1594 – Direto do Mineirão, a última apresentação de Milton Nascimento, por Makely Ka

#MPB #ClubedaEsquina #CulturaPopular #EstádioMineirão #BeloHorizonte #MinasGerais

Em 13 de novembro, um público estimado entre 55 e 60 mil pessoas acorreu ao estádio Mineirão, um dos palcos sagrados do futebol brasileiro [no qual, em 8 de julho de 2014…], situado em Belo Horizonte (MG), desta vez não para presenciar uma partida do Galo (Atlético Mineiro) ou da Raposa (Cruzeiro), mas para acompanhar, e o quanto mais de perto possível, a derradeira apresentação da turnê A Última Sessão de Música. Tanta gente assim para não ver a bola correr tinha uma razão das mais especiais, única e inesquecível por se tratar de um concerto: era Milton Nascimento quem estaria por 120 minutos no centro das atenções para protagonizar sua despedida da cena musical que iniciara, precocemente, ainda na adolescência, já em Minas Gerais, onde primeiro residiu na minha querida Juiz de Fora (muito em breve, provavelmente, perto de onde terei minha nova casa, na Zona da Mata) embora seja carioca. A trajetória de Milton Nascimento, o Bituca, perante os microfones, estava chegando ao fim naquele simbólico domingo, após 42 álbuns próprios lançados, aos 80 anos de idade. E num momento particularmente de dor e de euforia, pois o país absorvia, ainda, o amargor das partidas de Gal Costa e de Rolando Boldrin, embora mergulhado na esperança e na alegria por termos eleito para a presidência da República, pela terceira vez, Luís Inácio Lula da Silva.

Frases surradas como “a biografia de tal pessoa desobriga sua apresentação” a qual recorro agora não configura tática preguiçosa de um jornalista em fuga do trampo da pesquisa minuciosa e da redação generosa e irretocável em dados, mas vamos lá a outra: tentar escrever de próprio punho algumas linhas, ainda mais inéditas, a respeito deste ícone até sou capaz, uai! Contudo seria, indiscutivelmente, chover no molhado, né, bobo! Ademais, sobre a luminosa, consagrada e premiadíssima carreira dele há incontáveis matérias e referências, das mais breves às mais caudalosas e ricas, em vários veículos e suportes – sem contar que propriamente o gran finale em Beagá rendeu uma pororoca de comentários, imagens, fotos, trocas de mensagens em redes sociais e outras formas de repercussão ainda frescos (ou quentes, fica a gosto do freguês).

A última apresentação, por sinal, foi mostrada ao vivo e com sinal aberto pelo canal Globoplay e ficará disponível na plataforma até 13 de fevereiro de 2023. Mas este Barulho d’água Música não deixará sem um registro em suas atualizações este momento que emocionou o Brasil e vários lugares do planeta nos quais Milton Nascimento faz bater corações e é reverenciado como um dos maiores do ramo em todos os tempos.

Milton Nascimento tocou e cantou por duas horas a relembrar parte dos seus sucessos, consagrados em seis décadas de premiada carreira. E dedicou o concerto à amiga Gal Costa.

Com a devida licença nos dada pelo poeta, compositor, cantor, produtor cultural, violonista e violeiro Makely Ka (PI) publicaremos a partir do próximo parágrafo o depoimento dele sobre o que presenciou e sentiu como um dos fãs de Bituca presente àquele concerto histórico. Makely Ka compartilhou o texto em uma de suas páginas de mídia social após tê-lo escrito, ainda sob o calor do arrebatamento que experimentara e sentia, horas depois de já ter deixado o Mineirão. Mais do que um relato emocionado, é uma descrição exata do show e, como é peculiar a Makely Ka, costurada com críticas, devidas e bem apontadas, já que o evento [e aqui sou eu quem opina] não deixou de ser explorado e transmitido como uma ação nada barata [aos bolsos dos que sobrevivem sabe-se lá como nos bailes da vida] do mainstream, em detrimento da coletividade que sempre foi onde Milton Nascimento esteve!

Obrigado, Makely Ka!

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1591 – Doce. Bárbara. Legal. Fatal. Gal: mais do que um nome, adjetivos. Substantiva, com intensidade.

#MPB #Salvador #Bahia #SãoPaulo #LGBTQIA+ #CulturaPopular

Artista atuante com sorriso de gata, de interior doce sob a pele de bárbara, que jamais se rendeu ao bem bom do mainstream e por quem, agora, o céu está em festa. Fora dos palcos ou longe dos holofotes, Gal encarnou de mais legal as manhas de jamais falar pelas costas. Ao contrário: foi de peito aberto que mostrou a cara e, intrépida como uma Alice, ousou não apenas cantar as maravilhas do país, mas, quando precisou, vestiu nossa camisa, soube escancarar dentes, caras e bocas e denunciar as mazelas de uma sociedade que, de maneira estratosférica, escandalosa e estruturada, despreza o plural, desrespeita e explora minorias. Gente que jamais chegará a brilhar, pois já vem marcada antes de nascer. E esta sina, pelo jeito, perdurará e ainda será seletiva, fatal, em pleno século XXX.

Mais do que uma baby, honey, por que não ser a profana que não se curva às forças estranhas? Sim, Gerald Thomas, ela tinha a voz de Deus! Mas, se não fosse para cantar como o diabo gosta e provocar demônios: para os que sentem na pele o medo do futuro, de que serviria o manancial de esperança e credos que formavam as águas do seu canto, fosse bossa nova ou tropical, frevo ou axé, brega ou romântico, xote ou xaxado, ateu ou candomblé? Vamos combinar? Mais vale ser a ponta de uma agulha do que o enganoso calor de uma fagulha na hora de por os pingos nos is e doar-se, inteira, à arte de tentar ressuscitar tantos corações já destroçados por mesquinharias, oferecer mais do que simplesmente pão, poesia, a irmãos que têm de se sacrificar por uma casa, um buraco, vidas a fio, inteiras e inumeráveis, lutando contra as misérias do cotidiano, mas que também querem liberdade, diversão. E não só pela metade, em qualquer parte!

Ah, Gal de tantos amores, que acalantou nossas fantasias! Ah, Índia, negra, nordestina, sangue tupi, raça, que sempre esteve de corpo e alma mais do que um passo à frente do nosso tempo! Sem jamais ter sido careta, sem necessidade de ser a correta, ainda que sob a forte concorrência de Helôs, Naras, Ângelas, Marias, Bethânias, Cidas, Elis, Dalvas, Simones, Beths, Leilas, Marisas, Ritas, Kátyas, Consuelos, Liras, Inezitas, Jucilenes, Sarahs, Alcinas, Vânias, Patrícias, Ruths, Chiquinhas, Andreias, Marielles, Beneditas, Mônicas, Marlenes, Conceições, Martas, Mirahs, Cistinas, Zélias, Claras, Mirians, Terezas, Catarinas, Márcias, Madalenas, Mércias, Isabel, fica a pergunta: seria você e não aquela a autêntica namoradinha do Brasil, terra que apesar das belezas que enchem aquarelas, ainda insiste e tende ao salgado, ao cruel?

Obrigado, e descanse em paz, Gal. Mais do que uma garota, mais do que uma cantora e intérprete, foste uma Mulher da porra. E fantástica!

A morte de Gal Costa em 9 de novembro, menos de dois meses depois de completar 77 anos, entristeceu familiares, amigos e fãs, do recém-eleito presidente da República, Lula, à esposa dele, Janja, e ainda hoje repercute Brasil afora em veículos de imprensa, mídias sociais e blogues, especializados ou não em cultura e em música. Maria da Graça Penna Burgos Costa, nascida em Salvador Maria da Graça Costa Penna Burgos, subiu ao Plano Maior coroada como uma das mais emblemáticas cantoras, compositoras e multi-instrumentistas do país, a quem em 2012, a revista Rolling Stone Brasil lhe outorgou a classificação de dona da sétima maior voz da música brasileira, marca inconfundível de sua trajetória eternizada em 44 álbuns, gravados entre 1967 e 2021.

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1577 – Antonio Adolfo (RJ) retoma repertório autoral em novo álbum, com releituras instrumentais de Sá Marina e Teletema, e seu octeto

Com Tambores Comunicações – Assessoria de Comunicação

#MPB #Jazz #Baião #Boogie

Álbum, que está sendo lançado no Brasil e nos Estados Unidos da América, também em formato físico, chega depois do pianista dedicar discos anteriores às obras de Milton Nascimento e de Tom Jobim

O pianista, compositor e arranjador carioca Antonio Adolfo, com mais de cinco décadas de carreira, reconhecido internacionalmente como uma personalidade do jazz latino, está lançando digitalmente e em formato físico Octet and Originais (selo AAM Music), no qual retoma o repertório próprio. Entre inéditas como Boogie Baião e Toada Moderna, o disco revisita as consagradas Teletema e Pretty World, que é a versão em inglês de Sá Marina, sucesso internacional gravado, entre outros, por Wilson Simonal e Stevie Wonder.

Octet and Originais, destaca não apenas composições autorais, mas também a banda estelar do carioca. Para Adolfo, hão há nada melhor do que poder contar “com músicos maravilhosos, que gravaram nos meus projetos recentes”. É aos parceiros que o pianista dedico esse novo trabalho: Ricardo Silveira (guitarra), Rafael Barata (bateria), Jorge Helder (baixo), Jessé Sadoc (trompete/flugelhom), Rafael Rocha (trombone), Danilo Sinna (sax alto) e Marcelo Martins (sax-tenor/ flauta).

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1568 – Gilson Peranzzetta e Marcel Powell lançam Pro Tião, com participação de Alaíde Costa, no Blue Note,

#MPB #Violão #Piano #MúsicaInstrumental #CulturaPopular #ProdutoraeGravadoraKuarup

Disco pelo selo Kuarup homenageia o violonista paraense Sebastião Tapajós, com músicas inéditas dos autores e clássicos instrumentais do gênero

Texturas, entrelaçamento de cordas, cores, suavidades, sonoridades, timbres, vigor, emoção pura. Estas são as imagens sugeridas pelo encontro do pianista e maestro Gilson Peranzzetta com o violinista Marcel Powell em Pro Tião, álbum lançado e distribuído pela gravadora Kuarup e que ganhará concerto na casa noturna Blue Note, situada na cidade de São Paulo. A dupla estará no palco na sexta-feira, 9 de setembro, a partir das 20 horas, em encontro cujo disco homenageia o violonista paraense Sebastião Tapajós, falecido em outubro do ano passado.

A arte dos dois instrumentistas imprime à formação de duo dimensão nova e surpreendente, foge dos sotaques conhecidos para formular uma sonoridade peculiar. Nas 11 faixas estão contidos sedimentos culturais do Brasil, retratados pela diversidade de ritmos e gêneros. Peranzzetta e Powell protagonizam solos e ao tocarem juntos trocam funções e sensações em busca de inéditas dinâmicas. Ora com a mão esquerda ao piano, Peranzetta busca os baixos e desenha a harmonia para que Powell evolua ao violão, ora o violão serve de apoio para o piano, o que brinda o público com um espetáculo mágico.

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1561 – Maricenne Costa – A cantora de voz colorida conta em 260 páginas a história de vida e carreira da cantora e compositora

#MPB #Literatura #CulturaPopular

Figura importante da música brasileira, elogiada por João Gilberto — que dizia que ela possuía ‘voz colorida’ — foi a primeira a gravar Chico Buarque, cantou em festivais dos anos 1960 e fez parceria com o grupo punk Inocentes

A Editora Álbum de Família está lançando Maricenne CostaA cantora de voz colorida, livro que revela em 260 páginas informações sobre a biografia e a carreira da cantora paulista Maricenne Costa, de autoria de Elisabeth Sene-Costa e Laïs Vitale de Castro. O livro traz um apanhado das realizações da intérprete e compositora que fez parte da Bossa Nova paulista e representou a música brasileira em Portugal e nos Estados Unidos da América, nos anos 1960. Eclética, trabalhou com teatro e se destacou como atriz.

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1559 – Maria Marcella (RJ) lança álbum em homenagem aos João Bosco, Donato e Gilberto

#MPB #Literatura #ContosdeFadas #CulturaPopular

Maria Canta João é o segundo epê da jovem intérprete carioca pela gravadora Kuarup e já se encontra nas plataformas digitais

As tradicionais audições aos sábados pela manhã na redação do Barulho d’água Música, aqui no Solar do Barulho, na Estância Turística de São Roque (SP), começaram neste dia 23 de julho com Maria Canta João,  epê da intérprete carioca Maria Marcella que já está disponível desde maio nas plataformas digitais. O belo álbum de seis faixas, lançado pela gravadora Kuarup, revisita parte da obra de João Bosco, João Donato e João Gilberto. Marcella vem conquistando seu merecido espaço no cenário nacional desde a parceria com músicos renomados como Dori Caymmi em Dentro D’Água (2020) e Gilson Peranzzetta no epê anterior, Mudanças do Amor (2021). Marcella, agora, brinca com o conto clássico João e Maria para prestar a reverência aos três grandes Joões da música brasileira, conforme ela declarou.

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1545- Eduardo Sueitt e convidados tocam de graça no Parque Antonio Molinari

#MPB #MusicaInstrumental #MinasGerais #SuldeMinas  #PoçosdeCaldas 

O baterista paulista Eduardo Sueitt estará à frente neste sábado, 11 de junho, das apresentações que serão atrações da primeira edição neste ano do projeto Música Instrumental no Parque, prevista para começar a partir das 14h30, no Parque Antonio Molinari, sem cobrança de ingresso, com discotecagem de Paulo Tothy. Sueitt convidou para os concertos Albano Sales, Flávio Corilow e Henrique Simas, músicos que deverão oferecer ao público composições autorais e releituras de clássicos de Tom Jobim, Moacyr Santos, Ivan Lins, Milton Nascimento, Edu Lobo, Luiz Eça, Toninho Horta. Está prevista, ainda, a participação do violonista poços-caldense André Batiston. 

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1543 – Kuarup lança livro que resgata a história da gravadora carioca Forma

#MPB #CulturaPopular #CinemaNovo #EditoraKuarup

O jornalista Renato Vieira lança livro sobre a gravadora carioca que
lançou importantes discos da música brasileira como os Afro-Sambas,
de Baden Powell e Vinícius de Moraes, e a trilha sonora de Deus e o
Diabo na terra do Sol

Tempo Feliz A História da Gravadora Forma, do jornalista e escritor Renato Vieira, com distribuição pela editora Kuarup, já chegou às livrarias de todo o país, com preço a partir de R$50. O livro traz uma pesquisa completa sobre a gravadora Forma, um ousado selo carioca fundado pelos jovens Roberto Quartin e Wadi Gebara, que esteve em atividade entre 1964 e 1967 até fechar as portas por causa de dívidas. “Em 2014 conheci o Gebara, um dos donos da Forma, que tinha toda a documentação sobre a gravadora e queria contar sua história”, afirmou Renato Vieira sobre o início do processo. A Forma lançou importantes discos para a música brasileira como Os Afro­ Sambas, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, Coisas, de Moacir Santos, Inútil Paisagem, de Eumir Deodato, e as trilhas sonoras dos filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol e Esse Mundo é Meu, entre outros. “Trata-se da história de um sonho que deu errado financeiramente, mas em termos artísticos ficou e permanece até hoje, observou Vieira. “Eles eram dois jovens que gostavam de música e apostaram tudo nisso.”

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1527 -Dia do Jazz: Hot Club (SP) apresenta canções de Django Reinhardt e Noel Rosa em início de turnê paulista*

#MPB #Jazz #CulturaPopular

Contemplado pelo ProAc, o espetáculo 111 anos de Django e Noel, do Hot Clube Piracicaba reúne músicas que compõem álbum recém lançado pelo grupo

*Com Rafael Bitencourt e Claudia Assencio, Tempo D Comunicação e Cultura

Com o objetivo de apresentar releituras de canções de dois importantes compositores do início do século passado que até hoje são cultuados em seus segmentos musicais, o Hot Club de Piracicaba (HCP), fará circular por sete cidades do Estado de São Paulo o espetáculo 111 anos de Django e Noel, promovendo apresentações com entrada franca entre abril e agosto. A iniciativa foi aprovada no ProAC Direto e conta com realização do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, com produção da Empório Produções. E para marcar o Dia Internacional do Jazz neste sábado, 30 de abril, a estreia deste projeto inédito, que conecta a música de Noel Rosa à de Django Reinhardt, não poderia ser em um ponto melhor: o Coreto Elpídio dos Santos, espaço popular que respira música e fica na Praça Doutor Oswaldo Cruz, em São Luiz do Paraitinga, onde as primeiras notas subirão ao ar a partir das 15 horas. Depois, serão contempladas Sorocaba (21/5), Campinas (3/6), Bauru (18/6), Ilha Bela (9/7), Piracicaba (23/7) e, finalmente, Campos do Jordão (6/8).

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1522 – Atribuição de sucessos de Ruy Maurity aos seus intérpretes contribui para por no esquecimento obra das mais genuinamente brasileiras

#MPB #Samba #RockRural #MúsicaRegional #Umbanda #Candomblé #Telenovelas #CulturaPopular #ParaíbadoSul

É costume recorrente entre alguns apresentadores de programas musicais populares de rádio e também de provedores de conteúdos na internet atribuir a autoria de composições que estão sendo tocadas ou divulgadas, em determinados momentos, a quem as interpreta, quando não deixam de mencionar o compositor. Estes erros podem ser apenas pura e simples ignorância ou desatenção, mas são equívocos que podem contribuir de maneira impactante na desvalorização da carreira dos criadores, dos mais tarimbados aos menos criativos, ajudando, inclusive, a mantê-los no ostracismo ou longe da fama que mereceriam, permitindo a outros fazerem fortuna com o chapéu alheio. Sem contar que podem ser entendidos como violação, ainda que involuntária, da propriedade intelectual e imaterial de um trabalho artístico que levou tempo e exigiu algum grau de elaboração para tirar o branco do papel.

Quem viveu a adolescência e a juventude na virada dos anos 1970 para os 1980, como eu, ouviu bastante e cantou em rodinhas, animadas por um violão, Serafim e Seus Filhos e Marcas do Que se Foi, por exemplo. A primeira varou o tempo e chegou bastante conhecida ainda nos dias atuais; a segunda, mais propriamente um jingle, embalou as chamadas de final de ano da Rede Globo, em 1976: em uma de suas versões, levava o telespectador a passear por bucólicas paisagens rurais; eu, com 12 para 13, “viajava” nas imagens que me colocavam a bordo da velha “jaú”¹ azul marinho do motorista Zé Portes subindo e descendo a empoeirada estrada de ligação entre Juiz de Fora e Chácara, cidades da Zona das Mata mineira, onde mor(ava)m tios e avôs paternos. Serafim e Seus Filhos, arrisco defender, tem uma das letras mais interessantes e poéticas de nosso cancioneiro (leia matéria a respeito, de José Mário Espínola, médico e escritor, clicando aqui), foi bastante difundida quando “estourou” e, justamente por virar um sucesso atemporal, muita gente gosta de regravá-la – na maioria das versões que conheço, felizmente e ao menos, preservando o seu arranjo original, com poucas alterações.

Marcas do Que Se Foi chegou a ser sulcada em um bolachão (Estrelas, de 1977), com sua autoria atribuída aos The Fevers, enquanto a mística Serafim e Seus Filhos aparece citada por ai ora como composição de Zezé Di Camargo & Luciano, ora, ainda, de Sergio Reis, por exemplo. Consuma-se, assim, um dos erros citados acima, posto que entre os autores de ambas um deles é Ruy Maurity, fluminense que partiu para o Plano Maior há alguns dias – embora, justiça seja feita: há pouco tempo envolvido no centro de uma infeliz polêmica política, o cantor sertanejo/caipira, em um dos shows do seu projeto Sergio Reis e Filhos que promoveu há anos, disse em bom e alto tom quando começava a executá-la em um concerto da turnê que Maurity é o autor, em parceria como José Jorge, da épica saga que se passa em noite alta de lua mansa. A dupla Maurity/Jorge, arco e flecha na biografia de ambos, também é devidamente mencionada nos créditos do álbum que as apresentações ao vivo do projeto SR renderam – disco por sinal belíssimo, lançado pela Atração Fonográfica, em 2003 e daqueles que valem a pena ter e ouvir, sempre… mesmo se você tenha “cancelado” o Sergião no ano passado, talquêi?!. Marcas Do Que se Foi também é de Maurity e de Jorge, com Paulo Sérgio Valle, Tavito (1946 – 2019), Ribeiro e Márcio Moura, embora de autoria oficialmente creditada à produtora de jingles Zurana.

Antonio Adolfo (de óculos), abraçado por Ruy Maurity, escreveu: “Uma notícia muito triste: meu querido irmão e grande compositor, Ruy Maurity, foi embora para sempre essa noite. Ficará sua obra lindíssima e as lembranças da maravilhosa pessoa que sempre foi. Fique em Paz. Você sempre mereceu o nosso amor! Viva Ruy Maurity!” Já Carol Saboya comentou: “Nessa madrugada, meu tio Ruy Maurity nos deixou. Uma pessoa muito amorosa, um compositor incrível! Vai fazer muita falta!” (Foto: Acervo da família)

Ruy Maurity de Paula Afonso nasceu em Paraíba do Sul (RJ) e saiu de cena em 1º de abril, aos 72 anos, após dias em coma provocada por duas paradas cardíacas, decorrentes de um exame de endoscopia. Era filho da primeira violinista a integrar a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal da cidade do Rio de Janeiro, Iolanda. Seu irmão é o pianista e compositor Antonio Adolfo, pai da bela cantora Carol Saboya. Contudo, a obra de Maurity na cena musical nacional não alcança o mesmo reconhecimento da de Adolfo — que segue ativo, reside nos Estados Unidos da América e desenvolveu sólida carreira no Exterior gravando, por exemplo, ótimos tributos a Milton Nascimento e Tom Jobim, entre trabalhos autorais de fôlego. Esta obliteração do irmão pela mídia, somada aos equívocos das autorias creditadas a seus interpretes, configura outro pecadilho contra o legado de Maurity – algo muito semelhante ao que até hoje sofre Sidney Miller, embora a genialidade de ambos os deixe nos mesmos patamares, por exemplo, de Belchior e de Chico Buarque, embora estes tenham estilos mais bem definidos ou pouco menos ecléticos dentro do guarda-chuva da MPB.

Muito mais do que Serafim e Seus Filhos e Marcas Do Que Se Foi, Maurity emplacou várias de suas composições em novelas da Vênus Platinada como A Escalada, Fogo Sobre Terra e Dona Xepa (na trama de 1977, a original, da Globo³, é dele o tema de abertura), em época na qual a vendagem de discos de vinil com as respectivas trilhas dos folhetins globais era turbinadora das receitas e carro-chefe da gravadora Som Livre. A ele é dado o status de um dos percursores do Rock Rural – gênero pelo qual também transitou concomitantemente e talvez com maior identificação Sá, Zé Rodrix, Guarabyra, Tavito e, no qual, até hoje, Zé Geraldo põe bolas no ninho da coruja – e às do segmento contido na ampla etiqueta #MúsicaRegional. Maurity, contudo, talvez seja, mesmo, com maior e indiscutível mérito, um dos baluartes mais iluminados entre compositores e intérpretes (como Geraldo Filme, Luiz Américo, Clara Nunes, Clementina de Jesus e Martinho da Vila) de um terreno no qual hoje se destacam Mateus Aleluia, Mariene de Castro e o violeiro mineiro Paulo Mourão, só para começar a riscar a pemba: o do samba que dialoga com elementos da religiosidade de matriz africana, trajado quase que essencialmente de branco, com os dois pés bem fincadinhos nos sagrados terreiros da Umbanda e do Candomblé!

Religiões que têm milhares de adeptos espalhados pelo país, embora ainda sejam alvos de intolerância e preconceitos injustificáveis, a Umbanda e o Candomblé, referências claras aos seus rituais e costumes de ambas aparecem no repertório de Maurity, de forma bem demarcada como uma batida de atabaque em Barravento. Revelam-se em letras e arranjos apoiados em instrumentos típicos como a da clássica Nem Ouro Nem Prata, faixa-título do, talvez, melhor entre tantos ótimos álbuns de Ruy Maurity, este lançado em 1976, que sobrevive na memória popular embalada pelos versos de um ponto cantado largamente em giras Brasil adentro: Samborê, pemba, é folha de jurema; Oxóssi reina de Norte a Sul… Esta veia também pulsa em Quizumba de Rei; e Xangô, o Vencedor (do mesmo álbum de 1976); aparecera antes em Cajeré (Safra/74, 1974); retornou em Festa Crioula, Sete Cavaleiros, Ganga Brasil e Pai João (Ganga Brasil, 1977) e repetiu-se, por exemplo, em Ponto Final (Bananeira Mangara, 1978) e Casamento de São Jorge e Réquiem De Uma Princesa Nagô (Natureza, 1980),

O talento de Ruy Maurity e sua ampla identificação com as tradições e costumes da brasilidade, portanto, constituem uma obra copiosa e entranhada na cultura popular. Mas, ainda assim (ou talvez por isso?) tão logo o moço recebeu de Oxóssi permissão para andar livremente pelas matas, para ver o mundo do alto das montanhas de Xangô ou fluir como espírito livre feito as águas abençoadas por Mãe Oxum, não mereceu nem na mídia especializada pouco mais do que notas curtas ou textos burocráticos em obituários. Mas como provavelmente ainda no ventre de Dona Iolanda o menino escutou a gargalhada do Tranca Ruas. ao abrir a porteira para vir ao mundo já baixou com moral junto a baianos, boiadeiros, marinheiros, pretos velhos e logo aprendeu a tocar violão, sozinho. Como muita gente boa, deu os primeiros passos na carreira em festivais a partir do efervescente 1968, ano de chumbo em que sua Arruaça (composta com José Jorge) foi defendida no I Festival Universitário de Música Brasileira pela cantora Sônia Lemos, conforme lembrou em seu blogue Pop & Arte o jornalista Mauro Ferreira, do portal G1. Maurity teve outras duas parcerias com José Jorge gravadas por Maysa, em 1969, Estranho Mundo Feliz e Quebranto, antes de faturar o III Festival Universitário de Música Brasileira, em 1970, com a música Dia cinco, mais uma das muitas parcerias com José Jorge, ainda conforme Ferreira.

Brasil ame-o ou deixe-o, tricampeão de futebol no México. Naquele mesmo ano saiu o primeiro elepê – Este é Rui Maurity, que faz uma alusão à Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, e ara o roçado para Serafim e Seus Filhos, apresentada, pela primeira vez, em 1971, entre as faixas de Em busca do ouro². Três anos depois, Ruy Maurity assinou Safra/74, que teve canções incluídas nas trilhas sonoras de Escalada e Fogo Sobre Terra. Em 1976 e 1977, brindou-nos com Nem Ouro Nem Prata e Ganga Brasil, que inclui a global Dona Xepa. Bananeira Mangará, no ano seguinte, renovou a discografia, mais uma vez com bônus de louvor dados pela crítica a começar pela música de abertura, Pelo Sinal; depois, na década dos anos 1980, voltou aos estúdios para gravar Natureza (da capa em que ele está pescando uma bota em um riacho) e A Viola no Peito. Em 1998, com arranjos de temática caipira, produziu De Coração, no qual reinterpretou, por exemplo, Serafim e Seus Filhos e Menina do Mato, reavivando diversas parcerias com José Jorge.

Nem Ouro Nem Prata foi regravada por Teresa Cristina, em 2007, quando a filha de Paulinho da Viola lançou o álbum Delicada. Dos sete álbuns do período durante o qual Maurity esteve em alta na década dos anos 1970, Este é Ruy Maurity é o único que não tem o selo da Som Livre, marca distintiva dos demais que são: Em busca do ouro (1972), Safra/74 (1974), Nem Ouro Nem Prata (1976), Ganga Brasil (1977), Bananeira Mangará (1978) e Natureza (1980); Safra/74 teve produção de Eustáquio Sena e arranjos de Antonio Adolfo, e dele Ferreira destacou “músicas inspiradas” como Parábola do Pássaro Perdido e Com Licença, Moço, ambas compostas por Maurity e José Jorge. De Bananeira Mangará Mauro Ferreira pinçou a parceria então inédita de Maria Bethânia com a violonista e compositora Rosinha de Valença em Cana caiana (1978), “música afinada com o Brasil rural cantado com inspiração por Ruy Maurity.”

Os discos, ainda observou o blogueiro do G1, apresentam títulos que já evocam a brasilidade entranhada na obra do artista. “Após esse período áureo, Maurity gravou poucos discos a partir dos anos 1980. Mas os álbuns que deixou ainda guardam pérolas que merecem ser pescadas no baú”, emendou Ferreira. Citando versos da canção atribuída ao The Fevers, Mauro Ferreira terminou sua matéria com a frase “os passos de Ruy Maurity pelo chão do Brasil vão ficar”. Laroyê!


¹ Jaú é como meu pai, Geraldo Caetano de Lima, chamava uma “jardineira”, antigo modelo de ônibus como era o de Zé Portes. O trajeto entre Juiz de Fora e Chácara é de 28 quilômetros, hoje, asfaltados.

² A música Serafim e Seus Filhos teve uma segunda versão, a continuidade da saga, gravada como As Artimanhas de Lourenço, Filho de Serafim, como faixa 11, em Natureza.

³ A novela Dona Xepa primeiro foi exibida pela TV Globo, entre 24 de maio a 24 de outubro de 1977, em 132 capítulos, no horário das 18 horas. Era baseada na peça teatral homônima, escrita em 1952, por Pedro Bloch, adaptada por Gilberto Braga, com direção de Herval Rossano. O elenco reuniu Yara Cortes, Reinaldo Gonzaga, Nívea Maria, Edwin Luisi, Rubens de Falco, Cláudio Cavalcanti e Ana Lúcia Torre nos papéis principais. Em 2013, a Record pôs uma segunda versão no ar, em 91 capítulos, sempre às 221h15 de 21 de maio e 24 de setembro de 2013.

4 A “paternidade” de Marcas do Que se Foi, na internet, também aparece para Zezé Di Camargo & Luciano, Roupa Nova e Padre Marcelo Rossi, entre outros equívocos. 

Marcelino Lima é jornalista formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1991, atuou como repórter, editor e revisor dos mais importantes jornais de Osasco e região,  em diversas coberturas da área esportiva, cultural, política e sindical, em assessoria de imprensa para várias entidades e prefeituras, além de campanhas eleitorais. Também é fotógrafo e há oito anos coordena as publicações do Barulho d’água Música. Para contribuir com o blogue, deposite qualquer quantia no PIX 04992937896 ou 992590769.