1140 – Nelson da Rabeca e esposa, com Thomas Rohrer, lançam álbum “áspero”, mas que encanta pelo tom festivo*

Vozes e instrumentos lembram o carro de boi, os gritos roucos do dia de trabalho, o atrito entre madeiras, metais e rochas e revelam  o modo como esses sons são articulados e dão a eles um tom de celebração
* Com Tiago Mesquita, do Selo Sesc

A audição matinal do sábado, 29/12, aqui no cafofo/redação do Barulho d’água Música, na Estância Turística de São Roque, Interior paulista, começou com Tradição Improvisada, álbum do Selo Sesc lançado em junho que destaca o inédito e feliz encontro entre Thomas Rohrer, Seu Nelson da Rabeca e  Benedita dos Santos. O disco reúne 23 faixas que revelam a união dos músicos em torno das rabecas produzidas por Nelson dos Santos. O instrumento, de timbre tão peculiar, permitiu que as sensibilidades musicais dos músicos de Alagoas e da Suíça se entendessem como Pelé e Coutinho.

A música chegou tarde para Nelson da Rabeca, nascido Nelson dos Santos  em março de 1929 na cidade alagoana de Joaquim Gomes. Embora possua memória extensa do repertório da música popular executada naquele estado, o instrumentista, compositor e luthier voltou-se para as artes só depois de décadas de trabalho penoso no corte de cana. Impressionado com o som de um violino que ouvia pela televisão, decidiu reproduzir um instrumento de cordas, a ser tocado com arco. E assim descobriu como fabricar, afinar e tocar a rabeca por conta própria.

Embora análogo, o instrumento de Nelson não soa uniforme como os das cordas da orquestra, pois tem um zumbido metálico. O rabequeiro deixa ranger as cordas e, acorde após acorde, faz com que o som, rouco, emule harmonias que nos remetem às cantigas medievais, às cirandas e aos xotes dos cantores de rádio. O timbre é arranhado, mas o toque é festivo. Com mais de 50 anos de idade, o artista descobriu uma maneira de viver mais intensamente pela música. Faz tempo que ele é jovem desse jeito.

Antes de se dedicar a fabricar e a tocar rabecas, Nelson dos Santos trabalhou penosamente no corte de cana, no Interior alagoano: Foto: Flavio Vogtmannsberger

Esse som original, incontrolável, temperado de maneiras não convencionais, fez com que Thomas Rohrer se iniciasse na rabeca. Quando chegou ao Brasil, o músico suíço originário da Basileia não tocava mais o violino que aprendera na infância: tornara-se saxofonista de recursos infinitos. Dedicado à produção de música nova, Rohrer fez da improvisação livre seu método principal. Para ele, o improviso é um modo de evitar os cacoetes harmônicos tradicionais e de buscar maior diálogo com outros procedimentos criativos. A sua música parece mais espontânea, aberta a novos sons, novas formas de tocar.

Rohrer conheceu a rabeca no fim da década dos anos de 1990, por meio de Zé Gomes, um dos músicos mais importantes do Brasil. O instrumento pôs Rohrer em contato com timbres inusitados e um repertório rítmico saído do sertão nordestino. O som que mais chamou a atenção foi o da rabeca de Seu Nelson. Quando pôde, adquiriu um instrumento e se aproximou do rabequeiro de Marechal Deodoro (AL). Ali nasceu a colaboração musical que resultou em Tradição Improvisada. Infelizmente Zé Gomes, outro interlocutor dos dois músicos, não sobreviveu para participar do projeto.

Nesse disco do selo Sesc, Nelson da Rabeca, Benedita dos Santos, Thomas Rohrer e Panda Gianfratti trabalham com sons ásperos. A voz e os instrumentos lembram o carro de boi, os gritos roucos do dia de trabalho, o atrito entre madeiras, metais e rochas. No entanto, o modo como esses sons são articulados dão a eles um tom de celebração, de alegria incontida, como se com aquele pouco a vida pudesse se tornar uma festa interminável. Em uma das faixas do disco, a partir de rangidos desencontrados, os músicos encontram uma progressão de acordes que nos lembra um trechinho de Cintura fina, de Luiz Gonzaga. Sons rudes vão estabelecendo contatos gentis, festivos, como se um convidasse outro a abrir a carranca e aproveitar a vida.

Aliás, são as letras de Benedita dos Santos que melhor expressam esse esforço para encontrar uma canção que faça sentido para a vida de todos. Suas palavras musicadas são fundamentais no disco. Elas falam de amores que não pedem nada em troca, do encontro com maravilhas naturais e sobrenaturais e da felicidade que a música trouxe a ela e a NelsonAs músicas também são sobre encontros, amor e amizade. Um desses encontros é o da cultura popular com a improvisação livre: duas formas de resistir à homogeneização da música pela indústria cultural. Aqui, essas formas de arte dançam juntas no baile infinito de Nelson da Rabeca e Thomas Rohrer.

A Revista Bravo! deste mês elegeu o disco Tradição Improvisada entre os melhores do ano.


*Tiago Mesquita é o autor do texto desta atualização

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1124 – Sesc Santo André (SP) programa shows em tributo a Elizeth Cardoso e Catulo Cearense com Zezé Motta e Cláudio Nucci

Edvaldo Santana também foi convidado para apresentação na qual cantará sucessos do seu mais recente disco e da carreira, que já ultrapassa 40 anos, em um show intimista com voz e violão, guitarra e percussão

A unidade Santo André do Sesc de São Paulo programou para este começo de novembro apresentações com nomes marcantes da música popular brasileira. Na sexta-feira, 2, feriado dedicado aos Finados, a entidade receberia a cantora e atriz Zezé Motta para uma homenagem às canções imortalizadas na voz de Elizeth Cardoso, Divina Saudade. Amanhã, sábado, 3, Cláudio Nucci, Rodrigo Maranhão e Mariana Baltar interpretarão músicas do cancioneiro popular em lançamento do disco A Paixão Segundo Catulo, do Selo Sesc. E para o dia 9 o palco estará reservado ao cantor e compositor Edvaldo Santana, que apresentará entre outras músicas do seu oitavo disco, Só Vou Chegar Mais Tarde, com o qual  celebra mais de 40 anos de carreira.

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1111 – Jackson Ricarte é a nova atração do Barulho d’água Música, no ZECA (SP)

Cantor e compositor cearense radicado há 20 anos em São Paulo vai protagonizar em Pinheiros, na Capital, a cantoria Estrada Afora, com repertório do seu disco homônimo e clássicos regionais e caipiras

O violeiro, cantor e compositor Jackson Ricarte é a segunda atração do projeto de cantorias do Barulho d’água Música, iniciado em 31/8 com Katya Teixeira e que, mensalmente, será promovido no Zuraffa Espaço de Cultura e Arte (ZECA), situado em Pinheiros, bairro da zona Sul paulistana.  Ricarte vai se apresentar a partir das 20 horas, tocando canções de seu primeiro álbum autoral, Estrada Afora, mesclado a sucessos do nosso cancioneiro regional. A contribuição mínima a título de entrada para a o show será R$ 20,00.

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1088 – Jackson Ricarte (CE) é atração na Mora Mundo, em mais uma rodada do circuito “Violada”

Apresentação do autor do álbum Estrada Afora será precedida pela exibição do documentário de Mário de Almeida e ‘canja’ de Saulo Alves

 

Marcelino Lima

O cantor, compositor Jackson Ricarte estará neste sábado, 28 de julho, no palco da aconchegante casa  Mora Mundo, situada no bairro paulistano da Barra Funda, como mais uma atração do Circuito Autoral das Violas Brasileira, o Violada . A partir das 21 horas, Ricarte será convidado pelo anfitrião Fábio Miranda a apresentar com sua viola caipira repertório que mesclará canções do seu primeiro álbum, Estrada Afora, dialogando com os sucessos da música regional brasileira.  Antes da cantoria, estão previstas duas participações mais que especiais: o diretor Mário de Almeida exibirá seu novo documentário Viola Perpétua: histórias de pertencimento à cultura caipira, a partir das 19 horas; e o compositor Saulo Alves, parceiro de Teixeira no documentário, protagonizará uma “canja” mais que especial oferecendo à plateia um gostinho das modas do seu disco Desaboio, em parceria com o poeta e compositor Paulo Nunes.

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957 – Selo Sesc disponibiliza primeiros 16 álbuns do catálogo para audição por streaming

Quem curte os álbuns fonográficos do Selo Sesc já pode acessar parte do catálogo por meio de plataformas como Spotify, Deezer, Apple Music, Google Play Music, e Napster. O primeiro lote reúne 16 títulos entre os quais No Voo do Urubu, de Arthur Verocai; A Saga da Travessia, de Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz; Com Alma, da Banda Mantiqueira; Virgínia Rosa Canta Clara, de Virgínia Rosa; e Café no Bule, de Zeca Baleiro, Naná Vasconcelos e Paulo Lepetit. Doravante, os lançamentos também serão liberados para os servidores de streaming e a promessa do Sesc é que até dezembro todos os discos já lançados desde 2004 estejam disponíveis.

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