1117 – Elifas Andreato estreia na literatura infantil com livro musicado por Tom Zé

Fábula escrita há quase 40 anos, que estava na gaveta do consagrado capista,  é lançada por editora premiada no segmento de obras didáticas;  antes de chegar às prateleiras das livrarias virou disco na voz do baiano tropicalista

O jornalista, artista gráfico e cenógrafo paranaense de Rolândia radicado em São Paulo Elifas Andreato, conhecido por conceber algumas das mais belas capas de discos de todos os tempos da música brasileira, muitas premiadas e expostas em mostras até fora do país ¹, acaba de estrear na literatura também como escritor de histórias infantis. Em 6 de outubro, em uma concorrida livraria da rua Fradique Coutinho, em São Paulo, seus amigos e fãs mais uma vez o prestigiaram, desta vez para o lançamento de A Maior Palavra do Mundo, uma Fábula Alfabética, que conta com 56 páginas ilustradas por Fê, considerado uma dos mais criativos ilustradores da atualidade.

A Maior Palavra do Mundo… é o abre-alas da nova fase da Palavras Projetos Editorias, liderada pelo editor Cândido Grangeiro e formada no segmento de didáticos, destacada por inúmeros títulos aprovados pelo Programa Nacional de Livros Didáticos (PNLD), e que, agora, aposta fichas também no segmento infanto-juvenil. Para Elifas Andreato levar o livro ao prelo, entretanto, demorou 37 anos, tempo no qual os originais ficaram na gaveta do autor. O trabalho teve origem a partir de uma das muitas histórias que Elifas contava para seus filhos quando eram pequenos: contos envolvendo as letras do abecedário.

Depois de pronta, Elifas Andreato enviou a obra para que um amigo especial a musicasse: Tom Zé. “Para mim, uma boa narrativa sempre vem acompanhada de música”, explicou o artista gráfico. Na época, Andreato gravou as composições feitas por Tom Zé em uma fita cassete, que os filhos acabaram levando à escola, fazendo com que toda a turma decorasse as canções e “cansassem” de brincar com as cantigas.

Capa e contracapa do disco de Tom Zé sobre as fábulas de Elifas Andreato

O projeto da fábula musical foi retomado no ano passado, dando origem, primeiramente, ao álbum para o público infantil Sem você não A, que Tom Zé lançou na semana do Dia das Crianças, em outubro de 2017. O livro e o CD, portanto, estão prontos, mas o projeto poderá ganhar, ainda um novo formato, agora como musical.

A Maior Palavra do Mundo, uma Fábula Alfabética envolve um mistério, que se inicia quando o ressentido Silêncio, habitante mais antigo daquelas terras, resolve sequestrar a Curiosidade, a regente de todas as letras. Para libertá-la, Silêncio propõe um enigma: descobrir qual a maior palavra do mundo: “Ela começa com E, tem pelo meio Amor, Alegria, Vontade, Amizade, Felicidade, Solidariedade, Respeito e acaba com as últimas das vogais”.

Antes de gravar o álbum Sem Você não A, Tom Zé ainda estava às voltas com a repercussão do disco de 2016, com temática sexual, Canções Eróticas de Ninar (2016). Guinou de um universo ao outro mostrando o quanto é eclético e sua obra abrangente em apenas 30 dias, após receber um convite do Sesc para apresentar algo novo como parte da programação da entidade para o Dia das Crianças de 2017, da qual ele seria atração. O baiano tropicalista tinha em seus armários a fita cassete que Elifas enviar e sacou que chegara a hora de , enfim, musicá-la. Recorreu a alguns amigos e na empreitada que arremataram em 30 dias buscou colocar elementos que são marcantes para a petizada, deixando  com cara de gente miúda o disco que tem participações de 
Leandro Paccagnella (bateria), Daniel Maia (violões), Paulo Lepetit (baixo, guitarras), Jarbas Mariz (percussões), Adriano Magoo (sanfona, teclados), Luanda, Andreia Dias, Daniel Maia e Jarbas Mariz (coro).

“As repetições, por exemplo. Crianças gostam muito de repetições, por isso eu fiz algumas poucas alterações nas letras do Elifas para colocar um pouco mais desse recurso, disse Tom, complementando: as letras seguiram a ideia central da fábula criada por Elifas Andreato, explicada minuciosamente no encarte. “Esta fábula não começa com ‘era uma vez…’ porque acontece no abecedário, terra onde vivem os habitantes do alfabeto”, explicou Elifas. A história em que “não há reis nem rainhas, nem princesas, sapos ou fadas” tem as letras como protagonistas. As maiúsculas precisam das minúsculas e as vogais, das consoantes. “Elas bem entendem que letra nenhuma escreve nada de fundamental sozinha.”

A música de Tom Zé para o episódio do enigma proposto pelo Silêncio (lembram dele?) mata a charada: “A maior palavra do mundo é eu / Eu, eu, eu, eu, digo eu / Simplesmente Eu / Eu, eu, eu, eu digo eu / Simplesmente eu.”  A música continua: “O Eu é tão gorduchão / É tão gigante grandão / Que o mundo é um pigmeu / Diante de um simples Eu / E como, não se sabe como”.

Tom Zé recordou que em shows de lançamento do disco no ano passado, no Sesc Pinheiros, e a reação das crianças a músicas como esta foi das mais gratas, conforme disse em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo. “Resolvemos usar elementos que usamos em shows, mas trocando símbolos para o universo infantil”, contou Tom. O capacete dos integrantes da banda, um artifício incorporado em outros shows de Tom Zé, era golpeado por um martelo. “Mas, se eu colocasse isso no show de agora e elas fizessem isso em casa, iriam parar no hospital. Trocamos então o martelo por frutas”.

Mas e o Silêncio, esse esperto que cria o conflito na história ao sequestrar a Curiosidade? Tom Zé fala sobre ele na música A Praga do Silêncio, valendo-se à vontade das repetições. “Eu vou te rogar uma praga / Praga, praga / Abracadabra te pega / pega, pega / Assim como flor arrancada do chão / Murcha, murcha, ah ah ah / Estrela tirada do céu / Apaga, apaga, apaga, apaga, apaga.” “Isso (no show) foi uma grande felicidade. As crianças subiram no palco, contra a orientação do próprio Sesc. Olha, quando eu fui fazer esse disco, pedi ao espírito que ele fizesse uma música interessante, e ele respondeu. As crianças, como escreveu alguém, são o mundo a começar de novo.”

Curiosidade fica presa para sempre, mas as letras começam a se solidarizar. Elas se juntam e começam a pensar no enigma, até que o A se desespera e foge para tentar resolver o caso sozinho. E quem se desespera agora são as outras letras, que sentem a falta que um A faz no alfabeto. O mágico G dá uma solução para o problema, quando faz descer do céu algumas de suas amigas estrelas. Elas ocupam as lacunas deixadas pelo A e fazem a leitura ainda possível. Alivia, mas não cura. “Sem você não haverá luas / Nem teremos o azul do mar pra navegar / Ai ai, hum hum / Sem você não A / Sem você não haverá canção”, canta Tom Zé na faixa-título Sem Você Não A.

As letras e as palavras passam por uma  revolução desde a chegada das novas tecnologias. Ao mesmo tempo em que as pessoas começaram a escrever mais, o tempo todo, nunca a língua portuguesa foi tão maltratada em abreviações de postagens em Twitter, Facebook e WhatsApp. Tom Zé acredita que o buraco é mais fundo. “Há mais de 20 anos que a universidade forma pessoas que não sabem ler, nem escrever. Antes da internet, a língua portuguesa já estava depreciada pelas autoridades públicas.”

O traço das ilustrações de Elifas Andreato não é conhecido apenas das capas de discos, como a antológica de Bebadosamba, de Paulinho da Viola: ele também é autor de cartazes que marcaram época como o da imagem central

¹Elifas Andreato nasceu em 1946. É jornalista, artista gráfico, capista e cenógrafo com carreira  permeada de trabalhos artísticos e jornalísticos; às vezes, simultâneos. Como mostra do reconhecimento pela qualidade de sua obra, recebeu diversos prêmios, entre eles:  em 1997, o Prêmio Sharp de Música pela capa do CD Bebadosambade Paulinho da Viola; em 1999, o Prêmio Aberje (Nacional e Regional) pela exposição itinerante O Brasil Encantado de Monteiro Lobato; em 2011, o Prêmio Especial Vladimir Herzog, concedido pelo Instituto Vladimir Herzog e outras entidades a pessoas que se destacam na defesa de valores éticos e democráticos e na luta pelos direitos humanos. Entre seus trabalhos mais conhecidos, vale mencionar o musical infantil Canção dos Direitos da Criançaem parceria com Toquinho, que ganhou os palcos em 2017.

Clique no linque abaixo para ler o livro de Elifas Andreato:

A Maior Palavra do Mundo, uma Fábula Alfabética

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O Museu Correios, situado em Brasília (DF), abriga desde 4 de fevereiro Elifas Andreato, 50 Anos, exposição que possibilita ao público contato com parte significativa da obra do artista plástico autodidata que é referência das mais importantes de resistência cultural e política do país. O nome de Elifas Andreato ganhou força e respeito no auge da ditadura militar, época na qual o paranaense já radicado em São Paulo encampou e reforçou lutas em várias frentes, não apenas para a restituição do regime democrático, mas também pela afirmação da identidade cultural brasileira. Os Correios patrocinam a mostra que poderá ser vista até 3 de abril no Planalto Central e depois será trazida ao público paulistano e das cidades da região metropolitana de São Paulo, que poderá contemplá-la no Centro Cultural Correios.

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Barulho d’água Música junta-se à corrente contra o fim do programa Viola, Minha Viola

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Sem muito o que dizer, mas muito, muito, a lamentar: o Barulho d’água Música se engaja à campanha “Digo não ao fim do Viola Minha Viola”, que mobiliza artistas, jornalistas e blogueiros na tentativa de reverter a suposta decisão da TV Cultura, da Fundação Padre Anchieta (SP), de tirar do ar o programa que Inezita Barroso comandou por 35 anos. O mais curioso e irônico é que o anúncio do fim do Viola, Minha Viola, embora ainda não oficialmente confirmado, ganha status de notícia e forte indício de não ser apenas potoca por conta da demissão dos 52 funcionários que o produziam, há pouco mais de um mês depois de a emissora prestar homenagens das mais emocionantes e justas, em 8 de junho, à rainha da música caipira, com uma festa belíssima na Sala São Paulo, com direito à presença do presidente da emissora e uma gama de artistas como Ivan Lins, Renato Teixeira, Paulo Freire, Roberto Corrêa, Renato Borgheti, Neymar Dias, Pereira da Viola, Mococa e Paraíso, mais o CoralUsp e o Regional do Joãozinho. Naquela noite, três meses após a morte de Inezita, o que mais se comentava e se desejava, tanto entre a plateia, como nos bastidores, até mesmo em respeito à memória e à vontade dela, era quando o programa voltaria ao ar. E já se especulava que poderia assumi-lo tanto Lima Duarte, quanto Sérgio Reis, entre os nomes que corriam à boca pequena.

Eu, Marcelino Lima, cresci assistindo ao programa ao lado de meus pais, nos primórdios apresentado pela Inezita e pelo Moraes Sarmento, e considero inadmissível como fã e blogueiro que um patrimônio nacional como o Viola, Minha Viola acabe reduzido a um produto qualquer, que pudesse ser descartado como se fosse um mero enlatado ou série boboca — sobretudo quando esta postura, como sugerem os critérios ou falta deles conforme  se pode ler lá e acolá, parece atender a uma… pauta política! O Viola, Minha Viola chegaria ao fim tragado pela “reestruturação” da emissora — eufemismo para o verdade sucateamento e chegada às instâncias de decisão de uma direção com visão retrógrada, comercial e nada técnica — no qual constaria até gente que teria defendido o mesmo regime que matou um dos seus mais incontestáveis baluartes, o jornalista Vladimir Herzog –, aliada às dificuldades impostas por uma tal “crise econômica” que assolaria o país. São Pedro, desta vez, pelo menos, não ganhou culpa!

Nico Prado, o ex-diretor do programa, publicou o seguinte comunicado, que tem força de um desabafo:

“Gente, deixo claro que minha demissão não representa um por cento da minha tristeza se comparada aos 52 colegas também demitidos e ao fim do Viola, Minha Viola. Centenas de artistas, músicos e uma imensa legião de fãs da música caipira também foram demitidos. Isso sim é irreparável!”

Há tempos também já se lamentava a mesma destruição na programação da Rádio Cultura — que passou a ter playlists mecanizadas e de gosto duvidoso. A comunidade artística se mobilizou contra isso, sem sucesso,  e até agora não se ouviu nenhuma palavra, comentário, explicação, satisfação de autoridades como o próprio governador presidenciável do Estado Geraldo Alckmin (que reduziu as verbas para a emissora em pelo menos 20%, comenta-se) contra estes atentados ao patrimônio cultural não apenas de São Paulo, mas do Brasil.

Haja indignação, ou melhor, não haja! Nesta segunda-feira, 20, novamente na Sala São Paulo, haverá homenagem da Cultura a Rolando Boldrin pelos 10 anos no ar do Sr. Brasil na mesma emissora. Estaremos lá e, esperamos, que não seja esta a última vez que teremos o Boldrin gravando em um palco.  Já estamos, no entanto, com um incomodo bichinho nos fustigando atrás da orelha, os nós dos dedos inchados de bater três vezes na madeira e temendo que apenas a vela que acendemos para São Gonçalo não seja suficiente!

Vamos botar a boca no trombone, gente!? Compartilhe o jogo da velha e a imagem abaixo! E se for ter barulho, chame-nos para engrossar o caldo!

#VIOLAMINHAVIOLAETERNO

viola-minha-viola-eterno