Paulo é o túmulo do samba’. Mas depois se esclareceu que foi apenas um desabafo do poeta, irritado com um bando de bebuns barulhentos que não o deixavam ouvir o samba que Johnny Alf tocava numa boate paulistana. Johnny havia se mudado do Rio para São Paulo, e a frase foi dita por Vinicius para consolá-lo, provocando o bairrismo paulista.”

5   Dona Augusta Geralda tinha uma pensão nos Campos Elísios e ficou conhecida como “negra da pensão”. Ela fazia marmitas que o menino Geraldo entregava em toda a região, ficando conhecido como “Negrinho da Marmita”. Antes de ser dona de pensão, a mãe de Geraldo Filme foi empregada doméstica de uma abastada família paulistana. Nessa época ela teve a oportunidade acompanhar essa família em uma viagem a Londres. Depois de observar os movimentos sindicais em Londres ela teve a ideia de fundar o sindicato das empregadas domesticas, classe trabalhista que em São Paulo era formada praticamente apenas por mulheres negras. Esse sindicato foi o embrião do grêmio recreativo que deu origem ao cordão carnavalesco que futuramente iria se transformar na Escola de Samba Paulistano da Glória

 

 

1154 – Sutileza e contundência, sem firulas, marcam novo disco de Ayrton Montarroyos (PE)

Pernambucano que vem recebendo diversos elogios da crítica pelo trabalho de pesquisa e interpretação da canção popular brasileira lança seu segundo disco, em parceria com o violonista do Sr. Brasil Edmilson Capelupi

A gravadora Kuarup está lançando Um mergulho no nada, segundo álbum do cantor de Recife (PE) Ayrton Montarroyos (Ayrton José Montarroyos de Oliveira Pires), no qual acompanhado pelo violonista Edmilson Capelupi interpreta por meio de um bem elaborado repertório clássicos da MPB e de contemporâneos como Ylana e Yuru Queiroga. E que ninguém se perca pelo nome escolhido por Ayrtinho — como é chamado por familiares como a avó Célia o jovem pernambucano nascido em 1995 – para batizar o álbum gravado em uma única apresentação no glamouroso Teatro Itália em 1º de abril de 2018, na cidade de São Paulo: pare o mundo por meros 35 minutos, menos que um dos dois tempos de pelada, e faça o julgamento apenas após terminar a última das 10 faixas — se é que pelo meio da audição o amigo ou seguidor já não estiver tomado por um “magnetismo inescapável”, como escreveu o crítico e jornalista Lucas Nobilo, que ouviu Um mergulho no nada “quatro vezes de enfiada” e também estamos fazendo desde que o disco chegou à redação, gentilmente cedido ao Barulho d’água Música por Rodolfo Zanke, a quem mais uma vez somos gratos.

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1153- Rainha do Mar, Iemanjá é festejada em várias cidades do país; ouça músicas que a homenageiam*

*Com Camila Moraes  (da surcusal brasileira do portal El País) e blogues SignificadoConexão Planeta e iQuilibrio

Odoyá!

Hoje, 2 de fevereiro, cidades como Salvador (BA), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ) e Rio Grande (RS), entre outras, celebram cultos e promovem festas, entre outras iniciativas de louvor, a Iemanjá, orixá feminino de origem africana e presente nas religiões Candomblé e Umbanda. Por sincretismo, entre os católicos é tratada por Nossa Senhora da Conceição — em São Paulo — das Candeias (celebrada, também em 8/12) — na Bahia –, e dos Navegantes — no Rio Grande do Sul. Em Belém, capital do Pará, e São Paulo, devotos organizam procissões e cultos em 8 dezembro, o que demonstra a popularidade desta divindade cujo nome também ocorre iniciado pela letra Y: YemanjáNa África,o nome tem origem nos termos do idioma Yorubá “Yèyé Omo Ejáque significa “Mãe dos filhos-peixe”. 

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1135 – Tânia Grinberg e Fabio Madureira lançam “Gota Onde Nada o Peixe”, no Teatro da Rotina (SP)

Álbum de 11 faixas convida o público a um mergulho no que passa batido no dia-a-dia  por causa da zoada, do corre-corre e relações mecânicas e propõe escutar para ver sentido, sentir para entender e vivenciar para aprender

O Barulho d’água Música recebeu mais uma valiosa contribuição para o acervo do blogue gentilmente nos enviada pelos colegas da Tambores Comunicação, aos quais agradecemos: o disco Gota Onde Nada o Peixe, que traz composições da dupla Tânia Grinberg (voz) e Fabio Madureira (voz e violão), com lançamento previsto para sábado, 15/12, no Teatro da Rotina, que fica na emblemática Rua Augusta, um dos mais badalados endereços paulistanos (veja a guia Serviços).

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1118 – Leia entrevista com Ceumar (MG), a primeira do Clube Cantautores, organizador do festival Mostra Cantautores

 
Amigos e seguidores:
Esta atualização do Barulho d’água Música traz uma entrevista com a cantora e compositora mineira Ceumar produzida e editada por Eduardo Lemos, da Navegar Comunicação, empresa que atua na organização e  na divulgação do festival Mostra Cantautores,  e que inaugura a série Conversas com cantautores, com artistas que já se apresentaram na Mostra Cantautores, acerca dos mistérios e belezas que cercam a produção daquele que compõe, toca e canta. Ceumar foi uma das atrações da quinta edição, em 2016.

 

Para saber mais sobre a Mostra Cantautores, fica a dica: faça uma assinatura, gratuita  Clube Cantautores e tenha acesso às entrevistas com compositores, promoção de ingressos para o festival, dicas de discos, playlists criadas pelos próprios artistas e muito mais. Para assinar com o seu e-mail basta visitar bit.ly/clubecantautores

 

Mostra Cantautores: Cantar, tocar um instrumento e compor: o cantautor é essa figura que reúne em si os três elementos essenciais da música popular. Me parece uma condição de grande liberdade: ser capaz de, em algum momento, depender apenas de si para fazer a música estar no mundo. Como é pra você essa condição de cantautor?

CeumarAcho que você falou uma palavra fundamental: liberdade. No meu caso, tem a ver com liberdade, amadurecimento e encontro comigo mesma. Eu demorei um pouco para me descobrir como compositora. Havia uma insegurança de me expor na canção. “Como eu posso funcionar como autora das minhas canções? Como isso vai refletir nas pessoas? Será que elas vão gostar?” Foi no meu segundo disco, Sempre Viva [2003], que eu gravei músicas minhas pela primeira vez [Avesso, parceria com Alice Ruiz, e  Boca da Noite, parceria com Chico César e Tata Fernandes]. Ali eu comecei a perceber que eu tinha também esse caminho de expressão.

Ceumar, entre Lui Coimbra (esq.) e Paulo Freire, com os quais gravou Viola Perfumosa, um tributo a Inezita Barroso (Foto: Leo Aversa)

Hoje em dia, faço letras com muito mais liberdade. É bem comum sentar para compor. Mas foi um processo. Eu não comecei compondo, eu não comecei cantautora. Eu comecei intérprete, e só depois de um tempo — de um amadurecimento, talvez — eu tenha encontrado esse viés de liberdade total, que é onde eu estou mais inteira na minha música. Quando a gente toca as canções próprias, eu sinto que as pessoas se entregam e vem mais com a gente. Elas compactuam de outra maneira. E tudo reverbera de uma forma maior.

Você tem se apresentado em diferentes formatos, e um deles é este em que fica sozinha no palco. De que maneira essa experiência de se apresentar solitariamente te afeta como artista? Há coisas que só se vê quando sozinho?

Desde que eu descobri a potência de estar só com o meu violão e as minhas canções, eu descobri um lugar onde eu sou mais humana. Porque ali eu tô inteira e não posso me esconder. Quando eu descobri esse sabor, isso me pegou muito. Eu nunca entendi a música e a expressão artística como algo acabado, finalizado, perfeito — embora eu admire e aprenda muito com os artistas virtuoses, que tem essa busca pela perfeição. No meu caso, é muito mais revelar as imperfeições humanas e aceitar os erros. Eles acontecem, né? Você está sozinha e pode errar um acorde ou uma letra. E isso fica muito transparente. Aí, eu descobri nisso um prazer e uma delícia tão grandes em poder revelar — para além da música e da perfeição artística — que está ali um ser humano totalmente entregue para aquela situação e para aquele momento. As músicas que eu componho são simples. Eu tenho esse desejo de encontrar formas simples, para que elas cheguem fácil nas pessoas comuns, que não estudam ou vivem a música. 

Acho, portanto, que o cantautor humaniza o espetáculo. Porque cada show é um. Cada momento é único. É diferente do show que se ensaia com a banda, que tem um roteiro programado. Quando estou sozinha, eu faço shows sem roteiro! Imagina? Há uns anos atrás eu tinha essa insegurança… hoje em dia, não! Eu começo meu show e vou. Fluindo e vendo o fluxo do momento. Tem horas que me vêm canções que eu me pergunto: “nossa, porque eu estou cantando isso?” Mas eu canto. Se ela chegou ali, é porque está me pedindo para ser expressada.

Em 2017, você se apresentou na Mostra Cantautores. Há alguma memória especial daquele show e de sua passagem por Belo Horizonte? É importante que exista um festival dedicado à figura do cantautor?

Puxa, para mim, especialmente naquele momento, foi muito importante. Eu estava voltando para o Brasil depois de cinco anos morando na Holanda. E justamente a minha grande inquietação ao morar fora foi a questão da palavra, da língua. Então, teve uma dimensão muito grande, primeiro, ter sido convidada como cantautora, porque a minha obra de compositora é pequena. Não faço música aos quatro ventos. Eu demoro, tenho um ritmo muito próprio. Então, ter sido convidada já foi incrível. E poder cantar na minha língua e contar aquelas histórias — em letras minhas ou de parceiros -, para um público super aberto, curioso e envolvido, foi demais, foi lindo, foi muito especial. E, estando em Belo Horizonte, eu conheci uma cena incrível de músicos mineiros, vi shows maravilhosos.

Lembro da minha surpresa quando assisti ao espetáculo do Juan Quintero. Nós tocamos na mesma noite. Eu não o conhecia e fiquei em êxtase com a potência dele. E ele é argentino, está tão próximo de nós… Por isso eu acho fundamental que existam esses espaços e esses encontros. É tão importante que haja troca! É tão importante que a gente veja os outros e se veja também no contexto de autores e de canções. Por mim, eu estaria na mostra todo ano! (risos). Desejo vida longa!

Foto: Pablo Bernardo

De todos os cantautores que possam ter influenciado sua trajetória, qual te causou efeito mais fulminante com seu modo de cantar, tocar e compor?

Eu me lembro do impacto de quando eu vi o Itamar Assumpção pela primeira vez. Eu estava chegando em São Paulo, vinda de Minas, meio tímida, e fui ver um show dele sozinho em voz e violão. E ali virou uma chave pra mim. Eu vi um homem completamente livre na sua loucura — a loucura mais sã que eu pude ver ao vivo. E o violão dele me soou muito simples, com umas levadas de baixo. Eu me reconheci naquilo. Pensei: “eu não preciso fazer acordes mirabolantes. Eu posso simplificar meu jeito de tocar para que a palavra seja a mais crua possível”. Ele se tornou uma grande escola, e é até hoje. Quando eu preciso beber na fonte da canção pura, escuto Itamar Assumpção.

E, da música contemporânea, há quem chame sua atenção nesses quesitos?

Eu poderia citar vários nomes. O Luiz Gabriel Lopes, que tem toda aquela beleza mineira misturada com o mundo inteiro. Ou o Flávio Tris, que se tornou meu amigo e parceiro, e que foi um grande encontro que eu tive em São Paulo. Mas eu queria também lembrar de alguns nomes que talvez não sejam tão conhecidos no Sudeste, como o de um menino que conheci em Recife, num sarau, que se chama PC Silva. Ele é de Serra Talhada, interior de Pernambuco. Fiquei impressionada com a dinâmica de violão e com as letras dele. E, puxando a sardinha pro meu lado, eu acabei de fazer a direção artística do disco da Manu Saggioro, uma cantautora incrível de Bauru. E também tem a Camila Costa, carioca, que conheci quando morava na Europa — eu em Amsterdã, ela em Paris. Ela tem músicas incríveis. Eu teria muita gente pra citar aqui, mas acredito que esses três nomes precisam ser mais escutados.

Casa musical

Ceumar é natural de Itanhandu, localidade encravada exatamente no Sul mineiro, viveu em São Paulo por 14 anos em Amsterdã, capital da Holanda, onde conviveu com “gente de todo lugar”, pode “ouvir as mais diversas línguas e dialetos na rua, andar de bicicleta, aprender com uma nova cultura”. Em sua biografia ela conta que cresceu cercada por música, hábito da casa onde viveu e observa que os pais ainda cantam e as irmãs tocam. Assim, nas festas de família, sempre havia cantorias. Já no colégio, um violão fazia companhia para ela animar encontros na praça e durante as madrugadas. “Aos pés da Serra da Mantiqueira experimentei os sabores da vida interiorana e simples”, comentou.

A chegada a Sampa ocorreu em 1995, antes do embarque para a Holanda. Na mais agitada e maior cidade do Brasil, cinco anos depois, Ceumar gravou o primeiro álbum da discografia, Dindinha, aproveitando os versos Dindinha divinha o quê primeiro vem amor ou vem din-din, dindinha dê dinheiro, carinho e calor pra mim, que o amigo e produtor Zeca Baleiro dedicou a ela. Baleiro participou dos trabalhos do disco, “parceria muito especial”, de acordo com a cantora, lembrando que Tata Fernandes também fez parte da obra. 

Já em 2.000 começaram as viagens, Brasil afora e pelo exterior. Ceumar passou por capitais como São Luís (MA), Salvador (BA), Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG) e países da Europa e da Ásia. Ao levar as cores brasileiras em sua música mesclada por ritmos como coco, marchinha, samba de roda, recordou: tive muitas alegrias ao encontrar gente de ouvidos abertos, ávida pelo frescor da novidade e do que não está, digamos assim, aparecendo nas telas da TV no domingo”.

Com a carreira afirmando-se a cada ano, Ceumar, desde então, já nos legou seis magníficos álbuns autorais. O mais recente saiu em 2014, Silencia. Entre este e Dindinha, os fãs ganharam, Sempre-viva (Ceumar assina a produção musical e arranjos, e marca sua estreia como compositora, com músicas deKleber Albuquerque, Zeca Baleiro e em parceria com Chico César);Achou!(produzido em parceria com Dante Ozzetti), e Meu Nome (quarto disco da cantora, por meio do qual apresenta ao público seu lado menos conhecido: o de compositora; produzido pelo músico e produtor holandês Ben Mendes, é o registro ao vivo dos shows realizados no Teatro Fecap, entre maio e junho de 2008, em que Ceumar apresentou 20 canções, todas de sua autoria, acompanhada quase que unicamente de seus violões). Já na Holanda, gravou com um trio local Live in Amsterdam, ao vivo, em 2010. Os holandeses são Mike del Ferro(piano), Olaf Keus (bateria) e Frans van der Hoeven (baixo acústico) e o disco traz releituras de canções da carreira e uma inédita de Zeca Baleiro: Iá Iá.

Foto: Bem Mendes

Silencia revela momentos de reflexão e descobertas pessoais e espirituais e também é gravado “ao vivo”, em estúdio, produzido pelo cellista francês Vincent Ségal. Registrado ao vivo em estúdio, o trabalho resulta em um som dinâmico, cheio de silêncios e momentos sutis. Acompanhada por Adriana Holtz (violoncelo), Daniel Coelho (baixo acústico) Webster Santos (bandolim, cavaquinho, violão de aço e viola caipira) e Ari Colares (percussão), Ceumar mostra um repertório composto de músicas próprias, além de composições de artistas como Vitor Ramil, Kiko Dinucci, Miltinho Edilberto, Kléber Albuquerque, Sérgio Pererê e Déa Trancoso, entre outros.

Em junho, com Lui Coimbra (RJ) e Paulo Freire (SP), Ceumar lançou Viola Perfumosaem um concorrido show no auditório Oscar Niemeyer do Ibirapuera, em São Paulo. O disco é um tributo à rainha da música caipira, Inezita Barroso, e resgata sucessos como Luar do Sertão; Tamba-TajáÍndiae Marvada Pinga, eternizados por Inezita que ganharam releitura camerística unindo viola caipira e violoncelo, rabeca e alfaias e se mesclam a composições de Villa-Lobos e a canções do repertório autoral do trio.

O trabalho doViola Perfumosa procura resgatar e reciclar a genialidade e a sofisticação das melodias e da poesia da música que se convencionou chamar “caipira”, compondo um mosaico comovente e alegre do Brasil “de dentro”, “dos interiores”, ressaltando a singularidade desta obra poético-musical que é um retrato fiel deste país profundo.

Para ficar ligado!

A 7ª Mostra Cantautores será promovida entre os 3 e 10 de novembro no Cine Theatro Brasil Vallourec, em Belo Horizonte, Minas Gerais, e entre outras atrações terá apresentações com Affonsinho, Cátia de França, João Bosco, Angela Ro Ro, Jards Macalé e Chico Saraiva, entre outros nomes de vários estados do país. A Mostra Cantautores é um encontro de criadores da canção contemporânea com apresentações solo de cantores e compositores acompanhados apenas por seu instrumento. Além de apresentar 16 artistas em suas múltiplas expressões, o evento deste ano também conta com uma programação de debates e atividades diurnas.

Leia também no Barulho d’água Música:

Ceumar canta acompanhada por Daniel Coelho na abertura do Composição Ferroviária, em Poços de Caldas (MG)

1116 – Cátia França, Consuelo de Paula e Déa Trancoso cantam em “Mamelucas”, no Sesc Pompeia

Show é uma das atrações da I Mostra Elas em Cena, que terá encontros inéditos entre compositoras com o objetivo de proporcionar contato e  troca entre sonoridades e processos criativos de diferentes universos musicais

As cantoras e compositoras Cátia de França (PB), Consuelo de Paula (MG) e Déa Trancoso (MG) protagonizarão uma apresentação inédita no Espaço Cênico do Sesc Pompeia no próximo sábado, 13, como atração da I Mostra Elas em Cena. Em Mamelucas, nome dado ao show, as três revelarão sinergias, organicidades e cumplicidades, envoltas em muitas texturas cheias de profundos diálogos e espiritualidades, convidando o público a abraçar as composições poéticas, os sentires e os saberes da gênese cultural brasileira. O Sesc, que costuma ser britanicamente pessoal, marcou o início da cantoria para 21h30 e está limitando a venda de ingresso, já iniciada tanto pela internet, quanto na bilheteria da casa, a dois por pessoa (veja guia Serviços)

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1093 – Francesa Fabianne Magnant promove workshop e toca viola caipira em Curitiba (PR)

Repertório da compositora e intérprete passeia desde as feiras populares do Nordeste brasileiro aos elegantes concertos eruditos de casas europeias , passando por tradições ibérico-mouriscas e manifestações africanas
Marcelino Lima

A violonista e violeira francesa Fabienne Magnant, em turnê pelo Brasil, após passar pelas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, será atração em Curitiba neste sábado, 11 de agosto. Fabienne, primeiro, protagonizará das 14 às 17 horas um workshop durante o qual falará sobre suas formação musical e influências, seu encontro com a viola e também ministrará conselhos técnicos, mas apenas para previamente inscritos; mais tarde, a partir das 20 horas, promoverá para o público em geral um concerto solo. Ambos os eventos serão oferecidos pelo Sesc da Esquina, respectivamente no auditório e no teatro daquela unidade, com apoio de Fernando Deghi (Violeiro Andante) e Claudio Avanso (Viola & Cantoria).

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1089 – Mais uma vez de luto, música e culturas brasileiras lamentam morte de Maria Dapaz

A notícia da partida da Maria Dapaz me deixou muda… Querida colega de ofício, querida compositora e cantora do sorriso lindo que trazia os ares de sua terra, que sua passagem seja bela como o seu canto!   Consuelo de Paula

A cantora e compositora pernambucana Maria Dapaz morreu em decorrência de um câncer de pulmão, na tarde de 27 de julho, em São Paulo. Maria Dapaz apresentou sinais da doença há pouco menos de três meses, depois de participar do 24º Festival da Seresta de Pernambuco, realizado em 11 de maio, em Recife.  Desde então, estava internada para combate à enfermidade. O corpo, após ser velado, foi cremado na tarde do sábado, 28, em Embu das Artes, cidade da Grande São Paulo onde ela vivia.

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