1287- Ao completar 80 anos e 50 de carreira, Marco Aurélio Vasconcellos (RS) lança Além das cercas de pedra

Disco gravado com Marcello Caminha e Martim César e destaque no programa Sr;Brasil foi apresentado pela primeira vez no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, com a participação d’Os Posteiros

O ano de 2019 foi especial para uma das vozes mais expressivas e admiradas do nativismo gaúcho: o cantor e compositor Marco Aurélio Vasconcellos, natural de Santa Maria, cidade situada a cerca de 300 quilômetros de Porto Alegre, a capital do estado do Rio Grande do Sul. Em novembro, ao completar 80 primaveras, Vasconcellos ainda comemorava o sucesso que vem fazendo, de lá para cá, o valioso presente que deu ao seu público em 2 de julho, quando, em noite de gala promovida no icônico Theatro São Pedro, ele lançou ao lado dos seus parceiros Marcello Caminha e Martim César Além das cercas de pedra. Com 14 faixas, das quais apenas a que fecha o trabalho (Torquato Flores, Senhores) é instrumental, Além das cercas de pedra marca, também, 50 anos de carreira do fundador do grupo regional Os Posteiros e foi atração especial do programa Sr. Brasil em 29 de dezembro, quando o apresentador, Rolando Boldrin, recebeu o trio, acompanhado pelo violonista Fábio Costa.

O disco, sétimo da trajetória premiada de Marco Aurélio Vasconcellos, está sendo distribuído pela Tratore, pode ser apreciado nas principais plataformas digitais e com ele abrimos neste 14 de março as audições matinais que promovemos aos sábados aqui na redação do Barulho d’água Música, na cidade de São Roque, Interior paulista. O exemplar que ouvimos nos foi gentilmente enviado de Porto Alegre, onde hoje reside Marco Aurélio, que nos dedicou as seguintes palavras e ao qual somos gratos, estendendo os agradecimentos aos parceiros Martim César e Marcello Caminha:

“Prezado Marcelino: Ai estão canções do nativismo gaúcho, com expressivo conteúdo literário, melodias adequadas, arranjos ao mesmo tempo econômicos e magistrais e um encarte de primeira linha. Tenha boas audições, Grande abraço.”

Veículos de comunicação gaúchos o receberam com gratos elogios, como a versão eletrônica do Jornal do Comércio, que embora dedicado à economia e aos negócios no Rio Grande do Sul, destacou em sua versão eletrônica que Além das cercas de pedra é “dedicado ao povo humilde trabalhador do campo”, conforme observou a autora da matéria, Caroline da Silva.

A articulista ainda lembrou que antes da nova obra Vasconcellos, César e Caminha já haviam encantado amigos e seguidores com Doze cantos ibéricos & Uma canção brasileira (2017).  E no Theatro São Pedro também subiram ao palco os músicos da atual formação de Os Posteiros, o que possibilitou à plateia a oportunidade de ouvir novamente Marco Aurélio cantar melodias que marcaram a história da música nativista — algumas clássicas em parceria com o escritor Luiz Coronel e que brilharam em diferentes edições do festival Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, como Gaudêncio Sete LuasAscensão e Queda de um Ginete, Cordas de Espinho e Guitarreio para um Guitarrista.

Marco Aurélio, durante a conversa com Boldrin e em entrevista que gentilmente concedeu ao Barulho d’água Música contou que seu jubileu de ouro remonta ao começo da década dos anos 1970. Antes, entretanto, ainda jovem, quando estava na casa dos 17 anos, frequentava uma república de estudantes na qual havia uma sacada e donde gostava de cantar canções mexicanas. Em uma destas ocasiões, da rua o acompanhou o radialista Sady Nunes, que por ali transitava e, ao final da canção, convidou-o para um teste na Rádio Difusora.

“Fui louco de medo, desandei em todos os sentidos e não passei no teste”, recordou-se o então candidato. “Só vim a deslanchar quando me integrei ao nativismo, em 1972, na edição daquele ano do festival Califórnia da Canção Nativa³. Estreei com uma canção letrada pelo Coronel e tirei o segundo lugar.”

Sucessivamente, a cada nova edição do Califórnia e demais festivais (“no Rio Grande tem mais festivais que finais de semana”, brinca), alternando sempre as primeiras colocações, Vasconcellos foi abrindo e trilhando sua estrada nativista — não sem antes, inclusive, flertar até com a Bossa Nova. Hoje, além de expoente deste gênero cujos temas interpreta sempre com muita entrega e emoção, em letras ricas do típico linguajar gaúcho e pilchado com lenço colorado, tornou-se célebre, também, por incluir em suas apresentações e gravações músicas com pegada MPB e canções castelhanas, inserindo-se assim na cultura geral brasileira ao mesmo tempo em que faz valer as influências da cultura fronteiriça que se mistura à gaúcha, vindas da Argentina e do Uruguai. “O meu repertório sempre tem músicas destes dois países, e não apenas as consideradas campeiras, pois elas têm identificação muito grande conosco e não só pela lida no campo, mas também pela indumentária, entre outros costumes”.

Marco Aurélio, ao centro, entre Fábio Costa, Marcello Caminha (de boina vermelha), Martim César e o Senhor Brasil Rolando Boldrin (Foto: Daniel Kersys)

(Como integrante d’Os Posteiros , grupo que ajudou a fundar em 1977, acompanhou até 1986 e com o qual depois do reencontro no São Pedro voltou a subir ao palcos e já excursiona pelo Interior gaúcho, algumas músicas que ele interpretou — como Gaudêncio Sete Luas e Cordas de Espinho — conseguiram romper a barreira geográfica e cultural dos pampas e, chegando por exemplo ao Norte, foram gravadas pela novata Fafá de Belém em Tamba-Tajá, de 1976, e Água, de 1977; Tamba-Tajá contém, ainda, Haragana, de Quico Castro Neves, gravada pelos Almôndegas¹ . Apesar desta projeção, Marco Aurélio ainda considera ser difícil a música nativista ultrapassar aquelas fronteiras, chegando com alguma força e expressão, por exemplo, ao Mato Grosso do Sul, ao Paraná, ao São Paulo e ao Rio de Janeiro, embora, lamenta-se, “ao Nordeste não vá de jeito nenhum”. O quarteto Os Posteiros reunia em sua formação original Marco Aurélio, Doly Carlos da Costa, Celso Campos e Guilherme Loureiro de Souza. Francisco “Chico” Koller entrou posteriormente, com a saída de Gulherme.)

Além das cercas de pedra é o quinto disco que une Vasconcellos e César (natural de Jaguarão), e o quarto que conta com os arranjos e o terceiro com a  produção do violonista Caminha, filho de Bagé. Suas 14 faixas reúnem retratos das pessoas do campo e não das estâncias em si, revelando histórias — algumas inspiradas em fatos reais –, paisagens, homens e mulheres que ali viveram e que ainda parecem estar vivos, olhando para o tempo atual desde os retratos amarelados de velhos álbuns, desde os quadros dependurados nas paredes da infância. As poesias falam do avô carreteiro de Martim, da avó fiandeira, do peão de estância, do caseiro, do posteiro² de algum campo de fundo, dos tropeiros, do capataz, de um bolicheiro (dono de bolicho, bar à beira de estrada).

O disco, logo, apresenta em músicas a herança e os costumes sendo preservados para mostrar aos que virão as origens gaúchas. “A intenção é não deixar que se apaguem das mentes do mundo atual os rastros de identidade que deixaram em nosso sangue e em nosso olhar aqueles que nos antecederam, passando de geração para geração, até chegar a quem somos hoje, os que recebem a responsabilidade de não deixar que se perca o legado de seus valores e de seus saberes”, declarou Martim César.

Martim César, ao falar sobre Além das cercas de pedra, frisou que como boa parte da sua infância e adolescência viveu na Campanha, a ideia era retratar a figura do “gaúcho a pé” em suas composições. Para tanto, selecionou trechos de grandes autores gaúchos sobre o tema (como Cyro Martins, Alcides Maya, João Simões Lopes Neto, Érico Veríssimo, Darcy Azambuja) para completar o encarte do álbum. A fotografia, que ilustra a parte externa do disco, foi produzida em uma fazenda na fronteira entre os municípios gaúchos de Herval do Sul e Jaguarão. “É a Estância São Pedro – mesmo nome do teatro – que tem as ruínas mais bem preservadas de toda a região. Como no CD anterior, Doze cantos ibéricos & Uma canção brasileira, fomos a Portugal e Espanha para termos as imagens para o álbum; aqui houve todo um trabalho na zona rural do Norte do Uruguai e Sul do Estado. Fomos a lugares bem interessantes, como próximo a Melo, no país vizinho, e essas imagens estão no interior do encarte”, detalhou o compositor, que esclarece: essas estâncias, todas no entorno de onde cresceu, serviram de inspiração para escrever.

“Martim César, como letrista, é um fenômeno”, definiu Vasconcellos, recordando que o conheceu em um encontro em Pelotas (RS), há 15 anos, onde recebeu dele três álbuns que os ouviu viajando até Porto Alegre. “Fiquei encantado com o trabalho dele com Paulo Timm e Alesandro Gonçalves, seu irmão. No caso específico do Martim, é difícil encontrar um letrista com tanta categoria, porque as letras dele têm início, meio e fim, conteúdo e, na maior parte das vezes, há mensagem também. Aí eu fiquei louco, comecei a musicar e já temos perto de 100 canções juntos.”

Autor de seis livros de poesia e contos, Martim César deverá lançar em breve Náufragos urbanos-Relógios de areia, com financiamento do fundo cultural de Pelotas. Recentemente, publicou a coletânea de contos Sangradouro. O primeiro volume da trilogia, em poema épico, Cimarrones-Três séculos gaúchos, já está finalizado e também deverá chegar ao público no primeiro semestre do ano que vem. Em Além da cerca de pedra, Cesar recita os versos da faixa 7, Canto de adeus aos velhos gaúchos, que também declamou no Sr. Brasil, ao lado de O Compromisso do Cantor. “Na gravação do CD, contamos com a grande participação do maravilhoso Glênio Fagundes neste tema que recupera um tipo de gaúcho que não existe mais, porque por aqui agora só há plantações de soja”, completou o jaguarense.

Marcello Caminha, o arranjador, que Vasconcellos cultua como “um dos monstros sagrados do nativismo” e do qual “não me separo”, é músico e professor e participa do Movimento Nativista desde 1985. De lá para cá já obteve prêmios como instrumentista e compositor em vários festivais de música; em 1998 gravou o primeiro disco, Estrada do Sonho. A partir deste, já conta com o total de 14 gravados, entre eles Sucessos de Ouro, primeira coletânea de músicas de violão lançada no Rio Grande do Sul, e Influência, vencedor do Prêmio Açorianos de Música 2008, em três categorias.

Caminha já tocou em quase todo o país e em casas da Argentina, Uruguai, Portugal, Alemanha e Inglaterra. Em sua obra constam, ainda, o DVD Vídeo Aula Violão Gaúcho, primeiro curso de violão em DVD lançado no Rio Grande do Sul, o livro 14 Estudos para Violão Gaúcho e o DVD Influência ao vivo, primeiro DVD de violão da Música Nativista. Em 2016, lançou Com violão também se Dança, vencedor do Prêmio Açorianos de Música. Atualmente, dedica-se a shows e workshops e dirige a Academia do Violão Gaúcho, empresa especializada em cursos de violão online..


¹Almôndegas foi uma das bandas pioneiras em criar uma linguagem particular para a música popular gaúcha. Oriundos da cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, os membros misturavam velhas canções do folclore gaúcho, mpb e rock. Eles eram os irmãos Kleiton e Kledir, Quico Castro Neves Gilnei Silveira, Pery Souza, João Baptista e Zé Flávio

² Posteiro: substantivo masculino que significa empregado que reside junto ao limite de uma fazenda e é responsável pelas cercas, cuidando para que não haja invasão dos campos por gado alheio.

³O festival Califórnia da Canção Nativa é um evento artístico musical que ocorre no Rio Grande do Sul desde 1971, considerado patrimônio cultural do Estado e modelo de divulgação da música regional gaúcha. Durante o ano são promovidas provas eliminatórias em diversas cidades gaúchas, e por fim, após a triagem de mais de 500 músicas, as finais movimentam a cidade de Uruguaiana, na fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, onde, conforme o grau de vitórias, é concebido o prêmio máximo: a Calhandra de Ouro. Em plenos anos de chumbo, passou a reunir as mais diversas variações musicais nativas do Rio Grande do Sul, organizada pelo Centro de Tradições Gaúchas Sinuelo do Pago e Prefeitura, ambos de Uruguaiana. A primeira edição não teve tanta repercussão, porém as seguintes tiveram até mais de 60 mil pessoas e atualmente é o maior evento cultural regional do Brasil.

Conforme Cícero Galeno Lopes, em artigo publicado no livro RS índio: cartografia sobre a produção do conhecimentoLeopoldo Rassier conseguiu pela censura prévia e cantar a música Tema de marcação, (poema de Luiz Coronel musicado por Marco Aurélio Vasconcellos), no festival de 1975, por meio de uma ambiguidade entre dois personagens históricos: o lunar de Sepé Tiaraju e a estrela de Che Guevara, já que ambos lutaram por liberdade, tinham “uma estrela na testa” e foram “pra baixo desse chão”

Também participam de Além das cercas de pedra, gravado com supervisão técnica de Erlon Péricles no estúdio Guaiaca Records de março de 2016 a agosto de 2017 Clarissa Ferreira (violino), Marcello Caminha Filho (contrabaixo, percussão, piano), Glènio Faundes (recitado na faixa 7). As fotografias do riquíssimo encarte são de Elis Vasconcelos; a foto da capa mostra a Estância São Pedro (divisa Jaguarão-Herval do Sul), em projeto gráfico e direção de arte de Valder Valeirão (nativu design)  

Leia mais sobre a música do Rio Grande do Sul ou conteúdos relacionados a ela e seus expoentes aqui no Barulho d’água Música visitando o linque abaixo:

https://barulhodeagua.com/tag/rio-grande-do-sul/

1261 – Baiano por afeição, Walter Lajes é mais uma joia da ditosa galeria dos cantores e compositores da Boa Terra

Paranaense de berço, depois de passar pela cidade do Rio de Janeiro e também morar em Pernambuco, músico  que já lançou oito álbuns fixou-se em Vitória da Conquista, município onde um dos vereadores acaba de homenageá-lo por mais uma exitosa participação em festival, na cidade paulista de Barueri

A Bahia é generosa com o país e a cultura popular quando o assunto é a contribuição para a boa música e o enriquecimento do nosso cancioneiro. Partindo de Dorival Caymmi e toda a sua família, passando por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Pepeu Gomes — para ficar apenas em algumas consagradas joias do estilo popular –, passamos por Elomar, Xangai, Roque Ferreira, Gereba e seu parceiro Capinam — mais dedicados ao que o mercado gosta de classificar como “regional” — entre tantos outros exemplos, chega-se sem surpresas à conclusão que o estado de Castro Alves nada deixa a dever aos que consideram como referencial apenas o Sudeste maravilha — premissa que, por sinal, vale ainda para outros da região Nordeste, sem exceção de nenhuma de suas unidades federativas.

E colocando mais dendê na conversa, ainda que paranaense de nascimento “por um acidente de percurso”, conforme ele mesmo declarou ao Barulho d’água Música, o compositor, poeta, cordelista e como o próprio também se define, cantador Walter Lajes, joga fácil nesta seleção de baianos e tem feito por merecer que holofotes e emissoras, produtores e agentes de espetáculos e programas, bem como a indústria fonográfica, sejam mais generosos e o escalem sem medo de caneladas e de tomar gols contra.

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1260 – Em casa dedicada à cultura caipira, Francis Rosa (SP) encerra roda de violeiros em São José dos Campos (SP)*

Imagem do álbum Caminhada (2007) (Foto: Leonil Júnior)

Apresentação será em primeiro espaço do Brasil dedicado à divulgação da cultura caipira e músico que compartilha nas canções a paixão pela Serra da Mantiqueira lançará Entre Serras e Águas, seu nono álbum

*Com Jefferson Bellodi

O cantor e compositor Francis Rosa será uma das atrações neste sábado, 23 de novembro, da roda de viola que será promovida com entrada gratuita na Casa de Cultura Caipira Zé Mira, situada em São José dos Campos, cidade paulista da porção conhecida por Vale do Paraíba a, aproximadamente, 95 quilômetros da Capital (veja mais detalhes na guia Serviços). Acompanhado por sua banda, Rosa deverá assumir o palco por volta das 22 horas e, a partir de então, apresentará à plateia e aos amigos músicas de sua carreira que já conta com nove álbuns – o mais recente, Entre Serras e Águas, lançado em 21 de maio, dia do aniversário do violeiro, e que ele vem mostrando em sua turnê homônima. O repertório na Casa Caipira Zé Mira, além das faixas deste novo trabalho, deverá reunir outras músicas de sua autoria e de artistas consagrados da música brasileira como Almir Sater, Tonico e Tinoco e Zé Geraldo, entre outros.

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1255 – John Mueller, de Blumenau (SC), afirma-se no cenário nacional com Na Linha Torta*

Após receber mais um prêmio em São Paulo, cantor e compositor indicado o melhor do Estado natal em 2018 e com disco entre os melhores da MPB, com participações de Cristóvão Bastos em dois trabalhos já lançados, anuncia que já iniciou os trabalhos para o terceiro álbum da carreira solo.

* Com Nane Pereira

Na Linha Torta, segundo álbum do catarinense de Blumenau John Mueller, abriu as audições matinais que promovemos todos os sábados aqui no boteco do Barulho d’água Música, neste dia 2 de novembro. O disco nos foi gentilmente cedido pelo próprio cantor e compositor no Centro Cultural da Galeria Olido, em São Paulo, pouco tempo depois da cerimônia na qual ele acabara de ser um dos quinze agraciados de várias partes do Brasil com um dos troféus do 6º Prêmio Grão de Música. As doze faixas de Na Linha Torta também já haviam rendido o troféu de Melhor Cantor do Prêmio da Música Catarinense 2018 e com ele Mueller concorre à estatueta A Parada da Música, troféu que será entregue neste final de semana em Brasília (DF) aos finalistas de 67 categorias do 5º Prêmio Profissionais da Música (PPM). Mueller poderá, portanto, deixar a capital federal com mais esta consagração, o reconhecimento como melhor da categoria Autor, a mesma para o qual foi um dos finalistas na edição do PPM/2018, quando também esteve no páreo da categoria Cantor.

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1236 – Mônica Salmaso apresenta “Caipira”, álbum de 2017, em duas sessões no MASP (SP)

No palco a cantora estará acompanhada pelos músicos Neymar Dias (viola caipira), Lulinha Alencar (acordeon), Teco Cardoso (flautas), Luca Raele (clarinete) e Ari Colares (percussão)

Em mais duas apresentações da turnê Caipira, seu mais recente álbum, a  cantora Mônica Salmaso cantará na cidade de São Paulo, nos dias 28 e 29 de setembro, às 21 horas e às 19 horas, respectivamente. O palco de ambas as cantorias será o mesmo: o auditório do Museu de Artes de São Paulo (MASP), onde ela passará pelo belo repertório que contempla a mágica sonoridade da raiz caipira brasileira e que tem origem numa pesquisa realizada pelo violeiro Paulo Freire, por encomenda da própria Mônica, há mais de 10 anos.

A história de Caipira, produzido por Teco Cardoso com arranjos conjuntos da cantora com Neymar Dias (viola caipira e baixo acústico), Nailor Proveta (clarinete e sax tenor) e Toninho Ferragutti, vai além da pesquisa e registra um momento ímpar na carreira de Mônica Salmaso. Ela mergulhou nessa estética musical e canta não necessariamente músicas antigas e releituras, mas um trabalho guiado pela interpretação singular e precisa — um trabalho caipira com originalidade e assinatura. “Esse é o ‘meu disco caipira’, com todo o respeito que eu tenho pelo Brasil mais profundo e pelas nossas qualidades criativas que beiram o infinito”, disse Mônica. “Neste momento é mais urgente do que nunca respeitarmos o que somos e cuidarmos da gente”, emendou sobre  o álbum lançado em 2017, com show no Sesc Vila Mariana.

No palco do MASP estará acompanhada por Neymar Dias, Lulinha Alencar (acordeon), Teco Cardoso (flautas), Luca Raele (clarinete) e Ari Colares (percussão). Silvestre Júnior assinará a iluminação, Carlos Rocha será o responsável pela engenharia de som e Carla Assis pela produção executiva.

Caipira já passou por capitais como Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ) e Porto Alegre (RS). Antes do retorno a São Paulo, a turnê girou por Recife (PE),Salvador (BA)e Belém (PA), viabilizada pela Lei de Incentivo a Cultura, com patrocínio de um grande banco privado.

 

Mônica Salmaso iniciou a carreira na peça O Concílio do Amor, em 1989. Em 1995, gravou o disco Afro-Sambas, um duo de voz e violão com o instrumentista Paulo Bellinati, incluindo todos os afro-sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes. Em 1997, foi indicada ao Prêmio Sharp como revelação na categoria MPB. Lançou Trampolim, em 1998, e Voadeira, um ano depois, com o qual ganhou o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

O quarto álbum de Mônica, Iaiá, nasceu em 2004, seguido por Noites de Gala, Samba na Rua, de 2007, com músicas de Chico Buarque. Nesse ínterim, foi convidada como solista de várias orquestras, como a Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), OSB, Jazz Sinfônica de São Paulo e Orquestra Jovem Tom Jobim, entre outras, tendo inclusive participado de um disco da Osesp, com regência de John Neschling, em 2006.

Alma Lírica Brasileira, com Teco Cardoso e Nelson Ayres, lançado  em 2011, recebeu o 23º Prêmio da Música Brasileira, na categoria Melhor Cantora. Corpo de Baile  (2014), com músicas de Guinga e Paulo César Pinheiro, recebeu quatro indicações ao Prêmio da Música Brasileira, das quais venceu duas – Melhor Cantora de MPB e Melhor Canção. Em 2017, lançou Caipira, que tem recebido elogios da crítica especializada, sendo premiado como Melhor Álbum e Melhor Cantora na Categoria Regional pelo 29º Prêmio da Música Brasileira. Em dezembro de 2018, saiu o DVD Corpo de Baile, pelo Selo SESC, com direção de Walter Carvalho e produção musical de Teco Cardoso.

Os projetos recentes da cantora Mônica Salmaso inclui uma turnê pelo Japão com Guinga e a turnê nacional de Caipira.

As canções gravadas em Caipira: A Velha (D.P., adaptada por Nivaldo Maciel), Alvoradinha (D.P.), Feriado na Roça (Cartola), Açude Verde (Sérgio Santos e Paulo C. Pinheiro), Minha Vida (Carreirinho e Vieira), Água da Minha Sede (Roque Ferreira e Dudu Nobre), Baile Perfumado (Roque Ferreira), Bom Dia (Nana Caymmi e Gilberto Gil), Caipira (Breno Ruiz e Paulo C. Pinheiro), Leilão (Heckel Tavares e Joracy Camargo), Primeira Estrela de Prata (Rafael e Rita Altério), Saracura Três Potes (Cândido Canela e Téo Azevedo) e Sonora Garoa (Passoca).

O violeiro Paulo Freire (Foto: Marcelino Lima/Acervo Barulho d’água Música)

Cada enxadada uma minhoca

Paulo Freire, violeiro 

Caipira, quem é caipira? Muitos se perguntam se o caipira mudou, ou mesmo sumiu, dando lugar a uma nova gente que vive nos interiores. Na verdade, o caipira está cada vez mais presente, sem que muitos se deem conta. 

Vai ouvindo…

Com o movimento de migração para os grandes centros, desde o século passado, o povo da roça veio ocupar as cidades. Buscar oportunidade de trabalho e estudo, deixando a terra de lado. Mas até onde isso é bom? Para que morar tudo socado, um em cima do outro? Que vantagem pode trazer o trabalho na cidade grande, que dá um dinheiro insuficiente para tentar consumir o que muitas vezes nem se precisa? E tem mais… muito mais! 

siora e o siô podem reparar o tanto de gente que hoje em dia sonha em ter sua casinha no campo para passar os finais de semana, ou morar quando a idade apertar. É que existe um “movimento da volta”: a necessidade de largar o pé no riacho, de perceber a real dimensão do tempo, além da importância do sol e da chuva, de conhecer a terra, o nosso chão. Sabe quando a gente acha que está sem chão, que não dá pé? É isso que estamos sentindo falta. E ainda tem mais, tem mais! 

Os valores do caipira. Ali, onde a palavra empenhada tem mais valor que um contrato assinado com firma reconhecida no cartório da cidade. Onde se faz um mutirão para socorrer um vizinho necessitado. Onde todos se cumprimentam, enquanto na cidade nem o vizinho de apartamento a gente conhece é na roça que as pessoas se juntam para um catita, para o giro da folia de reis, sem esperar recompensa de dinheiro para isso, mas o agradecimento da graça alcançada. De Deus, dos santos, ou da própria natureza, Falar nisso, tem tanta gente que se diz defensor da natureza sem nunca ter apanhado um torra de terra roxa sequer…

Na verdade, estamos sentindo uma falta tremenda de tudo o que significa o caipira. Vou dar um exemplo simples aqui: Inezita Barroso nos deixou no dia 8 de março de 015. Desde o final de 2014, ela não gravava mais o Viola, minha viola. Este programa está no ar desde 1980! É o mais longevo da TV brasileira. Como se isso já não fosse suficiente, repare, o falecimento de nossa rainha já completou quatro anos e o Viola continua no ar com suas reprises! Justamente o programa que trata desse mundo caipira. Inezita é nossa bandeira. Comoo explicar que a viola continue no ar?¹ Tem aí um segredo que vive dentro de urna frase do incrível violeiro Renato Andrade, Ele viveu a época de maior preconceito com a viola e o caipira. E dizia assim: “Viola é que nem mortadela: todo mundo gosta, mas tem vergonha de comer na frente dos outros”. 

Pois bem, essa vergonha virou necessidade, urgência do ser humano abraçar tudo o que significa ser caipira. Matar essa saudade, conhecer nossa terra, viver mais de acordo com a natureza, os valores e inté o sabor que verve numa lata de banha de porco para cozinhar o feijão, no tempo esticado de um fogão de lenha.

E é justamente nessa roça que a querida Mônica Salmaso buscou o seu Caipira. Tanto nas composições de quem é nascido e criado ali, onde canta o sabiá, inté do povo da cidade que tem a sensibilidade de buscar no campo a qualidade de sua poesia. Não se trata de imitar o caipira, de querer ser corno ele, mas de aproveitar o que temos de mais sincero e trabalhar os cantos e desejos de nossa terra. No Caipira não tem desperdício, cada enxadada é uma minhoca Das graúdas! E a Mônica se atira nesse mundo, com toda sua categoria e seriedade. Trabalho. Escutar o disco é sentir o cheiro do jatobá. Vai ouvindo… A siora sabia que “jatobá’ em tupi significa ‘fruto da casca dura”? Pois é ansim que nóis semo: continuamos ali, firmes, espalhados pelo nosso chão, O jatobá é sagrado. Uma das madeiras mais valiosas do mundo — como o Caipira que a Mônica nos apresenta. É aproveitado e admirado, de cheiro adocicado e de casca dura. Hummm, é caipira e jatobá Sim, somos caipiras! E como diz o grande Zé Mulato: “Semo porque semo. E também porque podemo”.

FICHA TÉCNICA 

Mônica Salmaso: voz/Neymar Dias viola caipira/Lulinha Alencar: acordeon e piano/Teco Cardoso: sax e flautas/Luca Raele: clarinete/Ari Colares: percussão/Carlos Rocha-Som Vivo: Som/Silvestre Garcia Júnior: iluminação/Ruth Freihof-Passaredo Design: design/Paulo Rapoport: fotos/Carla Assis: Coordenação de produção 

¹Pouco tempo depois deste texto ser produzido por Paulo Freire e publicado no flyer da turnê nacional de Caipira, a TV Cultura decidiu no começo de agosto acabar com o Viola, Minha Viola, que estava há 39 anos no ar e nos dois mais recentes anos vinha tendo como apresentadora a cantora e violeira Adriana Farias, O Viola Minha Viola não terá novos episódios e como os derradeiros inéditos já foram gravados em 2018, a emissora optou por apenas reprisar os arquivos por tempo indeterminado, mantendo o programa no ar desde 11 de agosto às 7 horas, antes da Missa de Aparecida, com Adriana Farias ainda no comando, mas já fora do elenco da TV, que não renovou o contrato dela.

O Viola, Minha Viola estreou em 25 de maio de 1980, com Moraes Sarmento (1922-1998) e Nonô Basílio (1922-1997). No mesmo ano recebeu Inezita Barroso no palco. Ela cantou A Moda da Mula Preta, contou sua história e agradou ao público. De convidada, passou para o posto de apresentadora até a morte em 2015, apresentando mais de 1.500 edições.

Serviço

Show: Mônica Salmaso em Caipira

Datas:27 e 28 de setembro. Sexta e sábado, às 20h
Ingressos: R$ 60 (inteira), R$ 50,00 (Vale Cultura) e R$ 30,00 (meia)
Bilheteria: Terça a domingo – 10h às 17h30 ou até o início do espetáculo
Ingressos online:  https://masp.org.br/
Meia-entrada: estudantes, idosos, professores e pessoas com deficiência + acompanhantes (apresentar o comprovante de meia-entrada na compra e na porta do espetáculo).
Classificação: Livre. Duração: 1h30.
MASP Auditório
Avenida Paulista, 1578,- Bela Vista, São Paulo
Tel: (11) 3149-5959

 

1184 – Feliz aniversário, Madrinha Beth Carvalho!

Eu só peço a deus que o futuro não me seja indiferente
Bm            G          D7
Sem ter que fugir desenganado
       C         Bm      Em
Pra viver uma cultura diferente

Nossa homenagem à cantora e mulher que com sua graça e coragem tanto nos encantou e defendeu o samba, a cultura e os manos dos morros, do asfalto, e das quebradas onde só a polícia, literalmente, pisa, o gênero, o país — sempre à frente do seu tempo e jamais em dessintonia com o povão — e que ousou não deixar a alegria perecer nem mesmo quando estava já debilitada. Beth Carvalho não foi uma estrela solitária nesta constelação de tantos outros heróis, populares e anônimos que empunharam o manto das tradições brasileiras e a levantou além dos terreiros, das batucadas e das ribaltas, mas com certeza está e sempre estará entre as mais gloriosas! Viva Beth Carvalho e que entre nós ninguém solte a mão de ninguém, pois segue sendo nossa missão não deixar nem o samba, nem a crença em dias melhores morrerem! 

Beth Carvalho: presente!

Leia mais sobre Beth Carvalho clicando nos linques abaixo:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Beth_Carvalho

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/celebridades/antes-de-morrer-beth-carvalho-queria-homenagear-arlindo-cruz-no-fantastico-26523

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/05/05/musicos-de-beth-carvalho-relembram-ultimo-show-e-a-homenageiam-em-73-aniversario.htm?utm_source=chrome&utm_medium=webalert&utm_campaign=musica

https://g1.globo.com/tudo-sobre/beth-carvalho/

Beth Carvalho, ao lado de Cartola> cantora soube como valorizar e respeitar as raízes e para sempre ficará cravada entre as mais gloriosas estrelas de nossa impar constelação musical (Foto: Arquivo Rede Globo)

1141 – Antonio Guerra e Silvério Pontes formam duo piano/trompete e lançam “Coração Brasileiro”

Álbum gravado pela Kuarup inaugura um novo caminho na trajetória do trompetista fluminense que se consagrou ao lado do trombonista Zé da Velha

A gravadora Kuarup, à qual agradecemos na pessoa de Rodolfo Zanke, enriqueceu o acervo do Barulho d’água Música com um exemplar do álbum Coração Brasileiro, recentemente gravado por Silvério Pontes, trompetista, e Antonio Guerra (Rio de Janeiro/RJ) ao piano; considero o disco como um presente do meu aniversário de 55 anos, neste dia 26/12, e estou curtindo de monte! Silvério Pontes  (Laje do Muriaé/RJ) já emplacou pelo menos 30 anos tocando ao lado do trombonista sergipano de Aracaju Zé da Velha e com este novo trabalho inaugura outra história musical, concretizando um sonho antigo de formar um duo neste formato, que proporcionou uma mistura harmoniosa de sensibilidade, com humor e alegria contagiantes que resumem uma brasilidade refinada!

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1129 – Trompetista Guilherme Dias Gomes lança sétimo disco, Trips, com homenagem a Janete Clair

Músico atuou em discos e em shows de Ivan Lins, Fagner, Leila Pinheiro e Kid Abelha, e produziu trilhas sonoras para novelas e séries da TV Globo, som que une música brasileira e jazz

Para manter a  tradição de todo sábado começar o dia ouvindo um álbum novo aqui na redação do Barulho d’água Música ,  botamos para tocar na vitrolinha Trips, novidade da discografia do trompetista carioca Guilherme Dias Gomes, que recebemos enviado pelo colega Beto Previero, da Tambores Comunicações, ao qual somos gratos.  Para quem está achando o nome do músico familiar, sim: Guilherme é filho de Dias Gomes (1922-1999) e de Janete Clair (1925-1983), que formaram o casal de autores de novela mais bem sucedido da dramaturgia brasileira.  E foram os próprios pais que incentivaram Guilherme à música, como ele contou, observando que Dias Gomes adorava música erudita. O escritor e Janete  tinham vários amigos músicos, como os maestros Claudio Santoro, Alceu Bochinno e Guerra Peixe, por exemplo, e incentivaram o filho a estudar música ainda criança. No princípio eu não gostava muito, mas hoje eu agradeço”, afirmou Guilherme. “O trompete veio aos 12 anos, quando quis entrar na banda do colégio e só tinha vaga para esse instrumento”

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1118 – Leia entrevista com Ceumar (MG), a primeira do Clube Cantautores, organizador do festival Mostra Cantautores

 
Amigos e seguidores:
Esta atualização do Barulho d’água Música traz uma entrevista com a cantora e compositora mineira Ceumar produzida e editada por Eduardo Lemos, da Navegar Comunicação, empresa que atua na organização e  na divulgação do festival Mostra Cantautores,  e que inaugura a série Conversas com cantautores, com artistas que já se apresentaram na Mostra Cantautores, acerca dos mistérios e belezas que cercam a produção daquele que compõe, toca e canta. Ceumar foi uma das atrações da quinta edição, em 2016.

 

Para saber mais sobre a Mostra Cantautores, fica a dica: faça uma assinatura, gratuita  Clube Cantautores e tenha acesso às entrevistas com compositores, promoção de ingressos para o festival, dicas de discos, playlists criadas pelos próprios artistas e muito mais. Para assinar com o seu e-mail basta visitar bit.ly/clubecantautores

 

Mostra Cantautores: Cantar, tocar um instrumento e compor: o cantautor é essa figura que reúne em si os três elementos essenciais da música popular. Me parece uma condição de grande liberdade: ser capaz de, em algum momento, depender apenas de si para fazer a música estar no mundo. Como é pra você essa condição de cantautor?

CeumarAcho que você falou uma palavra fundamental: liberdade. No meu caso, tem a ver com liberdade, amadurecimento e encontro comigo mesma. Eu demorei um pouco para me descobrir como compositora. Havia uma insegurança de me expor na canção. “Como eu posso funcionar como autora das minhas canções? Como isso vai refletir nas pessoas? Será que elas vão gostar?” Foi no meu segundo disco, Sempre Viva [2003], que eu gravei músicas minhas pela primeira vez [Avesso, parceria com Alice Ruiz, e  Boca da Noite, parceria com Chico César e Tata Fernandes]. Ali eu comecei a perceber que eu tinha também esse caminho de expressão.

Ceumar, entre Lui Coimbra (esq.) e Paulo Freire, com os quais gravou Viola Perfumosa, um tributo a Inezita Barroso (Foto: Leo Aversa)

Hoje em dia, faço letras com muito mais liberdade. É bem comum sentar para compor. Mas foi um processo. Eu não comecei compondo, eu não comecei cantautora. Eu comecei intérprete, e só depois de um tempo — de um amadurecimento, talvez — eu tenha encontrado esse viés de liberdade total, que é onde eu estou mais inteira na minha música. Quando a gente toca as canções próprias, eu sinto que as pessoas se entregam e vem mais com a gente. Elas compactuam de outra maneira. E tudo reverbera de uma forma maior.

Você tem se apresentado em diferentes formatos, e um deles é este em que fica sozinha no palco. De que maneira essa experiência de se apresentar solitariamente te afeta como artista? Há coisas que só se vê quando sozinho?

Desde que eu descobri a potência de estar só com o meu violão e as minhas canções, eu descobri um lugar onde eu sou mais humana. Porque ali eu tô inteira e não posso me esconder. Quando eu descobri esse sabor, isso me pegou muito. Eu nunca entendi a música e a expressão artística como algo acabado, finalizado, perfeito — embora eu admire e aprenda muito com os artistas virtuoses, que tem essa busca pela perfeição. No meu caso, é muito mais revelar as imperfeições humanas e aceitar os erros. Eles acontecem, né? Você está sozinha e pode errar um acorde ou uma letra. E isso fica muito transparente. Aí, eu descobri nisso um prazer e uma delícia tão grandes em poder revelar — para além da música e da perfeição artística — que está ali um ser humano totalmente entregue para aquela situação e para aquele momento. As músicas que eu componho são simples. Eu tenho esse desejo de encontrar formas simples, para que elas cheguem fácil nas pessoas comuns, que não estudam ou vivem a música. 

Acho, portanto, que o cantautor humaniza o espetáculo. Porque cada show é um. Cada momento é único. É diferente do show que se ensaia com a banda, que tem um roteiro programado. Quando estou sozinha, eu faço shows sem roteiro! Imagina? Há uns anos atrás eu tinha essa insegurança… hoje em dia, não! Eu começo meu show e vou. Fluindo e vendo o fluxo do momento. Tem horas que me vêm canções que eu me pergunto: “nossa, porque eu estou cantando isso?” Mas eu canto. Se ela chegou ali, é porque está me pedindo para ser expressada.

Em 2017, você se apresentou na Mostra Cantautores. Há alguma memória especial daquele show e de sua passagem por Belo Horizonte? É importante que exista um festival dedicado à figura do cantautor?

Puxa, para mim, especialmente naquele momento, foi muito importante. Eu estava voltando para o Brasil depois de cinco anos morando na Holanda. E justamente a minha grande inquietação ao morar fora foi a questão da palavra, da língua. Então, teve uma dimensão muito grande, primeiro, ter sido convidada como cantautora, porque a minha obra de compositora é pequena. Não faço música aos quatro ventos. Eu demoro, tenho um ritmo muito próprio. Então, ter sido convidada já foi incrível. E poder cantar na minha língua e contar aquelas histórias — em letras minhas ou de parceiros -, para um público super aberto, curioso e envolvido, foi demais, foi lindo, foi muito especial. E, estando em Belo Horizonte, eu conheci uma cena incrível de músicos mineiros, vi shows maravilhosos.

Lembro da minha surpresa quando assisti ao espetáculo do Juan Quintero. Nós tocamos na mesma noite. Eu não o conhecia e fiquei em êxtase com a potência dele. E ele é argentino, está tão próximo de nós… Por isso eu acho fundamental que existam esses espaços e esses encontros. É tão importante que haja troca! É tão importante que a gente veja os outros e se veja também no contexto de autores e de canções. Por mim, eu estaria na mostra todo ano! (risos). Desejo vida longa!

Foto: Pablo Bernardo

De todos os cantautores que possam ter influenciado sua trajetória, qual te causou efeito mais fulminante com seu modo de cantar, tocar e compor?

Eu me lembro do impacto de quando eu vi o Itamar Assumpção pela primeira vez. Eu estava chegando em São Paulo, vinda de Minas, meio tímida, e fui ver um show dele sozinho em voz e violão. E ali virou uma chave pra mim. Eu vi um homem completamente livre na sua loucura — a loucura mais sã que eu pude ver ao vivo. E o violão dele me soou muito simples, com umas levadas de baixo. Eu me reconheci naquilo. Pensei: “eu não preciso fazer acordes mirabolantes. Eu posso simplificar meu jeito de tocar para que a palavra seja a mais crua possível”. Ele se tornou uma grande escola, e é até hoje. Quando eu preciso beber na fonte da canção pura, escuto Itamar Assumpção.

E, da música contemporânea, há quem chame sua atenção nesses quesitos?

Eu poderia citar vários nomes. O Luiz Gabriel Lopes, que tem toda aquela beleza mineira misturada com o mundo inteiro. Ou o Flávio Tris, que se tornou meu amigo e parceiro, e que foi um grande encontro que eu tive em São Paulo. Mas eu queria também lembrar de alguns nomes que talvez não sejam tão conhecidos no Sudeste, como o de um menino que conheci em Recife, num sarau, que se chama PC Silva. Ele é de Serra Talhada, interior de Pernambuco. Fiquei impressionada com a dinâmica de violão e com as letras dele. E, puxando a sardinha pro meu lado, eu acabei de fazer a direção artística do disco da Manu Saggioro, uma cantautora incrível de Bauru. E também tem a Camila Costa, carioca, que conheci quando morava na Europa — eu em Amsterdã, ela em Paris. Ela tem músicas incríveis. Eu teria muita gente pra citar aqui, mas acredito que esses três nomes precisam ser mais escutados.

Casa musical

Ceumar é natural de Itanhandu, localidade encravada exatamente no Sul mineiro, viveu em São Paulo por 14 anos em Amsterdã, capital da Holanda, onde conviveu com “gente de todo lugar”, pode “ouvir as mais diversas línguas e dialetos na rua, andar de bicicleta, aprender com uma nova cultura”. Em sua biografia ela conta que cresceu cercada por música, hábito da casa onde viveu e observa que os pais ainda cantam e as irmãs tocam. Assim, nas festas de família, sempre havia cantorias. Já no colégio, um violão fazia companhia para ela animar encontros na praça e durante as madrugadas. “Aos pés da Serra da Mantiqueira experimentei os sabores da vida interiorana e simples”, comentou.

A chegada a Sampa ocorreu em 1995, antes do embarque para a Holanda. Na mais agitada e maior cidade do Brasil, cinco anos depois, Ceumar gravou o primeiro álbum da discografia, Dindinha, aproveitando os versos Dindinha divinha o quê primeiro vem amor ou vem din-din, dindinha dê dinheiro, carinho e calor pra mim, que o amigo e produtor Zeca Baleiro dedicou a ela. Baleiro participou dos trabalhos do disco, “parceria muito especial”, de acordo com a cantora, lembrando que Tata Fernandes também fez parte da obra. 

Já em 2.000 começaram as viagens, Brasil afora e pelo exterior. Ceumar passou por capitais como São Luís (MA), Salvador (BA), Curitiba (PR), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG) e países da Europa e da Ásia. Ao levar as cores brasileiras em sua música mesclada por ritmos como coco, marchinha, samba de roda, recordou: tive muitas alegrias ao encontrar gente de ouvidos abertos, ávida pelo frescor da novidade e do que não está, digamos assim, aparecendo nas telas da TV no domingo”.

Com a carreira afirmando-se a cada ano, Ceumar, desde então, já nos legou seis magníficos álbuns autorais. O mais recente saiu em 2014, Silencia. Entre este e Dindinha, os fãs ganharam, Sempre-viva (Ceumar assina a produção musical e arranjos, e marca sua estreia como compositora, com músicas deKleber Albuquerque, Zeca Baleiro e em parceria com Chico César);Achou!(produzido em parceria com Dante Ozzetti), e Meu Nome (quarto disco da cantora, por meio do qual apresenta ao público seu lado menos conhecido: o de compositora; produzido pelo músico e produtor holandês Ben Mendes, é o registro ao vivo dos shows realizados no Teatro Fecap, entre maio e junho de 2008, em que Ceumar apresentou 20 canções, todas de sua autoria, acompanhada quase que unicamente de seus violões). Já na Holanda, gravou com um trio local Live in Amsterdam, ao vivo, em 2010. Os holandeses são Mike del Ferro(piano), Olaf Keus (bateria) e Frans van der Hoeven (baixo acústico) e o disco traz releituras de canções da carreira e uma inédita de Zeca Baleiro: Iá Iá.

Foto: Bem Mendes

Silencia revela momentos de reflexão e descobertas pessoais e espirituais e também é gravado “ao vivo”, em estúdio, produzido pelo cellista francês Vincent Ségal. Registrado ao vivo em estúdio, o trabalho resulta em um som dinâmico, cheio de silêncios e momentos sutis. Acompanhada por Adriana Holtz (violoncelo), Daniel Coelho (baixo acústico) Webster Santos (bandolim, cavaquinho, violão de aço e viola caipira) e Ari Colares (percussão), Ceumar mostra um repertório composto de músicas próprias, além de composições de artistas como Vitor Ramil, Kiko Dinucci, Miltinho Edilberto, Kléber Albuquerque, Sérgio Pererê e Déa Trancoso, entre outros.

Em junho, com Lui Coimbra (RJ) e Paulo Freire (SP), Ceumar lançou Viola Perfumosaem um concorrido show no auditório Oscar Niemeyer do Ibirapuera, em São Paulo. O disco é um tributo à rainha da música caipira, Inezita Barroso, e resgata sucessos como Luar do Sertão; Tamba-TajáÍndiae Marvada Pinga, eternizados por Inezita que ganharam releitura camerística unindo viola caipira e violoncelo, rabeca e alfaias e se mesclam a composições de Villa-Lobos e a canções do repertório autoral do trio.

O trabalho doViola Perfumosa procura resgatar e reciclar a genialidade e a sofisticação das melodias e da poesia da música que se convencionou chamar “caipira”, compondo um mosaico comovente e alegre do Brasil “de dentro”, “dos interiores”, ressaltando a singularidade desta obra poético-musical que é um retrato fiel deste país profundo.

Para ficar ligado!

A 7ª Mostra Cantautores será promovida entre os 3 e 10 de novembro no Cine Theatro Brasil Vallourec, em Belo Horizonte, Minas Gerais, e entre outras atrações terá apresentações com Affonsinho, Cátia de França, João Bosco, Angela Ro Ro, Jards Macalé e Chico Saraiva, entre outros nomes de vários estados do país. A Mostra Cantautores é um encontro de criadores da canção contemporânea com apresentações solo de cantores e compositores acompanhados apenas por seu instrumento. Além de apresentar 16 artistas em suas múltiplas expressões, o evento deste ano também conta com uma programação de debates e atividades diurnas.

Leia também no Barulho d’água Música:

Ceumar canta acompanhada por Daniel Coelho na abertura do Composição Ferroviária, em Poços de Caldas (MG)

1115 – Como não concordar com o marido de Ângela Maria? “O céu hoje está maravilhoso!”

Cantora que marcou a era de ouro do rádio brasileiro, meio no qual foi  Princesa, depois eleita Rainha, e deixou obra com mais de 170 álbuns vai ser tema de minissérie da Globo, possivelmente interpretada por Cláudia Abreu

Uma das vozes e rosto mais marcantes da música brasileira, presentes na memória afetiva de várias gerações e que encantou de tal maneira um dos ex-presidentes do país — a ponto de ganhar dele apelido que faz referência a uma fruta extremamente benéfica à saúde e ao bem estarAngela Maria morreu há dois dias, na noite de sábado, quando a primavera completava uma semana, 29 de setembro.

Angela Maria, ou Sapoti, como  a chamou certa vez Getúlio Vargas, ou a Rainha do Rádio, como durante décadas seus fãs a trataram, era Abelim Maria da Cunha, nascida em Macaé, no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1929. Estava com 89 anos quando expirou vítima de uma infecção generalizada, em um hospital da cidade de São Paulo, após internação de 34 dias. “É com meu coração partido que eu comunico a vocês que  a nossa Angela Maria, partiu, foi morar com Jesus”, disse emocionado o empresário Daniel D’Angelo, marido da cantora. “O céu hoje está maravilhoso!” 

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